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Bicarbonato de sódio na acidose metabólica grave é uma estratégia válida?
Bicarbonato de sódio na acidose metabólica grave é uma estratégia válida?

A acidose metabólica é comum em pacientes críticos e está associada a disfunção orgânica, maior necessidade de terapia renal substitutiva (TRS) e mortalidade.
Historicamente, o bicarbonato de sódio é usado à beira do leito para corrigir a acidemia. Contudo, ainda é motivo de debate se essa correção realmente muda o desfecho clínico, especialmente em pacientes que já estão em uso de vasopressores.
Para responder a essa pergunta, um grupo internacional de pesquisadores liderado por centros da Austrália e Nova Zelândia conduziu um dos maiores ensaios clínicos randomizados já realizados sobre o tema: o estudo SODa-BIC.
Confira os detalhes a seguir.
Como o estudo foi realizado?
A pesquisa foi conduzida em 55 UTIs de 7 países. Foram incluídos adultos com acidose metabólica (pH < 7,30; excesso de base ≤ -4 mmol/L; PaCO2 ≤ 45 mmHg sem intubação ou ≤ 50 mmHg com intubação) que estavam recebendo infusão contínua de vasopressor para tratar hipotensão.
Os pacientes foram randomizados 1:1 para receber bicarbonato de sódio (diluído em dextrose a 5%) ou placebo (dextrose a 5% isolada), infundidos por até 5 horas, com a taxa ajustada visando pH ≥ 7,30 e excesso de base ≥ 0 mmol/L.
O desfecho primário foi a ocorrência de um evento renal adverso maior em 30 dias, composto por morte, uso de terapia renal substitutiva (TRS) ou disfunção renal persistente (creatinina final ≥ 200% do valor basal).
A amostra final somou 500 pacientes, com idade mediana de 66 anos. Cerca de metade tinha sepse ou choque séptico como causa da acidose, e quase metade já apresentava lesão renal aguda no início do estudo.
Nenhuma diferença no desfecho renal principal
O resultado central do estudo foi claro – não houve diferença no risco de evento renal adverso maior entre os grupos:
- Bicarbonato de sódio: 40,2% dos pacientes
- Placebo: 39,4% dos pacientes
Os desfechos secundários seguiram o mesmo padrão: mortalidade hospitalar em 30 dias (25,4% vs. 24,0%), uso de TRS (16,8% vs. 20,9%) e mortalidade em 90 dias (26,2% vs. 25,6%) foram semelhantes entre os grupos.
A análise de subgrupos, incluindo pacientes com acidose mais grave (pH < 7,25) ou lesão renal aguda mais avançada, não mostrou nenhum subgrupo com benefício claro do bicarbonato.
Em relação a efeitos adversos, quatro pacientes (1,6%) no grupo bicarbonato apresentaram hipocalemia que exigiu correção, um sinal de alerta para monitorização eletrolítica durante a infusão. Embora essa diferença não tenha atingido significância estatística, ela reforça a importância da monitorização eletrolítica durante a infusão.
O bicarbonato funcionou, mas não mudou o desfecho clínico
Apesar de não impactar os desfechos clínicos “duros”, o bicarbonato de sódio cumpriu seu papel fisiológico esperado: corrigiu o pH mais rapidamente e reduziu de forma expressiva a recorrência de acidose metabólica nos primeiros 7 dias (32,0% no grupo bicarbonato vs. 55,7% no grupo placebo).
Em outras palavras, o tratamento corrigiu o número no exame, mas isso não se traduziu em menos mortalidade, menos TRS ou menos tempo de internação. Esse é um achado importante para a prática clínica, pois reforça que corrigir a acidemia não é sinônimo de melhorar o prognóstico.
O que podemos concluir?
O uso rotineiro de bicarbonato de sódio para tratar acidose metabólica em pacientes críticos sob vasopressor não reduziu o risco de eventos renais graves nem a mortalidade, quando comparado a placebo. Os achados reforçam que a correção isolada do pH não deve ser tratada como um objetivo terapêutico por si só.
Para a equipe multiprofissional de terapia intensiva, o estudo reforça dois pontos práticos:
- A importância de monitorar eletrólitos, como o potássio, durante e após infusões de bicarbonato;
- E a necessidade de manter o foco terapêutico no tratamento da causa de base no suporte metabólico-nutricional do paciente crítico, em vez de valorizar isoladamente a normalização de um exame laboratorial.
Como limitações, o estudo excluiu pacientes com alto risco para uso de bicarbonato, o que restringe a generalização dos achados para esse perfil. Além disso, o desenho não avaliou o efeito de infusões mais longas ou repetidas.
Para ler o artigo científico completo, clique aqui.
Referência:
The SODa-BIC Investigators and the Australian and New Zealand Intensive Care Society Clinical Trials Group. Sodium Bicarbonate for Critically Ill Adults with Metabolic Acidosis and Shock. N Engl J Med (2026). DOI: 10.1056/NEJMoa2600526
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