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Dieta plant-based/ low-fat versus dieta onívora low carb/cetogênica na ingestão energética

Várias teorias tentam explicar os mecanismos de regulação da ingestão energética em pessoas com sobrepeso e obesidade. O modelo carboidrato-insulina postula que dietas ricas em carboidratos levam ao excesso de secreção de insulina, aumentando a ingestão de energia e promovendo o acúmulo de gordura. Por outro lado, o modelo que considera baixa ingestão de carboidratos prevê a redução voluntária (de acordo com a vontade do paciente – ad libitum) da ingestão de energia em comparação com as dietas com baixo teor de gordura e alto teor de carboidratos.

Para testar estas duas hipóteses, Hall e colaboradores acompanharam 20 adultos com idade de 30 anos e índice de massa corporal (IMC) de 27,8 ± 1,3 kg m². Os pacientes foram internados no National Institute of Health Clinical Center e randomizados para consumir uma dieta minimamente processada à base de vegetais, baixo teor de gordura e alto teor de carboidratos (10,3% de gordura e 75,2% de carboidratos) com alta carga glicêmica (85 g/ 1.000 kcal) ou uma dieta cetogênica minimamente processada, à base de animais e pobre em carboidratos (75,8% de gordura e 10% de carboidratos) com baixa carga glicêmica (6 g /1.000 kcal). Todos os pacientes incluídos consumiram ambas as dietas de estudo por um período de 2 semanas, e a alternação de uma dieta para outra se deu imediatamente após o final do consumo da primeira. Foi identificado um caso de hipoglicemia que levou a desistência do participante durante a dieta pobre em carboidratos.

Os resultados primários compararam a ingestão média diária de energia ad libitum entre cada período de 2 semanas e na semana final de cada dieta. Os autores identificaram que a dieta com baixo teor de gordura levou a menor ingestão de energia, com redução de 689 ± 73 kcal/d na primeira semana (p < 0,0001) e 544 ± 68 kcal/d na segunda semana (p < 0,0001), em comparação a dieta com baixo teor de carboidratos em 2 semanas. Portanto, foi concluído que as teorias do modelo de carboidrato-insulina podem ser inconsistentes e se associam ao aumento da ingestão energética.

Referência:  Hall KD, Guo J, Courville AB. Effect of a plant-based, low-fat diet versus an animal-based, ketogenic diet on ad libitum energy intake. Nat Med. 2021 Feb;27(2):344-353.Link de acesso: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/33479499/

Por Lidiane Catalani

Consenso Americano: Dieta e Atividade física para prevenção do Câncer

O câncer é a segunda causa de morte em todo o mundo. Apesar de sua incidência ter aumentado nos últimos, hoje se reconhece que a doença pode ser prevenida com alimentação e estilo de vida adequados. Recentemente a Sociedade Americana do Câncer (ACS) divulgou novas recomendações dietéticas e de atividade física para o combate e prevenção de diferentes tipos de câncer, são elas:

1. Atingir e manter o peso corporal dentro da faixa considerada saudável; e evite o ganho de peso na vida adulta.

2. Ser fisicamente ativo. Adultos devem praticar de 150-300 min de atividade física de intensidade moderada por semana, ou 75-150 min de atividade física intensa, ou uma combinação de intensidades para atingir o limite superior de 300 min de atividade/semana. Crianças e adolescentes devem praticar pelo menos 1 hora de atividade de intensidade moderada ou intensa por dia. É recomendado limitar o comportamento sedentário: sentar, deitar, assistir televisão e outras formas de entretenimento na tela (videogame, computador);

3. Seguir um padrão alimentar saudável em todas as idades, que inclui: variedade de vegetais verde escuro, vermelho e laranja, leguminosas ricas em fibras (feijão e ervilha); frutas frescas, variáveis e com casca e grãos integrais. Evitar: carnes vermelhas e processadas; bebidas adoçadas com açúcar e adoçantes; ou alimentos altamente processados ​​e produtos de grãos refinados;

4. Não consumir bebidas alcóolicas ou limitar seu consumo a não mais do que 1 dose/dia para mulheres e 2 doses por dia para homens;

Ação comunitária: organizações públicas e privadas devem atuar de forma colaborativa nos níveis nacional, estadual e local para desenvolver, defender e implementar mudanças ambientais que aumentam o acesso a alimentos nutritivos e fornecer acesso a atividade física para todos os indivíduos.

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Dieta de Exclusão associada a Nutrição Enteral Parcial induziu remissão sustentada de Doença de Crohn

Nutrição Enteral Exclusiva (NEE) é reconhecida como tratamento de primeira linha para crianças portadoras de doença de Crohn (DC) em atividade leve a moderada. Contudo, a implementação dessa terapia representa um grande desafio, já que a criança é impedida de ingerir alimentos orais por período médio de 6 a 8 semanas.

Uma pesquisa recente, realizada em crianças com DC, avaliou a eficácia e tolerabilidade de uma nova intervenção dietética oral denominada Dieta de Exclusão da DC (DEDC), composta por alimentos específicos que são ofertados juntamente a um regime de Nutrição Enteral Parcial (NEP) e a comparou com a NEE.

O estudo foi prospectivo, randomizado, controlado, realizado durante o período de 12 semanas. Os grupos de estudo foram: Grupo 1 (DEDC+NEP) versus Grupo 2 (NEE). Aleatoriamente, 40 participantes do Grupo 1 receberam DEDC+ 50% de calorias por NEP (fórmula Modulen) por 6 semanas (estágio 1), seguido por DEDC+ 25% de calorias por NEP nas semanas 7 a 12 (estágio 2). No Grupo 2, o total de 38 crianças receberam NEE por 6 semanas, seguido de uma dieta oral livre com 25% de calorias por NEP entre as semanas 7 a 12. Os participantes foram avaliados no início do estudo e nas semanas 3, 6 e 12.  Índice Pediátrico de Atividade da DC (IPADC) foi calculado em cada visita. Foram realizados testes laboratoriais (hemograma, taxa de sedimentação de eritrócitos, PCR, albumina e teste de lactose); e adesão a dieta foi avaliada por nutricionista nas semanas 1 e 9, por consulta telefônica. O sequenciamento do gene do RNA ribossômico 16S foi realizado em amostras de fezes. 

O objetivo primário do estudo foi avaliar a tolerância alimentar. Os desfechos secundários foram a intenção de tratar a remissão da doença (ITR) na semana 6 (IPADC abaixo de 10) e a ITR livre de corticoides na remissão sustentada na semana 12.

Setenta e quatro pacientes com idade média de 14,2 ± 2,7 anos completaram o estudo. A combinação de DEDC+ NEP foi tolerada em 97,5% dos participantes, enquanto a NEE foi tolerada por 73,6% (P = 0,002; IC 95%). Na semana 6, cerca de 75% do público que recebeu DEDC+NEP estavam em remissão livre de corticosteroides versus 59% dos que receberam NEE (P = 0,38). Não houve efeito significativo do tipo de terapia dietética na remissão na semana 6 (P = 0,58), mas os autores confirmaram que houve uma forte associação com boa conformidade das duas dietas com a remissão apresentada na semana 6 (P <0,001; IC 95%).

Na semana 12, cerca de 75,6% do grupo DEDC+NEP estavam em remissão livre de corticoides, em comparação com 45,1% do grupo NEE seguido de NEP (P = 0,01). Em participantes que receberam DEDC+NEP, a remissão livre de corticosteróides foi associada a redução de marcadores inflamatórios (PCR sérico e nível fecal de calprotectina) e da composição de Proteobacterias fecais.

Os autores concluíram que a DEDC+NEP foi melhor tolerada que o regime de NEE em crianças com DC leve a moderada. Ambas dietas foram similarmente eficazes na indução da remissão até a semana 6. No entanto, a combinação DEDC+NEP induziu a remissão sustentada em uma proporção significativamente maior que a NEE, e produziu alterações benéficas no microbioma fecal associado à remissão. Esses dados apoiam o uso da DEDC+NEP para induzir remissão em crianças com DC leve a moderada; e sugerem que outros estudos sejam realizados para explorar este assunto.

Referência: Levine A, Wine E, Assa A, et al. Crohn’s Disease Exclusion Diet Plus Partial Enteral Nutrition Induces Sustained Remission in a Randomized Controlled Trial. Gastroenterology. 2019;157(2):440-450.e8.

Por: Patrícia Morais de Oliveira

Influência da dieta e suplementos orais em adultos obesos com depressão

Alimentação saudável e uso de suplementos ricos em ômega-3, vitamina D e ácido fólico têm sido associados a prevenção e melhora do tratamento do Transtorno Depressivo Maior (TDM), um distúrbio psiquiátrico também conhecido como depressão.  

Em recente estudo clínico randomizado duplo cego, Bot e colaboradores avaliaram a influência da dieta e da suplementação de diversos nutrientes, associados ou não a terapia cognitivo-comportamental (TCC), na prevenção de um novo episódio de TDM em 1.025 adultos obesos e sobrepeso com diagnóstico de TDM classificado pelo questionário PHQ-9.

O acompanhamento teve duração de 12 meses e os participantes foram divididos em 4 grupos: (1) suplemento placebo sem terapia (TCC); (2) suplemento placebo com TCC; (3) suplemento contendo multinutrientes sem TCC; ou (4) suplemento com multinutrientes associado a TCC. O suplemento de multinutrientes foi composto de 1.412 mg de ácidos graxos ômega-3 (eicosapentaenóico e docosahexaenóico), 30 μg de selênio, 400 μg de ácido fólico, 20 μg de vitamina D3 e 100 mg de cálcio, oferecidos em 2 comprimidos por dia, tomados diariamente durante 1 ano. Foram oferecidas 21 sessões de TCC, sendo 15 individuais e 6 em grupo, também durante 1 ano.

Avaliação dos participantes foi realizada nos períodos de 3, 6 e 12 meses do estudo. Apesar da boa aderência às intervenções (77%), os pesquisadores não observaram efeito significativo da suplementação ou alimentação associados a TCC na ocorrência de TDM (p > 0,05). Os autores da pesquisa sugerem que o baixo índice de diagnóstico de TDM no início do estudo e o tempo de acompanhamento que podem ter sido insuficientes para identificar efeitos positivos da intervenção. Assim, concluiu-se que em adultos com sobrepeso ou obesidade que apresentam sintomas depressivos, a suplementação de multinutrientes e terapia de ativação comportamental não reduziu os episódios de TDM durante o período de 1 ano de acompanhamento.

Referência: Bot M, Brouwer IA, Roca M, et al.  Effect of Multinutrient Supplementation and Food-Related Behavioral Activation Therapy on Prevention of Major Depressive Disorder Among Overweight or Obese Adults With Subsyndromal Depressive Symptoms: The MooDFOOD Randomized Clinical Trial. JAMA. 2019, 321(9):858-868. R

Por: Natália Lopes