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Identificação e Manejo dos transtornos alimentares em crianças e adolescentes – 2021

A academia Americana de Pediatria publicou recentemente um relatório clínico que oferece orientações clínicas para cuidados pediátricos de transtornos alimentares. O documento revisa distúrbios comumente observados em crianças e adolescentes, descreve a avaliação e apresenta estratégias de tratamento.

As principais condições abordadas incluem anorexia e bulimia nervosa, transtorno de compulsão alimentar e transtorno de ingestão alimentar evitativa / restritiva.

O papel do pediatra é dado como fundamental na identificação de distúrbios, e sinais como relatos de dieta, insatisfação com a imagem corporal, experiências de estigma com base no peso ou mudanças nos padrões de alimentação ou exercícios, devem ser explorados de forma mais aprofundada.

Sinais de oligomenorreia ou amenorreia (primária ou secundária) podem indicar deficiência de energia, enquanto flutuações de peso ou ganho de peso rápido podem ser sinais de compulsão alimentar ou sintomas de bulimia nervosa.

A avaliação psicossocial completa, incluindo uso de drogas e realização de dietas, avaliação domiciliar, educacional, atividades, sexualidade, suicídio / depressão é fundamental para entender o contexto no qual o paciente se insere.

Investigações laboratoriais são frequentemente normais em pacientes com transtornos alimentares. Contudo, a contagem completa de células sanguíneas, eletrólitos séricos, cálcio, magnésio, fósforo e glicose, transaminases hepáticas, análise de urina, e concentração de hormônio estimulador da tireoide possuem validade clínica. A triagem para deficiências específicas de vitaminas e minerais (por exemplo, vitamina B12, vitamina D, ferro e zinco) pode ser indicada com base na história nutricional do paciente.

Queixas gastrintestinais são comuns e, às vezes, precedem o diagnóstico do transtorno alimentar. O retardo do esvaziamento gástrico e o trânsito intestinal lento muitas vezes contribuem para as sensações de náusea, distensão abdominal e plenitude pós-prandial, e podem ser uma característica de apresentação da restrição alimentar.

Os principais objetivos do cuidado em transtornos alimentares incluem a melhora da nutrição e do estado nutricional e restauração da trajetória de crescimento. A regularização de padrões de comportamentos alimentares também é uma meta desejada, e deve ser acompanhada da melhora da relação saudável com os alimentos e seu peso corporal, forma, e tamanho, bem como um senso de identidade.

Independentemente de um diagnóstico específico, o tratamento se concentra na reposição nutricional e na terapia psicológica e medicações psicotrópicas podem ser um complemento útil em determinadas circunstâncias.

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Ingestão de glúten por lactentes é associada ao desenvolvimento de DM tipo 1

O Diabetes Mellitus tipo 1 (DM1) ocorre pela destruição imunomediada de células beta do pâncreas, o que leva à dependência vitalícia do tratamento com insulina. Esta doença geralmente se apresenta na infância e possui fatores genéticos associados, mas fatores não genéticos também têm sido elencados como adjuvantes de seu surgimento.

Em um estudo populacional com duração de 10 anos, Lund-Blix e colaboradores avaliaram a relação entre o consumo de glúten e o risco de desenvolvimento de DM tipo 1 em crianças. Questionários semiquantitativos de frequência alimentar foram aplicados em gestantes com 22 semanas de gestação e crianças com 18 meses de idade.

Dados demográficos e clínicos também foram coletados. Das crianças participantes, 0,4% (346) foram diagnosticadas com DM1. A taxa de incidência de DM1 foi de 32,6 para cada 100.000 pessoas e a idade média de diagnóstico foi de 7,5 anos. A ingestão média materna de glúten foi de 13,6 g/dia durante a gestação e de crianças até os 18 meses de 8,8 g/dia.

De modo geral, o consumo de glúten foi menor em mães com menor ingestão de energia e fibras, e em filhos de mães mais jovens, com menor educação e que amamentaram seus filhos por menos tempo (p<0,001 para ambos). Filhos de mães que tiveram baixa ingestão de glúten durante a gestação apresentaram tendência a menor ingestão de glúten até os 18 meses.

A ingestão materna de glúten durante a gestação não se associou a um maior risco de DM1 da prole (aHR 1,02). No entanto, a ingestão de glúten pela criança até seus 18 meses foi significativamente associada com maior risco de DM1, sendo dose-correspondente. A cada 10g/dia de aumento da ingestão de glúten, houve aumento do risco de DM1 (aHR 1,46; p=0,02).

Os autores concluíram que a maior ingestão de glúten por crianças até seus 18 meses de idade se associou com aumento do risco de desenvolvimento de DM1.

Lund-Blix NA et al. Maternal and child gluten intake and association with type 1 diabetes: The Norwegian Mother and Child Cohort Study. PLoS Med. 2020 Mar; 17(3): e1003032.

Por Marcella Gava

Perfil de ingestão alimentar de crianças entre 1 a 10 anos de idade

O período da infância engloba muitas mudanças, desde o físico até o cognitivo. Se faz necessário o adequado aporte de nutrientes para que esse desenvolvimento ocorra em uma boa proporção através da ingestão satisfatória de calorias, macronutrientes, micronutrientes e fornecimento de uma boa variedade de alimentos em cada estágio da vida.

Recentemente, o estudo prospectivo, transversal e observacional EsNuPi (Estudo Nutricional na População Infantil Espanhola) visou colher informações sobre o perfil alimentar, atividade física e estilo de vida de crianças de 1 a 10 anos de idade. O total de 1.448 crianças participaram do estudo e realizaram entrevista presencial e por telefone para coleta de informações sociodemográficas, questionário de frequência alimentar, recordatório alimentar de 24 horas, e um questionário de atividade física e comportamento sedentário (PABQ).

Durante o estudo as crianças foram divididas em dois grupos: um que consumiu leite padrão nos últimos 12 meses (LP), e um grupo chamado de “consumidores de leite adaptado” (LA), que consumiu fórmulas lácteas adaptadas e fortificadas nos últimos 12 meses. (n = 742 SRS; n = 772 AMS).

Dentro do grupo LP, os meninos apresentaram maior ingestão de calorias do que as meninas (1.515 kcal vs. 1.461 kcal/p = 0,043), com maior proporção de carboidratos (45,4%), seguido por gordura (36,5%) e proteínas (16,5%). Já no grupo LA não foram encontradas diferenças estatísticas entre os sexos para a ingestão calórica. Os carboidratos também contribuíram com maior proporção (46,7%) para a ingestão energética da dieta, seguido por gorduras (35,9%) e proteínas (15,6%).

A porcentagem de crianças que atenderam à ingestão calórica foi maior em consumidores de leite adaptado do que no grupo que consumia leite padrão (93,4% vs. 84,0%/p <0,001). Alguns grupos alimentares contribuíram para uma maior proporção de energia no LA do que no LP, são eles: leite e produtos lácteos (p <0,001), frutas (p = 0,001) e ovos (p = 0,024). Os grupos alimentares que contribuíram menos para a ingestão calórica no grupo LA do que no LP foram cereais (p <0,001), carne e derivados (<0,001), óleos e gorduras (p = 0,044), bebidas açucaradas (p = 0,011), legumes (p = 0,027) e nozes (p = 0,002).

No grupo LP, 84,7% (n = 598) foram classificados como consumo calórico adequado e 15,3% (n = 108) não adequado (6,1% abaixo e 9,2% acima). Já no grupo LA, 83,5% (n = 618) foram classificados consumo calórico adequado e 16,4% (n = 122) não adequado (5,9% abaixo do relatório e 10,5% acima do relatado).

Os autores constataram que o percentual de ingestão energética foi de 113% para o LP e 120% para o LA, em relação com as recomendações das diretrizes de alimentação espanhola. Esses resultados foram compatíveis com outros estudos internacionais similares, incluindo o ALSALMA, ANIBES e IDEFICS, onde todos encontraram uma ingestão excessiva de calorias.

Referência: Madrigal C, Soto-Méndez MJ, Hernández-Ruiz Á, et al. Energy Intake, Macronutrient Profile and Food Sources of Spanish Children Aged One to <10 Years-Results from the EsNuPI Study. Nutrients. 2020 Mar 25;12(4):893.

Por Nicole Perniciotti