Consumo de alimentos ultraprocessados aumenta o risco de câncer colorretal em mulheres jovens?

Consumo de alimentos ultraprocessados aumenta o risco de câncer colorretal em mulheres jovens?

câncer colorretal em mulheresA incidência global de câncer colorretal de início precoce (EOCRC), diagnosticado antes dos 50 anos de idade, tem aumentado nas últimas décadas. Ele acontece frequentemente em pessoas sem histórico familiar ou predisposição genética identificável. Por isso, o papel de exposições ambientais e do estilo de vida no desenvolvimento de EOCRC tem sido cada vez mais investigado.

Os fatores de risco para o EOCRC incluem obesidade, comportamento sedentário, diabetes mellitus tipo 2 (DM2), baixo consumo de fibras, e alto consumo de carnes vermelhas, carnes processadas e açúcares adicionados.

Nos últimos tempos, o consumo de alimentos ultraprocessados ​​(AUPs) também cresceu. Segundo a classificação Nova, tratam-se de produtos industriais, prontos para o consumo ou para aquecimento, que contêm uma proporção mínima de alimentos in natura ou minimamente processados.

Uma pesquisa recente buscou entender a relação entre os alimentos ultraprocessados e o desenvolvimento de câncer colorretal em mulheres jovens. Confira os achados a seguir.

Mais de 29 mil enfermeiras participaram da investigação

O estudo baseou-se em dados do Nurses’ Health Study II (NHSII), uma coorte prospectiva nos EUA, estabelecida em 1989, que incluiu 116.429 enfermeiras com idades entre 25 e 42 anos.

Com um total de 24 anos de acompanhamento, os pesquisadores selecionaram 29.105 mulheres integrantes do NHSII, com avaliações dietéticas disponíveis e que realizaram pelo menos um exame endoscópico do trato digestivo inferior antes dos 50 anos de idade. 

Informações sobre estilo de vida, histórico familiar e histórico médico foram coletadas por meio de questionários bienais, enquanto os hábitos alimentares foram avaliados por meio de questionários de frequência alimentar (QFA), aplicados a cada quatro anos, a partir de 1991.

O consumo de alimentos ultraprocessados foi avaliado por meio de um QFA semiquantitativo validado, composto por mais de 130 itens. 

O câncer colorretal (CCR) surge por meio de duas vias principais: a sequência adenoma-carcinoma (classificados como ‘adenomas’) e a via serrilhada (classificados como ‘lesões serrilhadas’).

Ambos envolvem precursores bem estabelecidos. Os adenomas incluem os tubulares, túbulo-vilosos ou vilosos; e as lesões serrilhadas abrangem pólipos hiperplásicos, adenomas serrilhados sésseis, adenomas serrilhados tradicionais e pólipos serrilhados mistos, conforme os critérios da Organização Mundial da Saúde.

Ultraprocessados se associariam ao risco de adenomas

Entre as 29.105 mulheres, os pesquisadores documentaram 1.189 casos de adenomas convencionais de início precoce e 1.598 lesões serrilhadas.

Como principal achado do estudo, descobriu-se que um maior consumo de alimentos ultraprocessados esteve associado a um risco elevado de adenomas colorretais convencionais de início precoce (idade < 50 anos), mas não de lesões serrilhadas. 

A análise foi realizada por meio de divisão de quintis. Nesse sentido, em comparação com as mulheres no quintil mais baixo de consumo AUPs, aquelas no quintil mais alto apresentaram um risco maior.

Os resultados mantiveram-se robustos após o ajuste para potenciais mediadores e fatores de confusão, incluindo o índice de massa corporal (IMC) ao longo do tempo, diabetes mellitus tipo 2 (DM2), fatores dietéticos (fibras, folato, cálcio, vitamina D) e a pontuação no índice AHEI-2010 (Alternative Healthy Eating Index-2010).

Quais produtos foram os principais responsáveis?

Na coorte, o consumo de AUPs ​​representou 34,8% do total de calorias diárias e 28,2% do total de porções alimentares, com uma mediana de 5,7 porções por dia. O consumo de AUP provinha principalmente de:

  • Pães e produtos para café da manhã ultraprocessados ​​(22,6%)
  • Molhos, pastas e condimentos (21,9%) 
  • Bebidas adoçadas com açúcar ou adoçantes artificiais (19,7%)

Entre os subgrupos de AUP, um maior consumo de bebidas adoçadas artificialmente associou-se significativamente a um risco aumentado de adenomas convencionais de início precoce. Contudo, não se observou que nenhum grupo alimentar específico fosse, isoladamente, responsável pela associação geral observada com os AUP. 

Para os autores, isso sugere que a exposição combinada a múltiplos produtos pode exercer um efeito sinérgico sobre a saúde intestinal, ao comprometer a função de barreira e alterar o microbioma.

O que explica essa associação?

Algumas hipóteses foram levantadas pelos cientistas:

– Substâncias carcinogênicas: geralmente, os AUPs são pobres em compostos bioativos (fibras alimentares, vitaminas, polifenóis, etc) e ricos em gorduras não saudáveis, amidos refinados e aditivos alimentares (como emulsificantes e adoçantes artificiais). Tais componentes podem desequilibrar a microbiota intestinal, aumentar a inflamação intestinal e contribuir para a carcinogênese colorretal.

– Mecanismos vinculados aos AUPs: a disrupção do microbioma, a sinalização pró-inflamatória e a presença de genotoxinas relacionadas à dieta podem estar associados a processos mutacionais mais frequentes em pacientes mais jovens.

– Relação com a obesidade: dietas ricas em AUPs promovem um consumo excessivo de energia, resultando em um rápido ganho de peso. Ter um IMC acima de 30 kg/m² confere um risco quase duas vezes maior de EOCRC.

– Colibactina e assinaturas mutacionais: assinaturas da colibactina (genotoxina da bactéria E. coli) são comuns no EOCRC. O contato precoce com essas bactérias deixa marcas mutacionais duradouras, acelerando a via clássica adenoma-carcinoma. Em contrapartida, a via serrilhada depende de alterações epigenéticas que exigem exposições mais prolongadas; por isso, perturbações por AUPs influenciam menos a carcinogênese serrilhada em jovens.

Conclusão

Em resumo, um maior consumo de alimentos ultraprocessados esteve associado a um risco elevado de adenomas colorretais convencionais de início precoce no sexo feminino. Os resultados reforçam a melhoria da qualidade da alimentação como uma estratégia para prevenir o câncer colorretal em mulheres.

O estudo possui algumas limitações. Por exemplo, a coorte foi composta por enfermeiras com alto nível de escolaridade.

Pesquisas futuras devem validar esses achados em populações mais diversas e investigar os mecanismos biológicos subjacentes, visando promover o desenvolvimento de estratégias de prevenção personalizadas e de precisão.

Para ler o artigo científico completo, clique aqui.

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Referência:

Wang C, Du M, Kim H, Nguyen LH, Wang QL, Drew DA, Leeming ER, Khandpur N, Sun Q, Zong X, Gweon TG, Ogino S, Ng K, Berry S, Giovannucci EL, Song M, Cao Y, Chan AT. Ultraprocessed Food Consumption and Risk of Early-Onset Colorectal Cancer Precursors Among Women. JAMA Oncol. 2026 Jan 1;12(1):49-57. doi: 10.1001/jamaoncol.2025.4777. PMID: 41231486; PMCID: PMC12616530.

Pós-graduação de Nutrição Clínica

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