Medicamentos para obesidade: pesquisa analisa eficácia e segurança

Medicamentos para obesidade: pesquisa analisa eficácia e segurança

medicamentos para obesidade
Fonte: Canva

A obesidade é reconhecida globalmente como uma doença crônica e complexa, impulsionada por mecanismos biológicos que resultam na desregulação e acúmulo excessivo de tecido adiposo. 

A prevalência crescente dessa condição, com a expectativa de 3 bilhões de adultos vivendo com sobrepeso ou obesidade até 2030, impõe um desafio clínico e econômico significativo aos sistemas de saúde.

Embora a intervenção no estilo de vida seja a primeira linha de tratamento, a biologia da obesidade, que envolve a defesa do corpo contra a perda de gordura, dificulta a manutenção do peso a longo prazo apenas com dieta e exercícios físicos.

Neste contexto, o uso de medicamentos para obesidade ganhou destaque nos últimos anos. Uma recente revisão sistemática e meta-análise, publicada na prestigiada revista Nature Medicine, avaliou a eficácia e segurança destes fármacos. Confira detalhes a seguir.

Diversos medicamentos para obesidade foram investigados

A pesquisa utilizou uma revisão sistemática e meta-análise em rede, uma metodologia que permite a comparação indireta entre os tratamentos, superando as limitações dos ensaios clínicos tradicionais.

Foram identificados 56 ensaios clínicos randomizados, totalizando 60.307 pacientes (32.598 sob uso de fármacos e 27.709 com placebo). Os medicamentos para obesidade analisados foram:

  • Tirzepatida 
  • Semaglutida 
  • Liraglutida 
  • Orlistat
  • Naltrexona+bupropiona
  • Fentermina+topiramato 

O desfecho primário foi a porcentagem de perda de peso corporal total (TBWL%) ao final do estudo. 

Desfechos secundários abrangeram alterações no IMC e circunferência de cintura, o perfil lipídico, pressão arterial, hemoglobina glicada (HbA1c), glicemia de jejum, saúde mental, eventos adversos graves, qualidade de vida e remissão de comorbidades (cardiovasculares, metabólicas e mortalidade).

Resultados: eficácia no peso e remissão de comorbidades

Todos os medicamentos demonstraram uma perda de peso corporal total (TBWL%) significativamente maior em comparação com o placebo. No entanto, a magnitude da eficácia variou amplamente entre as classes de medicamentos.

Tirzepatida e semaglutida lideram a perda de peso

Os medicamentos mais recentes baseados em incretinas se destacaram.

Nesse sentido, a tirzepatida atingiu a maior perda de peso total média, com 16,2% de TBWL%. Foi também o único associado a uma maior proporção de pacientes a atingir uma redução de 25% de TBWL. 

Já a semaglutida obteve uma perda de peso total média de 11,9% de TBWL%. Por fim, fentermina/topiramato foi o terceiro mais eficaz, com 8,85% de TBWL%. 

Os demais medicamentos (naltrexona/bupropiona, liraglutida e orlistate) resultaram em perdas de peso mais modestas, variando de 3,1% a 4,8% de TBWL%.

Os dados revelaram que apenas a tirzepatida e a semaglutida alcançaram uma TBWL% superior a 10%. Somente a tirzepatida foi associada a uma maior proporção de pacientes que atingiram uma redução de pelo menos 25% na TBWL.

Além da perda de peso, tirzepatida e semaglutida mostraram as maiores reduções na circunferência da cintura e no IMC.

Poucos estudos relataram informações sobre a recuperação de peso após a descontinuação dos medicamentos para obesidade, investigando liraglutida, tirzepatida e semaglutida.

A descontinuação da liraglutida após 12 semanas e da semaglutida após 26 semanas  demonstrou, em média, uma recuperação de 47% e 43% do peso perdido. A recuperação de peso após a descontinuação do tratamento com semaglutida e tirzepatida por 52 semanas foi de 67% e 53%, respectivamente.

Benefícios metabólicos e cardiovasculares notáveis

A eficácia dos medicamentos também impactou diretamente as comorbidades.

Em relação ao controle glicêmico, a tirzepatida demonstrou a maior redução na HbA1c, enquanto a liraglutida e a semaglutida foram associadas a uma maior redução na glicemia de jejum.

Em um ensaio, tanto a tirzepatida quanto a semaglutida (mas não a liraglutida) foram eficazes na restauração da normoglicemia em pacientes com alterações glicêmicas pré-existentes e na remissão do diabetes mellitus tipo 2.

No âmbito da saúde cardiovascular, todos os outros medicamentos para obesidade, exceto a liraglutida e a semaglutida, exerceram efeitos favoráveis ​​significativos na pressão arterial sistólica, e alguns (fentermina+topiramato, tirzepatida e orlistat) na pressão arterial diastólica.

Além disso, todos os medicamentos contribuíram para melhorias nos perfis lipídicos, com o orlistate demonstrando um efeito maior na redução do colesterol total do que outros agentes.

A semaglutida foi o único medicamento associado a um risco significativamente menor de eventos adversos cardiovasculares maiores (MACE). A semaglutida e a naltrexona+bupropiona foram associadas a um menor risco de mortalidade cardiovascular.

Ademais, a tirzepatida foi eficaz na remissão da síndrome da apneia obstrutiva do sono e da esteato-hepatite associada à disfunção metabólica (MASH). Por fim, a semaglutida foi eficaz na redução da dor em pacientes com osteoartrite do joelho.

Perfil de segurança

Todos os medicamentos demonstraram um perfil de segurança geralmente favorável.

Os eventos adversos graves não foram significativamente aumentados com nenhum medicamento, exceto para a naltrexona+bupropiona, que apresentou uma taxa maior de eventos adversos graves em comparação com o placebo.

É importante pontuar que o tratamento com naltrexona+bupropiona foi associado a um aumento da pressão arterial sistólica, um efeito colateral conhecido que contraindica o medicamento em pacientes com hipertensão não controlada.

O que podemos concluir?

A análise confirma que os avanços no tratamento farmacológico da obesidade representam uma nova era no manejo da doença. A tirzepatida e a semaglutida se estabelecem como as opções mais potentes para a perda de peso, superando o limiar clinicamente significativo de 10% de TBWL%.

A principal implicação clínica é a necessidade de individualização na escolha do medicamento. O tratamento ideal deve ser guiado não apenas pela necessidade de perda de peso, mas também pela presença e tipo de comorbidades associadas. 

Sabendo disso, os resultados do estudo foram utilizados para o desenvolvimento do primeiro algoritmo de tratamento farmacológico baseado em GRADE da European Association for the Study of Obesity (EASO), consolidando a importância do achado para a prática clínica global.

Para ler o artigo científico completo, clique aqui.

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Referência:

McGowan B, Ciudin A, Baker JL, Busetto L, Dicker D, Frühbeck G, Goossens GH, Monami M, Sbraccia P, Martinez-Tellez B, Woodward E, Yumuk V. A systematic review and meta-analysis of the efficacy and safety of pharmacological treatments for obesity in adults. Nat Med. 2025 Oct;31(10):3317-3329. doi: 10.1038/s41591-025-03978-z. Epub 2025 Oct 2. PMID: 41039116; PMCID: PMC12532627.

Pós-graduação de Nutrição Clínica

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