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Risco de insuficiência renal em pacientes com síndrome do intestino curto

A síndrome do intestino curto (SIC) é uma doença rara que compromete a qualidade de vida e a sobrevida. Devido a necessidade de uso crônico de nutrição parenteral (NP), é comum haver outras complicações associadas, sobretudo renais. Para identificar os fatores de risco associados a complicações desta natureza, um estudo recente foi desenvolvido com pacientes adultos portadores de SIC.

O estudo considerou 199 pacientes submetidos a ressecção cirúrgica e que mantiveram <200 cm de comprimento do intestino delgado remanescente. A maioria dos pacientes era do sexo masculino (69,3%), a média de idade foi de 48,8 anos e o IMC médio foi de 18,1kg/m2. A duração mediana da SIC foi de 7 meses e 118 (59,2%) dos pacientes necessitaram de NP na admissão. Um total de 96 pacientes foram classificados com risco nutricional de acordo com o Nutritional Risk Screening (NRS 2002) e 141 (71,4%) estavam desnutridos segundo os critérios diagnósticos da ESPEN de 2015. Um total de 56 (28.1%) pacientes apresentaram comprometimento da função renal (eGFR <90mL/min/1.73m2) e 34 (17,1%) apresentaram cálculos renais.

O estudo identificou que, de acordo com as análises realizadas, a idade avançada, a duração da SIC, a presença de cálculos renais e menor comprimento intestinal foram classificados como fatores de risco mais relevantes para desenvolvimento de alterações renais. Essa relação torna-se ainda mais intrínseca quando a SIC está em estágio crônico, pois a perda de água e eletrólitos também influenciam no comprometimento da função renal.

Diante destes achados, os pesquisadores enfatizam que o monitoramento da função renal se torna importante em pacientes com SIC, a fim de evitar quadros de desidratação e aumento da necessidade de intervenções adicionais.

Por Aline Palialol e Eduarda Rodrigues

Referência:

Wang P, Yang J, Zhang Y, Zhang L, Gao X, Wang X. Risk Factors for Renal Impairment in Adult Patients With Short Bowel Syndrome. Front Nutr. 2021 Jan 18.

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Efeito da Teduglutida na qualidade de vida de pacientes com Síndrome do Intestino Curto e Falência Intestinal

A síndrome do intestino curto (SIC) é um distúrbio de má absorção do trato gastrointestinal relacionado a condições de doença inflamatória intestinal, câncer, isquemia mesentérica ou falência intestinal (FI). Muitos desses pacientes se tornam dependentes da nutrição parenteral (NP) para sobreviver, contudo, apesar de salvar vidas, a NP também está associada a complicações que afetam negativamente a qualidade de vida e risco aumentado de morte nesses pacientes.

A teduglutida é um análogo do GLP-2 com propriedades intestinotróficas, as quais podem reduzir ou eliminar a dependência exclusiva de NP em pacientes com síndrome do intestino curto e falência intestinal crônica (SIC-FI).

O estudo STEPS (ensaio clínico randomizado, duplo-cego, controlado por placebo, multicêntrico, de fase 3), investigou o efeito da suplementação de teduglutida, por 24 semanas, em pacientes com SIC em dependência de NP. Foram analisados a NP basal (administrada previamente ao início do estudo), necessidade de volume parenteral, etiologia da doença e anatomia intestinal. Modelos estatísticos foram ajustados para avaliar o impacto da teduglutida na qualidade de vida de pacientes com SIC‐FI em dependência de NP (escore SIC-QV), utilizando dados de todas as visitas, ajustados para as características basais dos pacientes.

Do total de 86 pacientes, 43 cada foram randomizados para receber teduglutida e 43 para receber uma suplementação placebo (idade média: 51 vs 50 anos, respectivamente).  Nos dois braços tinham numericamente mais mulheres do que homens. Os pacientes do grupo teduglutida tinham uma porcentagem significativamente menor de cólon remanescente (média [SD] 55,8 [20,4] vs 70,3 [27,1], respectivamente; P = 0,021), e menos pacientes tinham a válvula ileocecal (7,0% vs 23,3%, respectivamente; P = 0,035), em comparação com o grupo placebo. Mais da metade dos pacientes em ambos grupos apresentaram continuidade do cólon (teduglutida: 60,5%, placebo: 53,5%; P = 0,514).

De acordo com as análises estatísticas ajustadas, em geral os pacientes tratados com a teduglutida apresentaram melhores pontuações no questionário SIC-QV (- 8,6; IC 95%: 2,6 a 19,8), desde o início do estudo até a 24° semana, em comparação com aqueles do grupo placebo. Contudo, apesar de maior redução numérica, essa diferença não foi estatisticamente significativa.

Quando a população estudada foi dividida em subgrupos, foi observado uma melhora significativa da teduglutida no escore de qualidade de vida SIC-QV de pacientes com ≥50% do cólon remanescente (diferença média −21,9; P = 0,037). Também foi observado que a teduglutida apresentou melhores resultados da SIC-QV em 2 diferentes subgrupos: grupo com maior volume de NP basal (-27,3, IC de 95%: -50,8 a -3,7) e grupo de doentes portadores de doença inflamatória intestinal (-29,6, IC 95%: -46,3 a -12,9), porém sem significância estatística nesses 2 subgrupos em comparação com o placebo. 

 Os autores concluíram que o uso da teduglutida parece melhorar a qualidade de vida de pacientes com SIC em uso de NP, principalmente nos subgrupos de doentes com maior necessidade de volume de NP e portadores de DII.

Referência: Kristina Chen, Fan Mu, Jipan Xie, et al. Impact of Teduglutide on Quality of Life Among Patients With Short Bowel Syndrome and Intestinal Failure. JPEN J Parenter Enteral Nutr. 2020; 44(1): 119–128.

Por Patricia Morais

O Impacto do Transplante Intestinal na Qualidade de Vida

A falência intestinal (FI) e o transplante intestinal (ITx) estão associados à má qualidade de vida. A avaliação específica da doença na qualidade de vida (QV) de portadores de FI e de sujeitos transplantados é bastante desafiadora, devido a limitações metodológicas, instrumentos de análise e outros problemas frequentemente encontrados. Recentemente, um estudo comparou a qualidade de vida de pacientes nos períodos de pré e pós ITx; e versus não transplantados.

Para essa investigação, foi realizada uma análise prospectiva de dois bancos de dados de grupo de pacientes submetidos ao transplante intestinal e um grupo de pacientes com FI crônica estável, que não necessitava de transplante intestinal. Os questionários utilizados para avaliação da QV foram modelos padrões (EQ-5D-5L e SF36) e modelos específicos para a doença intestinal (HPN-QOL e ITx-QOL). Os dados foram coletados pré e pós-ITx e nos períodos de 3, 6, 12 meses e a cada ano. A análise estatística desses dados utilizou o teste t de Student e ANOVA unidirecional com correção de Bonferroni para múltiplas comparações.

Resultados mostraram que em todos os questionários padrões, a qualidade de vida melhorou após o transplante intestinal em níveis comparáveis ​​com a QV do grupo de pacientes com FI que não necessitam de transplante. Tanto o componente visual analógico de pontuação (EQ-5D-5L) quanto o efeito da doença na QV (HPN-QOL / ITx-QOL) foi maior após ITx do que no pré-ITx ou quando comparado com o grupo de FI.

Os efeitos sobre a saúde geral, capacidade de comer e beber, de realizar viagens melhoraram após 3 meses de realização do ITx. Outros quesitos avaliados nos questionários de QV não mostraram melhora nos primeiros 12 meses após o ITx, mas também não pioraram, sendo mantidos por pelo menos 24 meses. Os pacientes que realizaram transplante apresentaram maiores dificuldades de caráter financeiro do que o grupo sem ITx, mesmo realizando tratamento em um sistema de saúde com financiamento público.

Diante disso, os autores concluíram que o ITx tem efeito benéfico na qualidade de vida. A QV após o ITx é similar aos pacientes com FI que não necessitam de ITx. A criação de um instrumento de QV que avalia a jornada do período de FI ao ITx ajudaria na análise longitudinal e individualizada do impacto do ITx.

Referência: Ambrose T, Holdaway L, Smith A, et al. The impact of intestinal transplantation on quality of life. Clin Nutr. 2019 Aug 31.

Por: Maria Carolina Gonçalves Dias