Compartilhe este post
Qual peso corporal usar na prescrição da terapia nutricional?
Qual peso corporal usar na prescrição da terapia nutricional?

Foi para responder a essa pergunta que pesquisadores da Universidade Federal de Minas Gerais conduziram uma revisão de escopo. A seguir, confira os principais pontos.
Por que a escolha do peso importa?
No ambiente clínico e hospitalar, condições como edema, ascite, inflamação, imobilidade e obesidade podem comprometer a confiabilidade do peso atual.
Em pacientes acamados, a aferição do peso atual pode ser difícil. Nesses casos, outros pesos podem ser mais adequados:
- Peso ideal (PI)
- Peso ajustado (PA)
- Peso seco (PS)
- Peso usual (PU)
- Peso estimado
Segundo os autores, a maioria das diretrizes traz recomendações gerais baseadas no peso corporal, sem especificar qual tipo de peso usar em cada condição clínica.
Sendo assim, os pesquisadores conduziram uma revisão de escopo, buscando pesquisas sobre o tema em quatro bases (PubMed, Embase, Scopus e Web of Science). Ao total, 41 publicações atenderam aos critérios de inclusão, sendo estas diretrizes, consensos, revisões, estudos primários e resumos de congresso, em adultos recebendo nutrição enteral ou parenteral. A maior parte dos estudos veio da Europa e da América do Norte.
O que a revisão encontrou?
– Peso ideal: foi o mais citado, em 30 publicações (73,2%), principalmente para pacientes com obesidade, sobrecarga hídrica ou mobilidade limitada.
– Peso atual: apareceu em 20 publicações (48,8%), sobretudo para indivíduos com peso normal e sem edema ou ascite.
– Peso ajustado: foi recomendado principalmente em obesidade ou sobrepeso, em pacientes críticos, com doença pulmonar ou em ventilação mecânica e no peri/pós-operatório. O percentual de ajuste variou entre 25%, 33%, 40% e 50%, e alguns estudos nem o informaram.
– Peso usual: foi indicado para pacientes com baixo peso e/ou edema na doença renal aguda ou crônica, e também citado em críticos e em condições pulmonares.
– Peso seco: foi recomendado em apenas dois estudos (4,9%), ambos em doença hepática, principalmente cirrose com ascite.
– Peso estimado: não foi recomendado em nenhuma publicação.
Tendências para cada cenário clínico
A revisão sintetizou as recomendações mais frequentes da literatura:
| Cenário clínico | Peso mais recomendado | Peso alternativo mencionado | Principal justificativa |
| Peso normal, sem edema ou ascite | Peso atual | – | Reflete a massa metabolicamente ativa real |
| Sobrepeso ou obesidade | Peso ideal ou peso ajustado | Peso atual (alguns estudos) | Evite superestimar as necessidades de energia/proteína |
| Edema ou ascite | Peso ideal, peso seco ou peso usual | – | O peso corporal atual pode superestimar as necessidades devido à retenção de líquidos. |
| Doença crítica | Peso atual ou peso ideal | Peso ajustado (pacientes críticos com obesidade) | As recomendações variam de acordo com a composição corporal e o estado de hidratação |
| Doença renal | Sem edema: peso atual
Com edema: peso usual ou ideal |
– | Depende da sobrecarga de fluidos. |
| Doença hepática | Peso seco ou peso ideal (ascite) | Peso atual (sem ascite) | A retenção de líquidos afeta o peso aferido |
Quais os riscos de escolher o peso inadequado?
Um peso que superestima a necessidade nutricional pode levar a hiperglicemia, deposição de gordura, maior produção de CO₂ com impacto na ventilação mecânica, resistência à insulina e estresse oxidativo. Em pacientes com baixo peso, também pode aumentar o risco de síndrome de realimentação.
Já a subestimação aumenta a chance de desnutrição em pacientes previamente desnutridos ou até em bem nutridos.
Consenso e evidência ainda são limitados
Os autores destacam que houve heterogeneidade na escolha do peso entre as condições clínicas e até dentro de uma mesma doença. A justificativa para a escolha também foi frequentemente pouco descrita ou ausente. As recomendações pareciam se basear principalmente em opinião de especialistas, prática institucional ou extrapolação de outras populações.
Poucos estudos compararam diretamente os tipos de peso ou os validaram contra a calorimetria indireta. Por isso, não é possível afirmar qual abordagem é superior.
Vale ressaltar que as frequências representam a quantidade de publicações que recomendam determinada estratégia, e não a força da evidência. Além disso, não houve avaliação de qualidade dos estudos, o que é coerente com o método de uma revisão de escopo. Os autores também alertam que o peso ideal foi extraído como relatado em cada estudo, sem padronização do cálculo.
O que podemos concluir?
A revisão não define um peso único para cada situação, mas oferece um mapa das tendências encontrado na literatura: peso atual quando não há alteração relevante de composição corporal ou de estado hídrico, e peso ideal, ajustado, seco ou usual quando há obesidade, edema ou ascite.
Até haver evidência mais robusta, os autores concluem que a escolha deve ser individualizada, guiada pelo julgamento clínico e pelas características do paciente. Registrar qual peso foi usado e por quê também ajuda a dar transparência à prescrição.
Para ler o artigo científico completo, clique aqui.
Referência:
Campolina BG, Silva LA, Bordenski GH, Machado AM, Duarte CK. Selecting appropriate weight parameters for nutritional prescription during nutrition support: a scoping review. Nutrition. 2026 Sep 8;153:113424. doi: 10.1016/j.nut.2026.113424. Epub ahead of print. PMID: 42815068.
Se você gostou deste conteúdo, leia também:
- Terapia nutricional em pacientes críticos: novas recomendações para a fase aguda da doença grave
- Obesidade sarcopênica: sociedades internacionais lançam chamado à ação e agenda nutricional
- Nutrição parenteral em oncologia: 5 etapas para guiar decisões
Cursos que podem te interessar:
- Pós-graduação Nutrição Clínica e Hospitalar Semipresencial SP
- Curso de Aperfeiçoamento Teórico-prático Hospital
Redação Ganep Educação



