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Vitamina D em UTI: efeitos da suplementação na ventilação mecânica e desfechos clínicos
Vitamina D em UTI: efeitos da suplementação na ventilação mecânica e desfechos clínicos

A ventilação mecânica prolongada (VMP) é comum em pacientes críticos que necessitam de suporte ventilatório invasivo.
Pacientes em VMP são particularmente vulneráveis a complicações como pneumonia associada à ventilação mecânica (PAV), contusão pulmonar traumática grave, atrofia muscular, falha no desmame e disfunção de múltiplos órgãos. Como consequência, aumenta-se a morbidade, o tempo de permanência na UTI e os custos de saúde.
Nesse sentido, identificar fatores modificáveis que influenciam os resultados nesta população é uma prioridade clínica urgente. Como exemplo, a deficiência de vitamina D está presente em 40% a 80% de pacientes em UTI, e associa-se a um maior risco de infecções respiratórias.
Um recente estudo avaliou os efeitos da suplementação de vitamina D na recuperação de contusão pulmonar traumática grave, PAV e sepse, assim como na duração da ventilação mecânica, no tempo de internação na UTI e na mortalidade.
Suplementação de 100.000 UI em pacientes críticos
Em um estudo prospectivo, duplo-cego e randomizado e controlado, 80 pacientes dos hospitais da Universidade Al-Azhar, no Egito, foram investigados.
Os participantes apresentavam contusão pulmonar traumática grave, eram admitidos na UTI cirúrgica, e foram submetidos à ventilação mecânica por 10 dias consecutivos. Como critérios de inclusão, os paciente deveriam apresentar:
- Escore de Murray > 4 (ferramenta para avaliar a gravidade e progressão da lesão pulmonar aguda)
- CPIS > 6 (escore que diagnostica e monitora a pneumonia associada à ventilação mecânica – PAV)
- Escore SOFA > 10 (ferramenta que avalia a disfunção orgânica sistêmica na sepse)
Os pacientes foram randomizados em dois grupos:
- Grupo A (controle), n=40: receberam alimentação padrão via sonda nasogástrica de acordo com a política do hospital;
- Grupo B (vitamina D), n=40: receberam alimentação padrão via sonda nasogástrica + 100.000 UI/dia vitamina D por sonda, durante 14 dias.
Os pesquisadores selecionaram um regime de alta dose, com base em estudos anteriores em UTI que mostraram efeitos imunomoduladores e anti-inflamatórios da vitamina D em uma semana, sem toxicidade a curto prazo.
Os pacientes foram monitorados por 14 dias. Os desfechos primários incluíram o escore de Murray, o escore CPIS e o escore SOFA. Já os desfechos secundários incluíram morbidade, mortalidade, duração da ventilação mecânica e tempo de permanência na UTI.
Principais achados: impacto no desmame e tempo de internação
Após duas semanas de investigação, os participantes que receberam a suplementação de vitamina D apresentaram:
- Menor tempo de cicatrização da contusão pulmonar traumática
- Menor tempo de recuperação da PAV e recuperação da sepse
- Menor tempo de ventilação e de permanência na UTI
- Menor taxa de morbidade e mortalidade
Em síntese, a administração de vitamina D foi um método eficaz. Tal resultado corrobora com boa parte da literatura científica, que sugere o efeito da vitamina D na diminuição da duração da ventilação, melhorando os resultados em pacientes críticos no que diz respeito à taxa de infecção, superação da sepse e desmame rápido da ventilação.
O que explica esses benefícios?
Os autores levantaram hipóteses por trás dos benefícios proporcionados pela suplementação de vitamina D, pensando nas ações farmacológicas deste micronutriente. São elas:
– Modulação imunológica e controle de infecções: a vitamina D atua nas respostas inatas, aumentando a produção de peptídeos antimicrobianos (catelicidinas e defensinas) e a capacidade de fagocitose. Ao mesmo tempo, também atua na imunidade adaptativa, suprimindo as respostas das células T helper 1 e T helper 17 e promovendo a função das células T reguladoras (Treg).
– Resposta inflamatória e disfunção orgânica: a vitamina D atenua a inflamação sistêmica ao inibir citocinas pró-inflamatórias (como TNF-α e IL-6) e elevar as anti-inflamatórias (IL-10). Além disso, os efeitos protetores da vitamina D na integridade da barreira endotelial e na função vascular podem ajudar a reduzir a gravidade da disfunção orgânica.
– Função muscular e desmame da ventilação: a deficiência de vitamina D associa-se a à fraqueza e atrofia muscular, ambas contribuintes para a ventilação mecânica prolongada e dificuldade no desmame. Níveis adequados dão suporte à força muscular necessária para facilitar a liberação do paciente.
– Implicações cardiovasculares e metabólicas: a vitamina D modula a contratilidade miocárdica e o tônus vascular, auxiliando na estabilidade hemodinâmica do choque séptico. Além disso, melhora o controle glicêmico e a sensibilidade à insulina, combatendo a hiperglicemia que, se não controlada, prejudica a função imunológica (inibindo a função fagocítica do macrófago) e favorece infecções.
O que podemos concluir?
Resumidamente, a suplementação de vitamina D foi uma opção eficaz e eficiente no controle de todas as manifestações clínicas da contusão pulmonar traumática grave, PAV e sepse, além de acelerar o desmame da ventilação, reduzir o tempo de internação na UTI e a taxa de mortalidade.
Vale ressaltar que o estudo apresentou algumas limitações, como amostra pequena, e falta de comparação direta entre diferentes métodos de administração de vitamina D.
Sendo assim, novas pesquisas sobre dosagem individualizada, duração, melhor método de administração e resultados a longo prazo devem ser conduzidos para confirmar tais achados.
Para ler a pesquisa científica completa, clique aqui.
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Referência
Allam MGIM, Alfeky AA, Abouelnour ASE, Hemaidah EGS, Adawy Z, Ramadan HSI, Ezzelarab M, Elbadawy MA, Moursi SA, Khalil AF, Ali HA, Khalifa AMA, Aly AOI, Mekkawy AMA, Talaat BH, Ali MAE, Mahmoud EAEAE, Omar A, Elshamy MM, Zabady MMMM, Hegab MM, Saleh RM, Elsawy AGS. Effect of vitamin D as Nutrition Supplement on Patients with Prolonged Ventilation due to Ventilator Associated Pneumonia and Sepsis Followed Severe Traumatic Lung Contusion: A Randomized Controlled Trial. Clin Ter. 2026 Jan-Feb;177(1):65-73. doi: 10.7417/CT.2026.1976. PMID: 41525115.
Redação Ganep Educação



