Dieta da saúde planetária pode ajudar pré-diabéticos a reverter o quadro glicêmico

Dieta da saúde planetária pode ajudar pré-diabéticos a reverter o quadro glicêmico

dieta da saúde planetária
Fonte: Canva

O pré-diabetes é um estágio metabólico reversível, mas essa reversão nem sempre é garantida. Estima-se que apenas 33% a 59% das pessoas com pré-diabetes retornem à normoglicemia, enquanto as demais permanecem estagnadas ou evoluem para o diabetes tipo 2 (DM2). 

Por isso, identificar estratégias nutricionais capazes de favorecer a recuperação metabólica é uma prioridade na saúde pública.

É nesse contexto que um novo estudo investigou se a adesão à Dieta da Saúde Planetária (o padrão alimentar proposto pela Comissão EAT-Lancet em 2019) está associada à reversão ou ao agravamento do quadro glicêmico em adultos pré-diabéticos. Confira os detalhes da pesquisa a seguir.

Mais de 4 mil pré-diabéticos participaram da pesquisa

Os pesquisadores utilizaram dados do estudo de coorte MMRT, que acompanhou adultos residentes em Teerã, no Irã, entre 2017 e 2023. A amostra final de participantes somou 4.143 adultos com diagnóstico de pré-diabetes no início do estudo (46,2% homens, com idade média de 43,3 anos).

A adesão à dieta foi mensurada por meio de um questionário de frequência alimentar validado, e convertida no Índice de Dieta da Saúde Planetária (PHDI), um escore de 0 a 150 pontos que avalia 16 grupos alimentares distribuídos em quatro domínios (adequação, otimização, proporção e moderação).

Após cinco anos de acompanhamento, os participantes foram reclassificados em três categorias:

  • Regressão à normoglicemia (1.288 participantes): definida como glicemia de jejum (GJ) <100 mg/dL, glicemia plasmática de 2 horas (G2h) <140 mg/dL, e hemoglobina glicada (HbA1c) <5,7%.
  • Pré-diabetes persistente (categoria de referência): GJ de 100 a 125 mg/dL, G2h de 140 a 199 mg/dL ou HbA1c elevada (5,7 a 6,4%).
  • Progressão para diabetes tipo 2 (775 participantes): atendimento a um ou mais critérios diagnósticos da ADA – GJ ≥ 126 mg/dL, G2h ≥ 200 mg/dL ou HbA1c ≥ 6,5%.

Maior adesão à dieta planetária, maior chance de reversão

Os resultados mostraram uma associação positiva e consistente entre o PHDI e a regressão à normoglicemia. 

Nos modelos totalmente ajustados para fatores demográficos, socioeconômicos, comportamentais, metabólicos e dietéticos, os participantes do quartil mais alto de adesão à dieta (Q4) apresentaram 28% mais chances de retornar à normoglicemia em comparação aos do quartil mais baixo (Q1). 

Além disso, cada aumento de um desvio-padrão no escore do PHDI já esteve associado a 10% mais chances de regressão.

Na análise por componentes individuais da dieta, o consumo de leguminosas, vegetais, laticínios, óleos vegetais e aves esteve associado a maiores chances de regressão.

Já o consumo de carne vermelha (principalmente), tubérculos e vegetais amiláceos esteve associado a menores chances de reversão do quadro.

Diferenças entre homens e mulheres

A associação entre PHDI e regressão à normoglicemia foi significativamente mais forte entre homens do que entre mulheres. 

Os autores sugerem que isso pode refletir um padrão alimentar basal menos saudável entre os homens, gerando uma margem maior de melhora, além de maior adiposidade visceral e resistência à insulina hepática, condições responsivas à composição da dieta da saúde planetária.

O papel da resistência à insulina e da esteatose hepática

Ao ajustar os modelos para o HOMA-IR (marcador de resistência à insulina), a associação entre PHDI e regressão à normoglicemia perdeu parte de sua força estatística, sugerindo que a sensibilidade à insulina medeia parcialmente esse benefício

Ademais, a doença hepática esteatótica associada à disfunção metabólica (MASLD), altamente prevalente no quartil de menor adesão à dieta, também explicou parte importante da associação observada, reforçando a conexão entre qualidade da dieta, gordura hepática e metabolismo glicêmico.

E quanto à progressão para diabetes tipo 2?

Embora a dieta de saúde planetária tenha promovido a regressão do pré-diabetes,  a adesão ao PHDI não esteve associada à redução do risco de progressão para diabetes tipo 2 após ajuste completo para as covariáveis. Isso contrasta com estudos anteriores com populações sem diabetes, que mostraram associação protetora entre a dieta EAT-Lancet e a incidência de DM2.

Os autores levantam a hipótese de que, no estágio de pré-diabetes já estabelecido, alterações mais avançadas (como disfunção das células beta pancreáticas e resistência à insulina consolidada) podem tornar a intervenção dietética menos eficaz para impedir a progressão, mesmo que ela ainda seja capaz de favorecer a recuperação metabólica em quem está mais próximo da normoglicemia.

O que podemos concluir?

Para profissionais que atuam com pacientes pré-diabéticos, o estudo reforça que orientar o aumento no consumo de leguminosas, vegetais, laticínios e aves, com redução da carne vermelha pode ser uma estratégia efetiva para favorecer a reversão do quadro glicêmico, especialmente quando associada ao manejo da resistência à insulina e da saúde hepática.

Por se tratar de um estudo observacional, com avaliação dietética em um único momento, os resultados não estabelecem causalidade e precisam de confirmação por estudos de intervenção. Ainda assim, a robustez das análises de sensibilidade conferem consistência aos achados.

Para ler o artigo científico completo, clique aqui.

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Referência:
Kamrani, F., Etesami, E., Ghanavati, M. et al. Adherence to the planetary health diet index and risk of glycemic progression or regression in prediabetic individuals: a longitudinal study. Nutr Metab (Lond) (2026). https://doi.org/10.1186/s12986-026-01176-3

Pós-graduação de Nutrição Clínica

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