Leite A1 vs leite A2: impactos na microbiota intestinal

Leite A1 vs leite A2: impactos na microbiota intestinal

leite A2
Fonte: Canva

O consumo de laticínios é uma parte fundamental da dieta global, mas o desconforto digestivo associado ao leite é uma queixa frequente em consultórios. 

Embora a lactose seja frequentemente apontada como a culpada, evidências crescentes sugerem que as proteínas do leite, especificamente as variantes da beta-caseína (β-CN), como A1 e A2, desempenham um papel crucial na saúde gastrointestinal.

Recentemente, com a comercialização do leite A2 (ou seja, leite enriquecido com β-caseína A2, os efeitos diferenciais das variantes A1 e A2 no microbioma ganharam atenção.

Uma revisão narrativa com 8 estudos resumiu as evidências atuais sobre como essas variantes influenciam a microbiota intestinal. Do total de pesquisas, 7 utilizaram modelos murinos e 1 deles estudou seres humanos.

Confira os detalhes da pesquisa a seguir.

Qual a diferença entre leite A1 e leite A2?

A principal diferença entre essas variantes reside em um único aminoácido na posição 67 da cadeia de 209 aminoácidos da beta-caseína. No leite A1, essa posição é ocupada pela histidina, enquanto no leite A2, encontramos a prolina.

Essa mudança estrutural é crucial: durante a digestão, a presença da histidina no leite A1 facilita a clivagem enzimática, liberando um peptídeo chamado beta-casomorfina-7 (BCM-7). 

A BCM-7 possui propriedades opioides e pró-inflamatórias que não são observadas na digestão da variante A2, onde a ligação da prolina é muito mais resistente à quebra.

Variantes A1 vs. A2: impactos na microbiota intestinal

Embora os resultados da revisão apresentem algumas inconsistências, surgiram padrões claros.

Em primeiro lugar, a variante A1 esteve associada ao aumento de táxons com potencial patogênico, como Escherichia e espécies de Streptococcus (S. pyogenes e S. suis). Em humanos, a A1 elevou a presença de Enterobacteriaceae

Com relação à diversidade microbiana, o consumo da variante A2 promoveu um perfil de microbiota mais favorável, com enriquecimento de gêneros probióticos e comensais como Lactobacillus (especialmente L. animalis), Bifidobacterium (como B. longum) e Blautia

Os efeitos sobre os ácidos graxos de cadeia curta (AGCCs) foram heterogêneos. Metade dos estudos que avaliaram esse parâmetro não encontrou diferenças. No entanto, evidências em modelos específicos indicam que a A2 pode elevar os níveis de acetato, propionato, butirato e AGCCs totais

Observou-se também que a suplementação com β-caseína (independente da variante) pode aumentar o isobutirato, sugerindo que o efeito pode estar ligado à intensidade da fermentação proteica no cólon.

No geral, os dados sugeriram que a β-caseína A2 favorece um ambiente intestinal mais saudável, promovendo maior diversidade microbiana e bactérias benéficas, enquanto a A1 tende a promover a disbiose e o crescimento de espécies potencialmente patogênicas.

Aplicação clínica e nutrição personalizada

Os achados indicaram que os efeitos negativos da variante A1 são mais pronunciados em indivíduos imunossuprimidos ou com condições de saúde pré-existentes. Isso indica que a substituição para o leite A2 pode ser uma estratégia valiosa na nutrição personalizada para pacientes que relatam desconforto digestivo persistente.

Contudo, os autores ressaltam que a maioria das evidências atuais vem de modelos animais. São necessários estudos clínicos humanos robustos para confirmar se essas mudanças na microbiota são a causa direta da melhora nos sintomas gastrointestinais.

Para ler o artigo científico completo, clique aqui.

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Referência:

Sujani S, Czerwinski KJ, Savaiano DA. A Narrative Review: A1 and A2 Milk Beta Caseins Effect on Gut Microbiota. Nutrients. 2026; 18(1):138. https://doi.org/10.3390/nu18010138

Pós-graduação de Nutrição Clínica

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