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Reganho de peso após cirurgia bariátrica: por que acontece e como prevenir?
Reganho de peso após cirurgia bariátrica: por que acontece e como prevenir?

A cirurgia bariátrica (CB) é o tratamento mais eficaz contra a obesidade grave, reduzindo comorbidades, melhorando a qualidade de vida e aumentando a expectativa de vida dos pacientes. No entanto, um desafio persiste mesmo entre os casos bem-sucedidos: o reganho de peso (RP) após cirurgia bariátrica.
A recuperação de peso pode ser definida pela porcentagem de peso recuperado a partir do menor peso pós-cirúrgico (geralmente de 10% a 25%); por um aumento de 5 pontos no IMC; ou pela recuperação do peso perdido expressa como uma porcentagem da perda total alcançada (por exemplo, recuperar 50% do peso perdido).
A proporção de pacientes que voltam a ganhar peso pode variar bastante conforme o tipo de procedimento e o tempo de acompanhamento, chegando a afetar boa parte dos operados nos primeiros anos.
Recentemente, uma revisão buscou mapear mecanismos fisiológicos, comportamentais e ambientais que explicam esse fenômeno.
Reganho de peso após cirurgia bariátrica: quais são as causas?
De modo geral, a revisão apontou que o reganho de peso após bariátrica pode ser causado por:
- Desequilíbrio neuro-hormonal
- Hipoglicemia pós-bariátrica
- Alterações na microbiota intestinal e circulação de ácidos biliares
- Fatores modificáveis
- Fatores genéticos
A seguir, confira os detalhes por trás destas causas.
O papel dos hormônios do apetite
Um dos achados mais discutidos pelos autores é o desequilíbrio neuro-hormonal que se instala progressivamente após a cirurgia.
Logo após o procedimento, os níveis de leptina (hormônio da saciedade produzido pelo tecido adiposo) caem, enquanto hormônios anorexígenos como GLP-1 e PYY tendem a subir, favorecendo a perda de peso.
Porém, à medida que o organismo se readapta, essas respostas hormonais tendem a se normalizar. Em alguns casos, a grelina (hormônio que estimula a fome) volta a subir, reacendendo o apetite.
Esse desequilíbrio no hipotálamo entre neurônios orexígenos (que estimulam a fome) e anorexígenos (que promovem saciedade) é apontado como um dos mecanismos neuroendócrinos mais relevantes para explicar o reganho de peso após cirurgia bariátrica.
Hipoglicemia pós-bariátrica
Outro ponto de destaque é a hipoglicemia pós-bariátrica, mais comum após o bypass gástrico em Y de Roux. Ela ocorre entre 1 e 2 horas após a refeição, sem os sintomas vasomotores típicos do dumping precoce, e é impulsionada pelo esvaziamento gástrico acelerado, que aumenta a secreção de GLP-1 estimulada por glicose e a liberação de insulina.
Segundo os autores, essa hipoglicemia pode estimular o apetite e aumentar a ingestão calórica por ação central no sistema nervoso.
Um dos estudos citados, com mais de mil pacientes submetidos a bypass ou sleeve, observou que quem apresentava episódios de hipoglicemia tinha risco aumentado de reganho de peso.
Microbiota intestinal e ácidos biliares
A revisão também discute o papel da microbiota intestinal, que se altera de forma significativa após a cirurgia, influenciadas por antibióticos perioperatórios, modificações dietéticas, remodelação intestinal e a própria perda de peso.
Alguns gêneros bacterianos, como Akkermansia, têm sido associados a melhor manutenção do peso perdido, enquanto outros parecem favorecer um perfil mais obesogênico. Ainda assim, os próprios autores reconhecem que essas associações não comprovam causalidade, e que os mecanismos que ligam a disbiose ao reganho de peso ainda precisam ser mais bem compreendidos.
De forma semelhante, os ácidos biliares – que aumentam na circulação após o bypass gástrico – atuam como moléculas de sinalização metabólica, ativando receptores como FXR e TGR5, envolvidos na regulação da glicose e do gasto energético.
Novamente, a revisão destaca que a relação entre essas alterações e o reganho de peso ainda carece de estudos mais conclusivos.
Comportamento, psicologia e adesão: os fatores modificáveis
Entre os fatores discutidos, os comportamentais aparecem como alguns dos mais consistentes e, principalmente, mais modificáveis. Hábitos como “beliscar” ao longo do dia, preferência por alimentos ricos em açúcar, alta ingestão calórica líquida e sedentarismo estão fortemente associados ao RP em diferentes pesquisas.
Pacientes com problemas psicológicos frequentemente têm dificuldades com adesão à dieta, particularmente aqueles com transtorno da compulsão alimentar periódica, caracterizado pelo consumo descontrolado de grandes quantidades de alimentos em um curto período (tipicamente em até duas horas).
Nesse sentido, pacientes com dois ou mais problemas psicológicos têm seis vezes mais chances de apresentar reganho de peso, em comparação com aqueles sem esse histórico.
A depressão é apontada como o transtorno psiquiátrico mais comum entre pacientes de cirurgia bariátrica, embora a direção dessa relação (se a depressão leva ao reganho ou o contrário) ainda não esteja totalmente esclarecida.
Predisposição genética
Por fim, a revisão também aponta um componente genético por trás do reganho de peso, ainda que com evidências mais preliminares que os demais mecanismos.
Entre os achados mais consistentes, está o gene MC4R: pacientes portadores do alelo comum I251L parecem ter melhores desfechos clínicos após o bypass gástrico, incluindo maior redução de diabetes e melhor resposta de perda de peso quando associado a dieta adequada.
Já variantes mais raras desse mesmo gene parecem influenciar os resultados de forma diferente, sugerindo que nem todos os polimorfismos do MC4R têm o mesmo peso clínico.
Outros genes relacionados a receptores adrenérgicos do tecido adiposo (como o ADRB2) e a vias da leptina (como o LEPR) também foram associados a diferenças na biologia do tecido adiposo e no ganho de peso, mas os resultados são divergentes: um estudo encontrou associação entre essas variantes e o reganho, enquanto outro não encontrou relação significativa com o IMC.
Diante desse cenário, os autores reconhecem que a genética pode desempenhar algum papel no reganho de peso, mas destacam que as evidências disponíveis ainda não permitem estabelecer uma relação causal direta.
Reganho de peso após cirurgia bariátrica: o que fazer?
A revisão reforça que a prevenção e o manejo do reganho de peso exigem uma abordagem multidisciplinar, incluindo:
– Nutrição individualizada, com dietas pré-operatórias com baixo ou muito baixo teor calórico para otimizar os resultados cirúrgicos, e nutrição pós-operatória com ingestão adequada de proteínas, micronutrientes e aumento gradual da ingestão calórica para apoiar a cicatrização e a manutenção do peso a longo prazo.
– Atividade física regular, com recomendação de 60 a 90 minutos diários de exercícios de intensidade moderada ou uma quantidade menor de atividade vigorosa por semana. Um estudo sugeriu que 10.000 a 12.000 passos por dia auxiliam na manutenção do peso a longo prazo.
– Suporte psicológico: a terapia comportamental desempenha um papel crucial no controle de comportamentos alimentares desadaptativos, como compulsão alimentar, alimentação noturna excessiva e lanches frequentes. Abordar questões psicológicas, incluindo ansiedade, transtornos de humor, dependência e transtornos de personalidade, também é essencial
– Considerar a farmacoterapia, com opções como agonistas do receptor de GLP-1, agonistas duplos dos receptores de GLP-1 e polipeptídeo insulinotrópico dependente de glicose (GIP) (como tirzepatida), metformina, topiramato e fentermina.
– Acompanhamento contínuo, já que consultas regulares de nutrição parecem estar diretamente associadas a melhores desfechos de manutenção de peso a longo prazo.
Por fim, intervenções endoscópicas podem ser consideradas em casos de falha cirúrgica anatômica, enquanto a cirurgia de revisão permanece como último recurso devido aos riscos e complicações.
O que podemos concluir?
O reganho de peso após a cirurgia bariátrica não pode ser explicado apenas por “falta de força de vontade” do paciente ou falha técnica do procedimento.
Trata-se de um fenômeno multifatorial, que envolve adaptações hormonais, alterações na microbiota, sinalização de ácidos biliares, fatores genéticos e hábitos comportamentais e saúde mental.
Para o nutricionista, esse panorama reforça a importância do acompanhamento contínuo e individualizado como principal ferramenta de prevenção, especialmente nos dois primeiros anos após a cirurgia, período em que a maior parte do reganho costuma se concentrar.
Para ler o artigo científico completo, clique aqui.
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Referência:
Yadav, R.K., Zhang, Y., Lv, Y. et al. Mechanisms of weight recurrence after bariatric surgery. Nutr Metab (Lond) 23, 65 (2026). https://doi.org/10.1186/s12986-026-01115-2
Redação Ganep Educação



