Fenótipos do pré-diabetes: como o estresse crônico afeta o apetite?

Fenótipos do pré-diabetes: como o estresse crônico afeta o apetite?

pré-diabetes
Fonte: Canva

O pré-diabetes é uma condição que afeta quase 100 milhões de pessoas apenas nos Estados Unidos, e representa um alto risco para o desenvolvimento de diabetes tipo 2 e doenças cardiovasculares. 

Nos últimos anos, a ciência tem mostrado que o pré-diabetes não é uma condição única, mas sim um espectro de fenótipos variados: glicemia de jejum alterada (IFG), tolerância à glicose diminuída (IGT) ou ambas (IFG + IGT)

Embora todos os fenótipos possam apresentar obesidade, alguns podem ter mais dificuldades de controlar o peso do que outros. Nesse sentido, a regulação do apetite alterada em relação à carga alostática (estresse crônico) é um dos mecanismos propostos.

Um recente estudo testou a hipótese de que indivíduos com IFG + IGT teriam percepções e níveis hormonais de apetite menos favoráveis ​​do que aqueles com IFG ou IGT isolados, e que essa desregulação do apetite estaria relacionada à carga alostática. Confira os detalhes a seguir.

Como a pesquisa foi conduzida?

No total, 98 adultos de meia-idade a idosos participaram do estudo transversal.

A pré-diabetes foi definida pelos critérios da Associação Americana de Diabetes: glicemia plasmática elevada em jejum e/ou 120 minutos após uma sobrecarga de 75 g de glicose.

Os participantes poderiam ser:

  1. Normoglicêmicos (n=28)
  2. Pré-diabéticos com glicemia de jejum alterada – IFG (n=20):  níveis de glicose em jejum de 100 a 125 mg/dL, mas com valores normais de 120 minutos (< 140 mg/dL).
  3. Pré-diabéticos com tolerância à glicose diminuída – IGT (n=18): níveis normais de glicose em jejum (< 100 mg/dL), mas com valores elevados de 120 minutos (140–199 mg/dL)
  4. Pré-diabéticos com IFG + IGT (n=32): valores elevados de glicose em jejum e de 120 minutos, simultaneamente.

Além do perfil glicêmico, outros parâmetros foram avaliados:

  • Composição corporal: peso corporal, IMC e circunferência de cintura, além de massa de gordura e massa magra por absorciometria de raios X de dupla energia (DXA).
  • Aptidão cardiorrespiratória: teste de consumo máximo de oxigênio (VO2máx) em esteira rolante com calorimetria indireta.
  • Controle metabólico: medições da taxa metabólica basal (TMB) por meio de calorimetria indireta.
  • Percepção de apetite: uma escala visual analógica (EVA) avaliou a fome, saciedade, desejo por alimentos doces e gordurosos.
  • Ingestão alimentar: registros alimentares de 3 dias.
  • Carga alostática (estresse crônico): calculada utilizando nove marcadores: PAS, PAD, IMC, CC, HDL, colesterol total, hsCRP, HbA1c e albumina.
  • Percepção de saúde geral: questionário Veteran Rand General Health.

Resultados: o peso do estresse no fenótipo misto

O estudo revelou que os indivíduos do grupo IFG + IGT apresentaram uma carga alostática significativamente maior do que os outros grupos

Mas o que isso significa na prática para o apetite?

Hormônios relacionados ao apetite e metabolismo

Como esperado, o grupo IFG + IGT apresentou:

  • Glicemia de jejum mais elevada
  • Glicemia de 120 minutos mais elevada
  • Níveis mais altos de insulina em jejum

Além disso, em jejum, os participantes com IFG + IGT apresentaram níveis mais baixos de grelina acilada (o hormônio que sinaliza a fome) em comparação aos normoglicêmicos. Houve também um efeito modesto na resposta pós-prandial.

Curiosamente, apesar das diferenças hormonais observadas, as percepções subjetivas de fome e saciedade permaneceram semelhantes entre os grupos.

Desejo por alimentos gordurosos

Houve uma tendência estatística de que o grupo com maior estresse biológico (IFG + IGT) apresentasse um desejo maior por alimentos ricos em gordura em comparação ao grupo com tolerância normal à glicose

Apesar dessa tendência no desejo por gordura, a ingestão energética total – assim como o consumo de carboidratos, proteínas e gorduras – não diferiu entre os grupos.

Metabolismo e resistência à insulina

O grupo IFG + IGT também apresentou maior resistência à insulina (medida pelo HOMA-IR) e um gasto energético de repouso menor quando ajustado pelo peso corporal. A carga alostática elevada correlacionou-se diretamente com níveis mais altos de insulina em jejum.

Embora o HOMA-IR tenha sido maior no grupo IFG + IGT em comparação com os outros grupos, não houve diferença no índice simples de sensibilidade à insulina

Pior composição corporal 

O grupo IFG + IGT apresentou IMC e circunferência da cintura maiores do que os grupos com IFG, IGT ou normoglicêmicos.

O que explica estes resultados?

Como visto, os resultados sugerem que pessoas com IFG + IGT apresentam maior desregulação do apetite em comparação com pessoas com IFG ou IGT, o que é paralelo ao estresse crônico.

O estresse é conhecido por influenciar o comportamento alimentar, podendo aumentar a preferência por alimentos ricos em gordura e açúcar, mesmo na ausência de fome fisiológica. Além disso, pessoas com maior IMC parecem ser mais suscetíveis ao ganho de peso quando expostas ao estresse crônico.

No estudo, o grupo IFG + IGT apresentou maior peso corporal, maior resistência à insulina e níveis mais baixos de grelina acilada, apesar de relatar níveis semelhantes de fome. A insulina atua no cérebro regulando o apetite, e em estados de estresse crônico pode interagir com hormônios do eixo hipotálamo–hipófise–adrenal, favorecendo alterações metabólicas e maior acúmulo de gordura abdominal.

Os autores levantam ainda a hipótese de que possa haver necessidade de maior sinalização hormonal para produzir respostas subjetivas semelhantes de fome e saciedade, embora essa possibilidade precise ser confirmada em estudos futuros.

O que levar para a prática clínica?

A pesquisa reforça que o manejo do pré-diabetes deve ir além da contagem de calorias.

Individualização: pacientes com o fenótipo IFG + IGT podem estar sob maior estresse biológico e apresentar uma desregulação hormonal mais severa.

Gestão do estresse: abordagens que visam reduzir a carga alostática (sono, manejo de estresse psicológico e atividade física) podem ser fundamentais para restaurar a sensibilidade aos hormônios do apetite.

Foco no comportamento: o desejo por alimentos gordurosos em pacientes estressados pode ser uma resposta fisiológica e não apenas “falta de força de vontade”.

Entender que o estresse é um mecanismo subjacente à desregulação do apetite permite que profissionais de saúde criem estratégias mais empáticas e eficazes para combater as doenças crônicas.

Para ler o artigo científico completo, clique aqui.

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Referência:

Malin SK, Heiston EM. Appetite Regulation and Allostatic Load Across Prediabetes Phenotypes. Nutrients. 2026; 18(1):158. https://doi.org/10.3390/nu18010158.

Pós-graduação de Nutrição Clínica

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