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Guidelines Canadenses para tratamento de crianças e adolescentes com distúrbios alimentares

Novas diretrizes canadenses foram desenvolvidas para crianças e adolescentes com transtornos alimentares. A publicação avalia a eficiência de tratamentos psicoterápicos e fornece evidências mais atuais para melhora de sintomas com abordagens disponíveis.

Identifica-se que o tratamento hospitalar pode promover a restauração do peso independentemente do modelo de atendimento fornecido, embora ainda se façam necessários mais estudos para determinar os elementos chaves desse processo.

Fortes recomendações foram apoiadas em favor do tratamento baseado na família e no ambiente de tratamento menos intensivo. Por outro lado, a terapia multifamiliar, terapia cognitivo-comportamental, psicoterapia focada no adolescente, ioga adjuvante e antipsicóticos atípicos apresentaram recomendações fracas.

Na anorexia, a terapia familiar que considera os pais responsáveis pelo processo de realimentação apresenta mais evidências positivas. Em adolescentes com bulimia, a terapia familiar apresenta resultados mais satisfatórios do que a terapia cognitivo comportamental e psicoterapia de apoio.

O apoio dos pares durante o tratamento hospitalar pode ser vantajoso, e as preferências do paciente e dos pais devem ser consideradas.

Algumas intervenções analisadas parecem ser mais úteis no tratamento de crianças e adolescentes com transtornos alimentares. Dentre elas, podemos destacar:

  • Cardápios não seletivos: que não oferecem a possibilidade de escolha.
  • Auxílio alimentar: assistência afetiva durante as refeições para ajudar o consumo alimentar proposto.
  • Remediação cognitiva: desenvolvimento de habilidades como atenção, memória, flexibilidade cognitiva, planejamento, funcionamento executivo.

Tomadas em conjunto, estas estratégias terapêuticas podem melhorar sintomas, o funcionamento psicossocial e a qualidade de vida. Entretanto, esses tratamentos só devem ser administrados em jovens medicamente estáveis, e um tratamento mais intensivo deve ser considerado caso os anteriores não apresentem resultados satisfatórios.

O guideline também informa sobre a eficácia de terapias medicamentosas e dá outras orientações. Consulte o guia completo em:

https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC6995106/pdf/40337_2020_Article_277.pdf

Comportamento alimentar e percepção corporal de adolescentes

Nos últimos 40 anos, o índice de massa corporal (IMC) quase triplicou no Reino Unido. Na população adolescente, cerca de 40% apresenta sobrepeso ou obesidade e isso se associa a um aumento de alterações de comportamentos alimentares. Essa mudança de comportamento nem sempre é positiva e se associa a restrição alimentar inadequada. Isso se deve, em parte, a puberdade e mudanças psicológicas e sociais, que acentuam a preocupação do adolescente com seu corpo. Influenciados por fatores como padrões de beleza, jovens estão mais susceptíveis ao comprometimento da saúde mental, depressão, ansiedade, compulsão alimentar, bulimia e anorexia.

Um estudo da Revista JAMA investigou a mudança do comportamento alimentar e a percepção corporal de 25.503 adolescentes no Reino Unido. A publicação conta com dados de 30 anos de 3 estudos diferentes: British Cohort Study –BCS, Avon Longitudinal Study of Parents and Children – ALSPAC e Millennium Cohort Study – MCS.

Participantes que obtiveram pelo menos uma alteração no Questionário Curto de Humor e Sentimentos de 12 itens (SMFQ) ou em questionários de percepção corporal foram incluídos. Isto indica se os adolescentes se auto relatavam com “peso abaixo do normal, peso certo ou excesso de peso” e a sua percepção de mudança (manter, perder ou ganhar peso). Os dados de um dos estudos incluídos identificaram que 1.952 adolescentes (37,7%) relataram ter feito algum tipo de dieta. Com base nos dados mais recentes dos outros 2 estudos, identifica-se um aumento de adolescentes que fazem dieta. Isto chega a 4.809 (44,4%) e se eleva para 6.514 (60,5%). Dentre esses adolescentes, o desejo de perda ou ganho de peso também aumentou entre os jovens. Dados mais antigos apontam que cerca de 6,8% buscavam a perda de peso, e os dados mais atuais sugerem 29,8% e 42,2%. Por outro lado, o desejo de ganho de peso também sofreu variações.

Análises de regressão demonstraram que adolescentes se tornavam mais propensos a dizer que estavam tentando perder peso, ganhar peso ou manter o mesmo peso, do que dizer que não estavam fazendo nada a respeito de seu peso. Apesar de meninos com IMC normal terem apresentado percepção corporal distorcida e se considerarem acima do peso, alterações comportamentais desse tipo são mais comuns no sexo oposto. Meninas com IMC abaixo do ideal se consideraram eutróficas, e a prática de dieta ou exercido físico para perda de peso esteve mais associada a sintomas depressivos. Todas estas observações apresentaram aumento progressivo. Os autores concluíram que ao longo dos 30 anos avaliados, houve um aumento progressivo de prática de exercícios físicos visando perda ou controle de peso, distorção de composição corporal e adesão de dietas para perda de peso. Contudo, as medidas adotadas são geralmente ineficazes pra perda de peso e contribuem para desenvolvimento de prejuízos físicos e mentais.

Por Nicole Perniciotti

Referência: Solmi F, Sharpe, PhD H, Gage SH, Maddock J, Lewis G, Patalay P. Changes in the Prevalence and Correlates of Weight-Control Behaviors and Weight Perception in Adolescents in the UK, 1986-2015. JAMA Pediatr. Published online November 16, 2020.

Evolução do COVID-19 em Crianças e Adolescentes

Coronavírus é uma família de vírus que causam infecções respiratórias. Devido sua rápida propagação, em março de 2020 a Organização Mundial da Saúde declarou como emergência de saúde pandêmica. Altamente contagioso e com transmissão principalmente através de gotículas respiratórias, o vírus tem em sua característica principal o seu rápido agravamento e risco de cursar uma síndrome respiratória aguda grave (SARS-CoV-2), piores desfechos clínicos e altas taxas de mortalidade.

Em revisão sistemática, foram avaliadas características clínicas, teste de diagnóstico e manejo terapêutico do COVID-19 em crianças e adolescentes. Dezoito estudos preencheram os critérios de inclusão, e destes 1.065 eram casos pediátricos, 444 eram casos de crianças com menos de 10 anos e 553 eram crianças com idades entre 10 e 19 anos, todos infectados pelo vírus SARS-CoV-2. Os sintomas clínicos mais prevalentes foram, respectivamente, febre e tosse, vômito, diarreia e pneumonia, complicados por choque com acidose metabólica e insuficiência renal, que exigiram cuidados intensivos e ventilação assistida como parte do tratamento.

O teste diagnóstico SARS-CoV-2 em todos os estudos foi realizado por PCR de tempo real (swab), e após o contato dos pacientes com pais infectados ou algum membro da família.  Para confirmações diagnósticas as crianças foram submetidas a exames radiológicos, tomografia computadorizada e raio x de tórax, que apresentaram espessamento brônquico, opacidades em vidro fosco ou lesões pulmonares inflamatórias. A utilização de terapia antibiótica foi descrita em alguns estudos nos casos de infecção mais graves, e apenas um relato de óbito ocorreu na faixa etária de 10 a 19 anos. 

Atualmente, a maioria das evidências resulta de estudos e casos clínicos da China, onde o surto começou. As crianças adquirem principalmente infecção por SARS-CoV-2 de seus familiares, e a infecção parece ser menos grave que nos adultos, apresentando sintomas mais leves, com melhor prognóstico e recuperação em 1 a 2 semanas após o início da doença. 

Referência: CASTAGNOLI, Riccardo; VOTTO, Martina; et al. Severe Acute Respiratory Syndrome Coronavirus 2 (SARS-CoV-2) Infection in Children and Adolescents. Jama Pediatrics, 2020: 154-157.

Por: Ana Carolina Costa Vicedomini

Substituição do refrigerante por leite na Saúde Cardiometabólica de adolescentes

O consumo de refrigerantes é um hábito comum entre adolescentes e está frequentemente associado a desfechos desfavoráveis a saúde, incluindo obesidade. Um recente estudo realizado nos Estados Unidos verificou se a substituição de refrigerante por leite semi-desnatado melhoraria fatores de risco cardiometabólicos em adolescentes do sexo masculino consumidores habituais de bebidas açucaradas.

Para isso, pesquisadores realizaram um ensaio clínico randomizado onde 30 adolescentes com sobrepeso ou obesidade (porém não dislipidêmicos), deveriam consumir 720ml de refrigerante adoçado com açúcar (equivalente a ±80 gramas de açúcar ao dia) ou o equivalente energético de leite com 2% de gordura. Após 3 semanas com esta bebida, os adolescentes ficaram 2 semanas sem intervenção (washout) e depois trocaram de grupo. Marcadores bioquímicos, lipoproteínas plasmáticas e outras medidas foram avaliadas após cada período.  Os pacientes foram orientados a manter seu padrão alimentar habitual e peso corpóreo durante todo o período de estudo.

Como resultados, observou-se que o escore z da pressão arterial sistólica e a concentração de ácido úrico foram significativamente menores depois de consumir leite comparado ao refrigerante, mas não observou mudanças nos parâmetros bioquímicos de lipoproteínas. Houve redução significativa de glicoesfingolipídios (que são relacionados a problemas metabólicos e condições inflamatórias) e são naturalmente presentes nas partículas de colesterol LDL.

Os pesquisadores concluíram que embora os adolescentes estudados não obtiveram melhora nos níveis de lipídios e lipoproteínas sanguíneos em resposta a substituição de refrigerante por leite com baixo teor de gordura, as reduções de pressão arterial sistólica e concentrações séricas de ácido úrico, bem como alterações nos glicoesfingolipídios, sugerem potenciais benefícios cardiometabólicos dessa intervenção.

Referência: Chiu S, Siri-Tarino P, Bergeron N, Suh JH and Krauss RM. A Randomized Study of the Effect of Replacing Sugar-Sweetened Soda by Reduced Fat Milk on Cardiometabolic Health in Male Adolescent Soda Drinkers.  Nutrients 2020, 12, 405.

Por: Lenycia Neri

Efeito de bebidas açucaradas no apetite e ingestão alimentar de adolescentes

O consumo de bebidas açucaradas (sucos naturais adoçados, refrigerantes e bebidas lácteas) constituem cerca de 20% das calorias totais ingeridas por crianças e adolescentes. Recentemente, estudo canadense propôs verificar se o consumo dessas bebidas poderia alterar mecanismos reguladores da ingestão alimentar, apetite e favorecer ganho de peso.

Para testar esta hipótese, foram selecionados 32 meninos entre 9 e 14 anos de idade, que realizaram 4 visitas matinais ao laboratório, após consumo do café da manhã padrão. No laboratório, era oferecido 350ml de uma bebida açucarada (aleatoriamente: refrigerante, suco industrializado, achocolatado) ou água. Após 60 minutos do consumo da bebida, os meninos eram conduzidos isoladamente a uma sala de painel sensorial com o consumo ad libitum de pizza e garrafa de água (500 ml). Nesse ambiente, uma escala de motivação para comer era aplicada a cada 15 minutos.

Os resultados do estudo mostraram que a ingestão alimentar foi reduzida após o consumo de achocolatado e refrigerante quando comparados com a água. O consumo de suco adoçado aumentou a ingestão alimentar quando comparado a bebida achocolatada. Adicionalmente, o consumo de sucos resultou no aumento de 10% das calorias cumulativas (bebida antes da refeição + refeição teste).

A aferição de escala de sede verificou que meninos que consumiram água tiveram menor sensação de sede quando comparado com aqueles que consumiram suco ou achocolatado, mas não quando comparado com o grupo do refrigerante. Os resultados não diferiram de acordo com estado nutricional (adolescentes sobrepeso e eutróficos tiveram resultados semelhantes).

O estudo cita a hipótese que o suco de frutas, devido sua relação glicose: frutose, não seria capaz de suprimir a ingestão alimentar devido ao fraco efeito da frutose na liberação de hormônios de saciedade.  A saciedade causada pelo refrigerante pode ser explicada pelo efeito de distensão abdominal; e do achocolatado pela presença de proteínas (causando liberação do hormônio colecistocinina).

Mais estudos devem ser realizados para verificar se estes efeitos a curto prazo serão traduzidos em modificações da composição corporal, através de um estudo longitudinal.

Referência: Poirier KL, Totosy de Zepetnek JO, Bennett LJ et al. Effect of Commercially Available Sugar-Sweetened Beverages on Subjective Appetite and Short-Term Food Intake in Boys. Nutrients. 2019, 26;11(2).

Por: Lenycia Neri