Dieta com menos ultraprocessados melhora saúde metabólica em idosos, independente de ser onívora ou vegetariana

Dieta com menos ultraprocessados melhora saúde metabólica em idosos, independente de ser onívora ou vegetariana

ultraprocessados
Fonte: Canva

A relação entre qualidade da dieta e envelhecimento saudável ganhou mais um capítulo na literatura científica. 

Um ensaio clínico conduzido por pesquisadores da South Dakota State University trouxe evidências importantes sobre o impacto da redução de ultraprocessados em idosos, e o resultado surpreende: tanto a dieta onívora quanto a vegetariana produziram benefícios equivalentes, desde que baseadas em alimentos minimamente processados e alinhadas às Diretrizes Dietéticas para Americanos (DGA).

Confira os detalhes da pesquisa a seguir.

O cenário que motivou o estudo

O envelhecimento populacional é acompanhado de aumento significativo do risco cardiometabólico. Nesse sentido, mais da metade dos adultos acima de 60 anos preenche critérios para síndrome metabólica

Ao mesmo tempo, os alimentos ultraprocessados (AUP) correspondem a mais de metade das calorias consumidas diariamente por adultos norte-americanos acima dos 50 anos. Esse padrão também se observa em partes da Europa, e de forma crescente em países em desenvolvimento.

Como se sabe, os AUPs são alimentos industrializados caracterizados por baixo teor de fibras e altas quantidades de açúcares adicionados, gorduras saturadas e totais, sódio e aditivos industriais.

Apesar desse cenário preocupante, havia uma lacuna relevante: nenhum ensaio de alimentação controlada havia testado, em idosos, a redução de ultraprocessados dentro de um padrão dietético reconhecido pelas diretrizes nutricionais. Foi exatamente essa lacuna que o estudo PRODMED2 (Protein-Distinct Macronutrient-Equivalent Diet 2) se propôs a preencher.

Como o estudo foi conduzido

Trinta e seis adultos norte-americanos com 65 anos ou mais participaram de um protocolo cruzado de 18 semanas. Cada participante seguiu, em sequência aleatória, duas dietas distintas, uma onívora e uma lacto-ovo vegetariana, durante 8 semanas, com intervalo de 2 semanas de washout entre elas.

A dieta onívora tinha como proteína principal o lombo suíno minimamente processado (162 g/dia), enquanto a dieta vegetariana era baseada em lentilhas e outros legumes (331,6 g/dia). 

Ambas foram formuladas para ser isocalóricas, com distribuição equivalente de macronutrientes, alinhadas às recomendações da DGA e com drástica redução de ultraprocessados, de aproximadamente 50% da energia na dieta habitual para cerca de 13% nas dietas do estudo.

Os desfechos avaliados incluíram composição corporal por DXA, perfil lipídico, sensibilidade à insulina, marcadores inflamatórios e hormônios ligados ao equilíbrio energético (especificamente a FGF21 e a leptina).

Resultados: melhora ampla e equivalente entre as dietas

Ao migrar de uma dieta rica em ultraprocessados para qualquer uma das duas intervenções, os participantes reduziram espontaneamente a ingestão calórica, 333 kcal/dia na dieta onívora e 437 kcal/dia na vegetariana, sem que isso fosse solicitado ou prescrito.

Essa redução espontânea de energia resultou em perda de peso significativa e comparável entre os grupos: aproximadamente 3,8 kg na dieta onívora e 4,4 kg na vegetariana. A massa de gordura total caiu em torno de 2,6 a 2,9 kg, e a gordura visceral, considerada a de maior risco cardiometabólico, reduziu 13% em ambos os grupos.

No plano metabólico, os resultados foram igualmente expressivos. O índice HOMA-IR, utilizado para estimar a resistência à insulina, diminuiu de forma equivalente em ambas as dietas (-0,53 e -0,51). Insulina e peptídeo C também reduziram significativamente. 

O perfil lipídico melhorou de forma consistente: colesterol total, LDL, não-HDL e apolipoproteína B apresentaram reduções significativas, sem diferença entre as dietas. A proteína C-reativa (marcador de inflamação sistêmica) também caiu de maneira expressiva, 364 pg/mL para a dieta onívora e 421 pg/mL para a dieta vegetariana.

Por fim, dois hormônios chamaram atenção especial dos pesquisadores. A FGF21, uma hepatocina envolvida na homeostase energética e associada ao envelhecimento saudável, aumentou em ambas as dietas (em média +65 pg/mL na onívora e +88 pg/mL na vegetariana). 

Ao mesmo tempo, a leptina (hormônio da saciedade) caiu proporcionalmente à perda de gordura corporal. Segundo os autores, essas mudanças paralelas sugerem uma modulação coordenada de vias de sensoriamento de nutrientes em resposta à redução de ultraprocessados, sem que qualquer restrição tenha sido imposta.

O que aconteceu após um ano?

Um subgrupo de 32 participantes retornou para uma avaliação de seguimento cerca de 1 ano após o término do estudo. 

Os dados mostraram que, à medida que o consumo de ultraprocessados voltou a subir (de 13% durante a intervenção para 44% no seguimento), peso, adiposidade e marcadores cardiometabólicos também retornaram aos valores da linha de base. Isso aconteceu mesmo que a ingestão energética tenha permanecido inferior ao padrão de referência (-126,3 kcal).

Esse achado reforça que os benefícios observados estavam diretamente ligados à manutenção de um padrão alimentar de baixo teor de ultraprocessados.

O que podemos concluir?

Os autores destacam que os benefícios foram equivalentes entre a dieta onívora e a vegetariana, desde que ambas fossem baseadas em alimentos minimamente processados e nutricionalmente densas. 

Isso indica que a melhora cardiometabólica foi impulsionada pela redução dos ultraprocessados, e não pela escolha entre proteína animal ou vegetal.

Os resultados também apontam que esse tipo de abordagem pode ser viável em contextos coletivos, como residências para idosos, centros-dia ou programas de alimentação comunitária. 

Ao dispensar a restrição calórica, contagem de calorias ou eliminação de grupos alimentares, a estratégia de baixo ultraprocessado mostra-se acessível e culturalmente adaptável, características essenciais quando se pensa em populações idosas com diferentes históricos alimentares e condições de saúde.

Para ler o artigo científico completo, clique aqui.

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Referência:

Vaezi S, Freeling JL, de Vargas BO, Weidauer L, Shoemaker ME, Sanders WM, Dey M. Impacts of minimally-processed omnivorous vs lacto-ovo-vegetarian diets on insulin sensitivity, lipid profile, and adiposity in older adults: Secondary findings from a randomized crossover feeding trial. Clin Nutr. 2025 Dec;55:90-103. doi: 10.1016/j.clnu.2025.10.010. Epub 2025 Oct 29. PMID: 41202666.

Pós-graduação de Nutrição Clínica

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