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Microbiota intestinal e câncer de pulmão: disbiose é fator comum entre os pacientes
Microbiota intestinal e câncer de pulmão: disbiose é fator comum entre os pacientes

A relação entre microbiota intestinal e câncer vem ganhando atenção à medida que novas evidências revelam a participação dos microrganismos intestinais na regulação da imunidade, do metabolismo e da inflamação. No câncer de pulmão, pesquisas sugerem que a composição da microbiota intestinal apresenta características diferentes daquelas encontradas em indivíduos sem a doença.
Uma revisão sistemática com meta-análise publicada em 2026 na Frontiers in Microbiology investigou justamente essa associação. Os pesquisadores reuniram 27 estudos, envolvendo 2.263 participantes, dos quais 1.234 tinham câncer de pulmão e 1.029 pertenciam aos grupos controle.
Menor diversidade da microbiota em pacientes com câncer de pulmão
Um dos principais achados sobre microbiota intestinal e câncer foi a redução de alguns indicadores de diversidade microbiana entre os pacientes com câncer de pulmão.
A meta-análise identificou valores significativamente menores nos índices de diversidade da microbiota (ACE, Chao1 e Shannon), sugerindo redução da riqueza e da diversidade da microbiota intestinal. Entretanto, nem todos os índices avaliados apresentaram diferenças estatisticamente significativas entre pacientes e controles.
Além disso, diferenças na composição global da comunidade microbiana, avaliadas pela diversidade beta, foram encontradas na maioria dos estudos. Esses resultados indicam uma associação entre câncer de pulmão e alterações no ecossistema intestinal, compatíveis com um quadro de disbiose.
Quais alterações foram encontradas?
Ao analisar grupos específicos de bactérias, os pesquisadores também identificaram diferenças relevantes. Pacientes com câncer de pulmão apresentaram menor abundância relativa de Firmicutes e maior abundância relativa de Bacteroidetes em comparação aos controles.
Outro destaque na relação entre microbiota intestinal e câncer foi o gênero Lachnospira. Sua abundância relativa foi significativamente menor nos pacientes com câncer de pulmão (SMD = −1,01; IC95%: −1,29 a −0,73).
Esse gênero está relacionado à produção de ácidos graxos de cadeia curta (AGCC), metabólitos envolvidos em processos metabólicos e imunológicos. Sua redução pode indicar alterações na capacidade metabólica da microbiota, embora o significado clínico desse achado ainda precise ser investigado.
O que o intestino tem a ver com o pulmão?
Uma possível explicação está no chamado eixo intestino-pulmão. Essa comunicação bidirecional permite que microrganismos intestinais e seus metabólitos influenciem processos relacionados à inflamação sistêmica, à resposta imunológica e à integridade das barreiras epiteliais.
Por esse motivo, compreender a relação entre microbiota intestinal e câncer pode ajudar a esclarecer não apenas aspectos envolvidos na patogênese da doença, mas também possíveis diferenças na resposta aos tratamentos.
Estudos citados pelos autores já relacionaram determinados microrganismos à resposta à imunoterapia. Essas evidências levantam a possibilidade de que, futuramente, o perfil da microbiota possa contribuir para a estratificação dos pacientes e para estratégias mais personalizadas de tratamento.
Disbiose é causa ou consequência?
Apesar dos resultados, é importante não interpretar a associação entre microbiota intestinal e câncer como uma relação direta de causa e efeito.
Os estudos incluídos eram observacionais, incluindo desenhos caso-controle e transversais, o que limita o estabelecimento de causalidade. Assim, ainda não é possível determinar se a disbiose participa do desenvolvimento do câncer, se surge como consequência da doença ou se é influenciada por outros fatores.
Além disso, fatores como tabagismo, padrão alimentar, exposição a antibióticos e comorbidades não foram controlados de maneira uniforme entre os estudos. A concentração das pesquisas em populações asiáticas e as diferenças metodológicas nas técnicas de sequenciamento também limitam a generalização dos resultados para outras populações. A própria revisão mostra heterogeneidade nas plataformas utilizadas para caracterizar a microbiota.
Qual o impacto desses achados?
Os dados reforçam a existência de uma associação entre alterações da microbiota intestinal e câncer de pulmão, marcada principalmente pela menor diversidade microbiana em determinados índices e por alterações taxonômicas específicas.
No futuro, esses perfis poderão ser investigados como biomarcadores não invasivos, inclusive para auxiliar na diferenciação entre nódulos pulmonares malignos e benignos, na estratificação dos pacientes e na predição da resposta à imunoterapia. Os próprios autores destacam essas possibilidades como aplicações clínicas futuras da pesquisa sobre microbiota.
Por enquanto, entretanto, estratégias direcionadas à microbiota — como probióticos, prebióticos, simbióticos ou transplante de microbiota fecal — ainda precisam de validação robusta em estudos clínicos controlados antes de serem incorporadas à rotina de pacientes com câncer de pulmão.
Assim, embora os achados ampliem a compreensão sobre a relação entre microbiota intestinal e câncer, eles devem ser interpretados como evidências de associação, e não como demonstração de que a disbiose seja causa direta do câncer de pulmão.
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Referência
Xu X, Yu T, Wu H, Guo Y, Li M, Han Y, Zhao L, Yu X. The composition alteration of gut microbiota in lung cancer: a systematic review and meta-analysis. Front Microbiol. 2026 Jul 20;17:1873706. doi: 10.3389/fmicb.2026.1873706. PMID: 42548731; PMCID: PMC13429741.
Redação Ganep Educação



