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Dieta de Exclusão associada a Nutrição Enteral Parcial induziu remissão sustentada de Doença de Crohn

Nutrição Enteral Exclusiva (NEE) é reconhecida como tratamento de primeira linha para crianças portadoras de doença de Crohn (DC) em atividade leve a moderada. Contudo, a implementação dessa terapia representa um grande desafio, já que a criança é impedida de ingerir alimentos orais por período médio de 6 a 8 semanas.

Uma pesquisa recente, realizada em crianças com DC, avaliou a eficácia e tolerabilidade de uma nova intervenção dietética oral denominada Dieta de Exclusão da DC (DEDC), composta por alimentos específicos que são ofertados juntamente a um regime de Nutrição Enteral Parcial (NEP) e a comparou com a NEE.

O estudo foi prospectivo, randomizado, controlado, realizado durante o período de 12 semanas. Os grupos de estudo foram: Grupo 1 (DEDC+NEP) versus Grupo 2 (NEE). Aleatoriamente, 40 participantes do Grupo 1 receberam DEDC+ 50% de calorias por NEP (fórmula Modulen) por 6 semanas (estágio 1), seguido por DEDC+ 25% de calorias por NEP nas semanas 7 a 12 (estágio 2). No Grupo 2, o total de 38 crianças receberam NEE por 6 semanas, seguido de uma dieta oral livre com 25% de calorias por NEP entre as semanas 7 a 12. Os participantes foram avaliados no início do estudo e nas semanas 3, 6 e 12.  Índice Pediátrico de Atividade da DC (IPADC) foi calculado em cada visita. Foram realizados testes laboratoriais (hemograma, taxa de sedimentação de eritrócitos, PCR, albumina e teste de lactose); e adesão a dieta foi avaliada por nutricionista nas semanas 1 e 9, por consulta telefônica. O sequenciamento do gene do RNA ribossômico 16S foi realizado em amostras de fezes. 

O objetivo primário do estudo foi avaliar a tolerância alimentar. Os desfechos secundários foram a intenção de tratar a remissão da doença (ITR) na semana 6 (IPADC abaixo de 10) e a ITR livre de corticoides na remissão sustentada na semana 12.

Setenta e quatro pacientes com idade média de 14,2 ± 2,7 anos completaram o estudo. A combinação de DEDC+ NEP foi tolerada em 97,5% dos participantes, enquanto a NEE foi tolerada por 73,6% (P = 0,002; IC 95%). Na semana 6, cerca de 75% do público que recebeu DEDC+NEP estavam em remissão livre de corticosteroides versus 59% dos que receberam NEE (P = 0,38). Não houve efeito significativo do tipo de terapia dietética na remissão na semana 6 (P = 0,58), mas os autores confirmaram que houve uma forte associação com boa conformidade das duas dietas com a remissão apresentada na semana 6 (P <0,001; IC 95%).

Na semana 12, cerca de 75,6% do grupo DEDC+NEP estavam em remissão livre de corticoides, em comparação com 45,1% do grupo NEE seguido de NEP (P = 0,01). Em participantes que receberam DEDC+NEP, a remissão livre de corticosteróides foi associada a redução de marcadores inflamatórios (PCR sérico e nível fecal de calprotectina) e da composição de Proteobacterias fecais.

Os autores concluíram que a DEDC+NEP foi melhor tolerada que o regime de NEE em crianças com DC leve a moderada. Ambas dietas foram similarmente eficazes na indução da remissão até a semana 6. No entanto, a combinação DEDC+NEP induziu a remissão sustentada em uma proporção significativamente maior que a NEE, e produziu alterações benéficas no microbioma fecal associado à remissão. Esses dados apoiam o uso da DEDC+NEP para induzir remissão em crianças com DC leve a moderada; e sugerem que outros estudos sejam realizados para explorar este assunto.

Referência: Levine A, Wine E, Assa A, et al. Crohn’s Disease Exclusion Diet Plus Partial Enteral Nutrition Induces Sustained Remission in a Randomized Controlled Trial. Gastroenterology. 2019;157(2):440-450.e8.

Por: Patrícia Morais de Oliveira

Impacto da avaliação e terapia nutricional individualizados na perda de peso, complicações e desfechos funcionais de pacientes neurológicos

Recente publicação da revista Clinical Nutrition destacou que a nutrição enteral é a via alimentar preferencial para habilitação precoce de pacientes com doenças neurológicas, uma vez que a disfagia é uma importante complicação nessa população.  No entanto, por diversas razões, o cálculo da necessidade calórica desses pacientes nem sempre é feito da maneira mais adequada. Assim, Schmidt e colaboradores buscaram investigar o efeito da avaliação e terapia nutricional individualizadas na alteração semanal de peso corpóreo, incidência de complicações e desfecho funcional em pacientes neurológicos no período de reabilitação.

Foram incluídos 170 pacientes em uso de nutrição enteral exclusiva, por no mínimo 14 dias. Todos pacientes foram inicialmente submetidos a avaliação do peso, cálculo de Índice de Massa Corpórea (IMC) e foram alocados em dois grupos. No grupo intervenção, a necessidade calórica foi calculada através de uma equação específica que considerou idade, peso, gênero e fator atividade; e foi ofertado fórmula enteral hipercalórica e hiperproteica ou especializada de acordo com a necessidade de cada paciente. No grupo controle, a necessidade calórica foi estimada pela rotina da equipe médica e foi ofertado fórmula enteral padrão. Para análise estatística, adotou-se o valor de significância de p<0,005.

Embora não tenha ocorrido diferenças significativas do aporte calórico ofertado em ambos os grupos, pacientes alocados no grupo controle apresentaram uma maior perda de peso (p=0,002) quando comparado ao grupo intervenção, sobretudo nas primeiras 3 semanas de acompanhamento. No acompanhamento de complicações, os pacientes do grupo intervenção apresentaram menor número de dias com diarreia (p=0,002) e melhora mais rápida da diurese que o grupo controle (p=0,046). Não houve diferenças significativas de desfechos funcionais entre os dois grupos.

Os autores concluíram que avaliação e terapia nutricional individualizadas pareceu ser eficaz na prevenção de perda de peso e de complicações relacionadas a dieta em pacientes neurológicos em período de reabilitação.

Referência: Schmidt SB, Boltzmann M, Krauss JK, Stangel M, Gutenbrunner C, Rollnik JD. Standardized nutritional supply versus individual nutritional assessment: Impact on weight changes, complications and functional outcome from neurological early rehabilitation. Clin Nutr. 2019 May 16.

Por: Natalia Lopes