5 estratégias essenciais para a nutrição no câncer de pâncreas

5 estratégias essenciais para a nutrição no câncer de pâncreas

nutrição no câncer de pâncreas
Fonte: Canva


O
câncer de pâncreas figura entre os tumores com pior prognóstico. A taxa de sobrevida em cinco anos é de apenas 12,8%, e a maioria dos pacientes já apresenta doença avançada no momento do diagnóstico. Diante desse cenário desafiador, a nutrição adequada emerge como um dos pilares mais críticos – e também mais negligenciados – do cuidado.

Já no diagnóstico, cerca de 80% dos pacientes apresentam perda de peso significativa. Além disso, até 75% podem ser classificados como desnutridos. A desnutrição compromete a qualidade de vida, intensifica os efeitos adversos das terapias e reduz as chances de completar o tratamento proposto, impactando diretamente a sobrevida.

Um recente artigo de revisão sintetizou cinco estratégias essenciais para nutricionistas e demais profissionais de saúde que acompanham esses pacientes. A seguir, detalhamos cada uma delas.

1. Identificar e diagnosticar a desnutrição precocemente

O primeiro passo é reconhecer quem está em risco. Para isso, a Malnutrition Screening Tool (MST) é uma ferramenta simples e validada, composta por apenas dois itens: perda de peso não intencional e redução do apetite. Pontuações iguais ou superiores a 2 indicam risco e devem acionar uma avaliação nutricional mais aprofundada.

Já o diagnóstico formal de desnutrição utiliza a Avaliação Subjetiva Global (ASG), considerada o padrão-ouro, que combina anamnese clínica e exame físico para classificar o paciente como bem nutrido, levemente ou gravemente desnutrido.

Pacientes com câncer de pâncreas têm necessidades proteicas e calóricas aumentadas devido ao maior gasto metabólico, o que torna o acompanhamento longitudinal indispensável. Contar com uma equipe multidisciplinar e integrar o nutricionista desde o início é fundamental para manter o paciente em tratamento e melhorar os desfechos clínicos.

2. Manter a hidratação adequada

A desidratação é uma complicação frequente e muitas vezes subestimada. No câncer de pâncreas, as perdas hídricas podem ocorrer por múltiplos mecanismos, tais como: diarreia, vômitos, febre, sangramentos, e efeitos adversos de medicamentos como quimioterápicos, diuréticos e laxantes.

A medição rotineira dos sinais vitais pode ajudar a avaliar o estado de hidratação dos pacientes, conforme a tabela abaixo.

Sinal vital O que procurar Valor de referência
Frequência cardíaca Taquicardia Frequência cardíaca > 100 BPM
Pressão arterial Hipotensão ortostática Redução da pressão arterial sistólica de pelo menos 20 mmHg ou da pressão arterial diastólica de 10 mmHg ao passar da posição sentada para a posição em pé
Temperatura Febre Temperatura de 38°C ou superior
Frequência respiratória Taquipneia Respirações ≥ 20 por minuto
Peso Perda de peso Superior a 3% em 7 dias

Fornecer ao paciente uma quantidade de água por dia para consumir pode ajudá-lo a entender o que é necessário e melhorar sua adesão ao plano.

Na orientação prática ao paciente, recomenda-se: 

  1. Incentivar pequenos goles ao longo do dia, em vez de grandes volumes de uma vez; 
  2. Lembrar que sopas, shakes e smoothies também contam para a meta hídrica diária;
  3. Incentivar o consumo de alimentos com maior teor de líquidos, como frutas, gelatinas e picolés;
  4. Orientar o uso de ferramentas de medição, como garrafas com mensagens motivacionais que indicam a quantidade de água ingerida ao longo do dia.

3. Manejar os sintomas que comprometem a ingestão

Uma ampla gama de sintomas pode reduzir a ingestão alimentar, e ignorá-los é um erro que compromete todo o plano nutricional.

Alterações no paladar são frequentes com os tratamentos para o câncer de pâncreas. Nesses casos, condimentos e temperos podem intensificar o sabor dos alimentos. Bochechos com solução de bicarbonato, sal e água ajudam a limpar o palato e reduzir inflamações orais.

Para náuseas, a abordagem combina uso adequado de medicamentos e estratégias alimentares: preferir alimentos com pouco odor, em temperatura ambiente ou fria, em pequenas refeições a cada 2 a 3 horas.

Alterações intestinais, tanto diarreia quanto constipação, também são comuns. Dietas com menor teor de fibras e alimentos de fácil digestão auxiliam no controle da diarreia. Ademais, os pacientes devem ser incentivados a comer e beber separadamente, para evitar saciedade precoce e evacuações mais frequentes. Já exercícios físicos podem ajudar a diminuir a sensação de plenitude em pacientes com constipação.

A fadiga merece atenção especial: ela reduz a disposição para comer, aumenta o esforço percebido até mesmo para mastigar e faz com que o corpo recorra à massa muscular como fonte proteica. Alimentos macios e úmidos, como ovos mexidos, iogurte, purês e smoothies, facilitam a ingestão nesse contexto.

Pacientes submetidos a cirurgias que envolvem estômago ou intestino delgado podem desenvolver síndrome de dumping, caracterizada por fadiga pós-prandial, sudorese e diarreia. A orientação é: refeições pequenas e frequentes, com baixo teor de fibras e açúcar, e sem ingestão de líquidos nos primeiros 30 minutos após as refeições.

4. Avaliar e tratar a insuficiência pancreática exócrina

Entre 66% e 92% dos pacientes com câncer de pâncreas desenvolvem insuficiência pancreática exócrina (IPE), uma condição em que a produção insuficiente de enzimas digestivas compromete a absorção de gorduras, proteínas e carboidratos.

Os sintomas incluem fezes claras, oleosas, de grande volume e odor fétido, além de gases, distensão abdominal, dor após as refeições e perda de peso mesmo com ingestão alimentar aparentemente adequada.

O diagnóstico é predominantemente clínico, dado que os testes laboratoriais são de acesso limitado e trabalhosos. A triagem ativa, com perguntas objetivas sobre hábitos intestinais, é a estratégia mais eficaz para identificação precoce.

O quadro abaixo orienta perguntas a se fazer no rastreio da IPE.

Você já notou algum destes sintomas nas suas evacuações?  Você costuma apresentar algum destes sintomas?
• Cor bege ou amarelada

• Aumento da frequência

• Fezes soltas ou malformadas

• Flutuantes

• Grande volume

• Seios granulosos

• Urgência para evacuar

• Oleosas

• Excesso de gases

• Dor ou cólicas após as refeições

• Perda de apetite ou recusa alimentar

• Gases ou fezes com odor fétido/rançoso

• Cólicas durante a evacuação

• Ruídos intestinais aumentados

• Perda de peso apesar da ingestão adequada de alimentos

• Incapacidade de ganhar peso apesar da ingestão adequada de alimentos

• Sensação de saciedade precoce

O tratamento é feito com suplementação de enzimas pancreáticas, que devem ser tomadas junto às refeições e a qualquer preparação que contenha gordura, proteína ou carboidratos. As diretrizes atuais recomendam 40.000 a 50.000 unidades de lipase por refeição, podendo chegar ao dobro ou triplo desse valor conforme a resposta clínica. 

Um estudo sugeriu que mais de 50% dos pacientes com IPE recebem um manejo inadequado. Sendo assim, manter um diário de sintomas, hábitos intestinais, consumo alimentar e peso facilita a adesão e ajustes no tratamento.

5. Engajar os cuidadores no processo nutricional

O cuidador é peça central na nutrição do paciente oncológico, e precisa de orientação específica para exercer esse papel com efetividade.

Uma recomendação valiosa é evitar perguntar constantemente “o que você quer comer?” ao paciente. A pergunta aberta demais frequentemente resulta em “nada”. Uma abordagem mais eficaz é pedir ao paciente que liste, nos dias de melhor apetite, os alimentos que lhe parecem mais apetitosos. O cuidador apresenta essa lista no momento das refeições, oferecendo escolhas viáveis e reduzindo a carga de decisão.

Outras estratégias úteis: 

  • Servir porções pequenas em pratos pequenos
  • Programar alarmes a cada 2 a 3 horas como lembrete para comer
  • Manter lanches acessíveis durante a noite 
  • Tornar a alimentação uma atividade social (à mesa, com música, um filme ou um jogo de cartas)

Amigos e familiares que queiram ajudar podem ser orientados a preparar alimentos tolerados pelo paciente, datando cada preparo e porcionando em recipientes individuais.

Conclusão

Manter o estado nutricional adequado no câncer de pâncreas exige atenção contínua, triagem sistemática e atuação multidisciplinar. 

Profissionais de saúde, especialmente nutricionistas, estão na linha de frente desse cuidado. Atualizar-se sobre as melhores estratégias nutricionais para essa população é, antes de tudo, um ato de cuidado.

Para ler o artigo científico completo, clique aqui.

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Referência:

Hacker-Prietz A, Brown ME, Singer L, Narang A, Pathak P, Stricker C, Herman J. Nourishing Hope: Five Essential Nutrition Tips for Patients With Pancreatic Cancer. J Adv Pract Oncol. 2026;17(2):56–65.

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