A alimentação pode influenciar a dor e a inflamação na artrite reumatoide?

A alimentação pode influenciar a dor e a inflamação na artrite reumatoide?

artrite reumatoide
Fonte: Canva

A artrite reumatoide (AR) é uma doença autoimune crônica e sistêmica que combina dor, inchaço, rigidez matinal, e inflamação persistente das articulações. A condição afeta aproximadamente 0.5 a 1% da população mundial, e é mais recorrente em mulheres. Com o tempo, pode levar a deformidades articulares e incapacidade física.

Os distúrbios do sono são altamente prevalentes entre pacientes com AR. A obesidade também é intimamente relacionada à AR. Ela é caracterizada por um estado inflamatório crônico de baixo grau impulsionado pelo tecido adiposo, que produz citocinas pró-inflamatórias, como o fator de necrose tumoral alfa (TNF-α) e a interleucina-6.

Nos últimos anos, a dieta tem ganhado espaço como fator modificável no manejo da doença. Um novo estudo transversal, conduzido com pacientes iranianos, reforçou essa relação ao investigar o Índice Inflamatório da Dieta ajustado por energia (E-DII).

Confira os detalhes da pesquisa a seguir.

Como a pesquisa foi conduzida?

A pesquisa avaliou 246 pacientes com artrite reumatóide (163 mulheres e 83 homens), acompanhados em um ambulatório de reumatologia no Irã. 

A ingestão alimentar ao longo do último ano foi avaliada por meio de entrevistas presenciais conduzidas por nutricionistas, utilizando um questionário de frequência alimentar (QFA) semiquantitativo composto por 168 itens.

Também foi calculado o Índice Inflamatório da Dieta ajustado por energia (E-DII) de cada participante, utilizando 30 parâmetros alimentares específicos. Tais parâmetros incluem a ingestão de betacaroteno, cafeína, fibras, alho, ferro, magnésio, ômega-3, ômega-6, gordura saturada, selênio, vitamina D, vitamina E, vitamina C, vitamina A, zinco e pimenta, entre outros.

Nesse sentido, a amostra foi dividida em quartis, do mais anti-inflamatório (Q1) ao mais pró-inflamatório (Q4).

Em seguida, os pesquisadores compararam esses grupos quanto a indicadores antropométricos, marcadores inflamatórios, atividade da doença, qualidade do sono e qualidade de vida.

Diferenças no padrão alimentar 

Os participantes do quartil mais anti-inflamatório (Q1) consumiam significativamente mais fibras, ômega-3, gorduras mono e poli-insaturadas, além de vitaminas A, D, B6, B12, zinco, selênio e magnésio. Esses nutrientes são reconhecidos por seu papel antioxidante e modulador da inflamação.

Já o grupo mais pró-inflamatório (Q4) apresentava maior ingestão de gordura total (principalmente ômega-6), cafeína, alho, pimenta e vitamina C. Segundo os autores, esse padrão reflete hábitos alimentares específicos mais do que uma dieta de qualidade global.

Dieta pró-inflamatória: mais peso e mais gordura abdominal

Os resultados antropométricos foram consistentes: cada aumento de uma unidade no E-DII esteve associado a maior:

  • Peso corporal e IMC
  • Circunferência da cintura e circunferência do quadril
  • Relação cintura-quadril e relação cintura-estatura

Pacientes no quartil mais pró-inflamatório também tiveram chances significativamente maiores de apresentar obesidade geral e obesidade abdominal (avaliada pela circunferência da cintura e pela relação cintura-estatura).

Mais inflamação, mais dor, mais atividade de doença

O E-DII mais elevado também se associou a:

  • Maior escore de dor (VAS)
  • Maior atividade da doença (DAS28)
  • Níveis mais altos de PCR
  • Elevação de enzimas hepáticas (AST, ALT e ALP)
  • Maior taxa de articulações dolorosas 

Já a taxa de articulações edemaciadas e o VHS não mostraram associação significativa após os ajustes.

Sono e qualidade de vida

Um dos achados mais robustos do estudo foi a relação entre dieta pró-inflamatória e sono ruim. A cada unidade de aumento no E-DII, o escore do Índice de Qualidade do Sono de Pittsburgh (PSQI) subiu significativamente. Além disso, os pacientes com maior E-DII tiveram cerca de 49% mais chance de apresentar sono de má qualidade.

Por outro lado, não houve associação significativa entre E-DII e o escore total de qualidade de vida (SF-36). Apenas o domínio de saúde mental mostrou uma associação (que ficou no limite da significância após ajuste completo). Os autores apontam que essa discrepância com outros estudos pode estar relacionada a diferenças populacionais, instrumentos de avaliação e ajuste de confundidores.

Por trás dos números: possíveis mecanismos

Os autores discutem alguns mecanismos que podem explicar essas associações:

  1. As dietas pró-inflamatórias podem elevar mediadores como IL-6 e PCR, favorecendo maior atividade de doença e inflamação articular. 
  2. 2. O tecido adiposo também produz citocinas inflamatórias, criando um ciclo bidirecional entre obesidade e inflamação.
  3. Componentes da dieta pró-inflamatória podem ativar receptores de padrões moleculares (como TLRs e NLRs) no tecido adiposo.
  4. A relação entre inflamação e sono pode passar pela redução de neurotransmissores como serotonina, dopamina e noradrenalina, enquanto nutrientes como triptofano, magnésio e vitamina B6 favorecem a síntese de melatonina e a regulação do ritmo circadiano.

O que podemos concluir?

O estudo reforça que a qualidade inflamatória da dieta pode estar ligada a desfechos relevantes na artrite reumatoide (obesidade, atividade de doença, dor articular e privação do sono), mesmo quando o efeito sobre a qualidade de vida global ainda não é claro. 

Para o nutricionista clínico, isso sugere que orientar padrões alimentares anti-inflamatórios (ricos em ômega-3, fibras, antioxidantes e micronutrientes) pode ser uma estratégia complementar valiosa no manejo desses pacientes.

Contudo, o desenho transversal da pesquisa impede conclusões causais. Estudos longitudinais e de intervenção ainda são necessários para confirmar a causalidade.

Para ler o artigo científico completo, clique aqui.

Referência: 

Moarefian, A., Bazyar, H., Borazjani, F. et al. Investigating the relationship between energy-adjusted dietary inflammatory index with anthropometric indices, clinical symptoms, inflammatory markers, sleep quality and quality of life in patients with rheumatoid arthritis: a cross-sectional study. BMC Nutr (2026). https://doi.org/10.1186/s40795-026-01380-7

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