Obesidade sarcopênica: sociedades internacionais lançam chamado à ação e agenda nutricional

Obesidade sarcopênica: sociedades internacionais lançam chamado à ação e agenda nutricional

obesidade sarcopênica
Fonte: Canva

A obesidade e a sarcopenia, isoladamente, são dois dos maiores desafios da nutrição clínica atual. Quando os dois fenômenos se combinam no mesmo paciente (excesso de gordura corporal + perda de massa e função muscular), surge a chamada obesidade sarcopênica (OS), um fenótipo que traz consigo consequências graves.

Um documento recém-publicado reuniu um posicionamento conjunto de um grupo internacional de sociedades de nutrição, incluindo a ESPEN (Europa), a FELANPE (América Latina), a PENSA (Ásia), a SASPEN (África do Sul) e a AuSPEN (Austrália e Nova Zelândia).

Os especialistas propõem uma verdadeira agenda nutricional para enfrentar essa condição. O texto é um chamado à ação, com declarações práticas sobre diagnóstico, prevenção e manejo nutricional da OS. Confira a seguir.

A obesidade sarcopênica tende a aumentar

Em adultos mais velhos vivendo com obesidade na comunidade, a prevalência estimada da OS gira em torno de 10%, mas tende a ser ainda maior em quadros de doença catabólica, independentemente da idade. 

O impacto clínico é expressivo, aumentando as taxas de resistência à insulina, diabetes tipo 2, pior capacidade cardiorrespiratória, fragilidade, maior risco de internação e de necessidade de cuidados intensivos, pior qualidade de vida e redução da sobrevida.

A prevalência da obesidade sarcopênica tende a crescer nos próximos anos, devido a uma combinação de fatores: 

  • Envelhecimento populacional;
  • Sedentarismo;
  • Doenças crônicas não transmissíveis que aceleram o catabolismo muscular;
  • O próprio tratamento da obesidade

Agonistas de GLP-1: ponto de atenção

O documento chama atenção para o fato de medicamentos incretino-miméticos podem levar a perdas relevantes de massa magra, em alguns casos representando de um quarto a um terço do peso total perdido.

Por outro lado, tais fármacos representam um avanço real no tratamento da obesidade, com perdas de peso superiores a 15-20%.

Sendo assim, reforça-se a necessidade de monitoramento nutricional e de composição corporal durante o tratamento, e não a contraindicação automática dessas terapias em pacientes de risco para OS. Além disso, deve-se implementar mudanças apropriadas no estilo de vida com ingestão nutricional otimizada.

Diagnóstico da obesidade sarcopênica

O documento reforça o uso do algoritmo diagnóstico proposto pela Sarcopenic Obesity Global Leadership Initiative (SOGLI), publicado em 2022 em parceria entre ESPEN e EASO. Os especialistas apoiam a flexibilidade do algoritmo para facilitar sua implementação em todos os cenários clínicos, incluindo ambientes com recursos limitados. 

Por exemplo, para detectar baixa função muscular, pode-se utilizar força de preensão manual e o teste de sentar e levantar. Já para massa muscular e composição corporal podem ser avaliados com DXA, bioimpedância, e tomografia computadorizada, além de medidas antropométricas futuramente (com investigação e validação adicionais).

Além disso, recomenda-se o uso de pontos de corte específicos por etnia, uma vez que os parâmetros de composição corporal variam entre populações.

O grupo também recomenda que pacientes com obesidade sarcopênica sejam sistematicamente avaliados para desnutrição, usando os critérios GLIM, já que os dois quadros compartilham mecanismos fisiopatológicos relacionados à perda de massa muscular.

Os quatro pilares da agenda nutricional

O texto organiza suas recomendações em torno de quatro eixos principais. Confira as orientações abaixo.

1) Prevenção 

Reduzir ultraprocessados e padrões alimentares não saudáveis (ricos em gorduras saturadas e com alta carga glicêmica), pois contribuem para obesidade e alterações catabólicas musculares, incluindo inflamação, estresse oxidativo e resistência à insulina.

Priorizar padrões alimentares saudáveis e tradicionais (como a dieta mediterrânea), devido ao potencial de reduzir a carga pró-inflamatória e pró-oxidativa, limitando fatores sistêmicos e musculares que contribuem para a sarcopenia e a obesidade sarcopênica.

Garantir ingestão proteica acima de 1 g/kg de peso corporal ajustado por dia, para preservação da massa muscular;

Assegurar micronutrientes adequados, com destaque para vitamina D e ômega-3 (associados a mecanismos de proteção muscular).

2) Cuidado nutricional em obesidade + sarcopenia ou desnutrição 

Em condições hipercatabólicas (doença aguda, internação em UTI, cirurgia, quimioterapia, doenças crônicas avançadas, etc), a recomendação é de oferta proteica ainda maior (acima de 1 a 1,2 g/kg de peso ajustado/dia) e dietas normocalóricas, evitando a restrição calórica nestes cenários de alto risco.

Quanto à mensuração de necessidades energéticas e proteicas, os profissionais reforçam o uso do peso corporal ajustado (PCA) quando mensurações mais precisas (calorimetria indireta ou balanço de nitrogênio) não estão disponíveis. 

Calcula-se o PCA como o peso corporal correspondente a um IMC de:

  • 25 + 25% do excesso de peso corporal (EPC) para indivíduos caucasianos
  • 23 mais 25% do EPC para indivíduos do Leste Asiático
  • Ou quaisquer pontos de corte de IMC específicos para a etnia que sejam apropriados.

3) Manejo da obesidade com foco na preservação muscular 

Para prevenir a perda muscular, a perda de peso deve ser gradual sempre que possível, com restrição calórica limitada (<20-25% das necessidades estimadas) em pacientes de risco, monitorando força muscular e composição corporal ao longo de todo o processo.

Essa recomendação vale principalmente durante o uso de medicamentos anti-obesidade e após cirurgia bariátrica.

4) Atividade física 

Recomenda-se treinamento com exercícios em todas as etapas da prevenção, assistência nutricional e manejo da obesidade sarcopênica.

O exercício resistido é apontado como estratégia central, combinando exercícios de membros superiores e inferiores, sempre individualizadas conforme comorbidades e nível de condicionamento.

O comportamento sedentário também deve ser reduzido.

O que muda na prática clínica?

Para o nutricionista, a mensagem central do documento é: peso e IMC não são suficientes. Avaliar composição corporal e função muscular deve se tornar rotina, especialmente em pacientes idosos, com comorbidades ou em processo de emagrecimento.

Por fim, o grupo lança um convite direto à comunidade científica, para a realização de mais pesquisas em populações com obesidade. A maior parte dos estudos sobre proteína e massa muscular ainda é feita em idosos sem obesidade, e o documento se posiciona como o ponto de partida de uma rede internacional voltada a isso.

Para ler o material completo, clique aqui.

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Referência: 

Barazzoni R, Ballesteros MD, Bischoff SC, et al. Sarcopenic obesity: Call to action and nutritional agenda from the international clinical nutrition community. Clin Nutr. 2026;61:106645.

Pós-graduação de Nutrição Clínica

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