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Diabetes sarcopênica: recomendações ESPEN/DNSG
Diabetes sarcopênica: recomendações ESPEN/DNSG

A sarcopenia é uma condição caracterizada pela perda progressiva de massa, força e função muscular, que frequentemente ocorre em conjunto com outras doenças. É o caso da diabetes sarcopênica, que, embora pouco discutida, pode trazer consequências severas para o paciente.
Recentemente, a Sociedade Europeia de Nutrição Clínica e Metabolismo (ESPEN) e o Grupo de Estudos de Nutrição em Diabetes (DNSG) juntaram forças para discutir mecanismos, diagnóstico e terapias para a diabetes sarcopênica, aumentando a conscientização em torno deste quadro. A seguir, confira os principais pontos abordados no material.
Diabetes sarcopênica: definição, epidemiologia e mecanismos
A diabetes sarcopênica ocorre quando, além do quadro de diabetes, há presença de alteração da composição corporal, sendo estas a perda de massa muscular esquelética e a perda da função muscular. Isso pode ser exacerbado pela presença de adiposidade anormal, mas também pode ocorrer independentemente da obesidade, resultante de distúrbios metabólicos associados à diabetes e à hiperglicemia.
Deve-se ressaltar que, embora a diabetes seja um forte fator de risco para sarcopenia, a sarcopenia também é um fator de risco para diabetes e mau controle glicêmico, estabelecendo um ciclo vicioso.
Nesse sentido, os mecanismos fisiopatológicos que ligam a sarcopenia e a diabetes são multifatoriais e sinérgicos, envolvendo:
- Dieta inadequada (alto consumo de gorduras saturadas, energia e alimentos com alto índice glicêmico; baixo consumo de proteínas, fibras e gorduras insaturadas)
- Sedentarismo
- Excesso de adiposidade
- Inflamação
- Resistência à insulina
- Hiperglicemia
- Complicações e comorbidades associadas à diabetes (por exemplo, doença cardiovascular diabética, nefropatia, neuropatia, doença do pé diabético e retinopatia)
- Medicamentos antiobesidade e antidiabéticos, especialmente os análogos de GLP-1 (risco de perda de massa magra)
Estima-se que a diabetes sarcopênica ocorra em cerca de 28% dos pacientes com diabetes mellitus tipo 2 (DM2). Entretanto, estudos individuais apresentam uma alta variação de prevalência, de 5 a 50%.
A presença concomitante de sarcopenia e diabetes pode resultar em diversos desfechos clínicos negativos, como fragilidade, perda de autonomia, internações hospitalares mais longas, pior prognóstico em falências orgânicas crônicas, risco aumentado de osteoporose e fraturas, e maior risco de mortalidade.
Avaliação clínica da diabetes sarcopênica
Suspeita clínica
A ESPEN e a DNSG defendem que a prevenção, a limitação ou o tratamento da sarcopenia devem ser um objetivo clínico em pacientes com diabetes e as seguintes condições:
- Sinais ou sintomas compatíveis com baixa função e massa muscular esquelética;
- Condições de risco para baixa função e massa muscular esquelética, como idade avançada, estilo de vida sedentário, controle glicêmico inadequado, complicações diabéticas, comorbidades e eventos catabólicos agudos recentes;
- Programas contínuos de controle de peso, incluindo mudanças intensivas no estilo de vida, medicamentos como imunomoduladores e/ou procedimentos metabólicos/bariátricos.
Diagnóstico
Para diagnosticar diabetes sarcopênica, a ESPEN e o DNSG fazem as seguintes recomendações:
– O algoritmo da Iniciativa de Liderança Global em Obesidade Sarcopênica (SOGLI) deve ser usado para o diagnóstico de diabetes sarcopênica em pacientes com diabetes tipo 2 (DM2), quando o índice de massa corporal (IMC) ou a circunferência da cintura atingirem os limiares específicos para cada etnia.
– O algoritmo do Grupo de Trabalho Europeu sobre Sarcopenia em Idosos de 2018 (EWGSOP2) deve ser usado para o diagnóstico de diabetes sarcopênica em pacientes sem obesidade ou excesso de gordura visceral, de acordo com os pontos de corte de IMC e CC específicos para cada etnia e sexo.
Os especialistas chamam a atenção para a necessidade de desenvolver uma estratégia orientada para diabetes, a fim de otimizar sua identificação.
Métodos para avaliação da composição muscular e corporal
A força de preensão manual por dinamômetro ou testes de sentar e levantar são recomendados para a avaliação da função muscular.
A SOGLI e a EWGSOP2 recomendam a absorciometria de raios X de dupla energia como padrão ouro clínico para a composição corporal.
A bioimpedância elétrica também é apoiada como uma abordagem mais simples, implementável à beira do leito ou em ambiente ambulatorial.
Diabetes sarcopênica: recomendações para prevenção e tratamento
Padrões alimentares saudáveis
Recomenda-se um padrão alimentar com base em carboidratos de baixo índice glicêmico, maior teor de gordura insaturada de origem vegetal, fibras e grãos integrais, rico em micronutrientes, antioxidantes e componentes anti-inflamatórios. Exemplos incluem a dieta mediterrânea, a dieta nórdica tradicional ou a dieta vegetariana.
Dietas terapêuticas baseadas em evidências também são indicadas, e incluem:
- Dieta Portfolio: conjunto de alimentos redutores de colesterol, incluindo nozes e sementes, proteína vegetal, fibra solúvel viscosa, esteróis vegetais e óleos vegetais ricos em gordura monoinsaturada
- Dieta DASH: padrão alimentar para redução da pressão arterial com ênfase em frutas, vegetais, laticínios com baixo teor de gordura ou sem gordura, grãos integrais, nozes e leguminosas
Consumo de proteínas
Pacientes em risco ou com diabetes sarcopênica já estabelecida devem manter uma ingestão proteica diária acima de 1 g/kg de peso corporal. No caso de pessoas com obesidade ou sobrepeso, deve-se calcular com base no peso corporal ajustado.
Se essa ingestão não for atingida por meio da dieta regular, deve-se considerar a adição de proteína em pó ou líquida em alimentos e bebidas, o uso de suplementos orais de energia e proteína ou tratamentos nutricionais médicos.
Ingestões proteicas mais elevadas podem ser preferíveis para preservar ou recuperar a massa magra em idosos, pessoas com desnutrição e/ou condições hipercatabólicas agudas.
Carboidratos e gorduras
Recomenda-se quantidades adequadas de carboidratos de baixo índice glicêmico e gordura insaturada de origem vegetal, bem como uma quantidade adequada de fibras (35 g/dia).
Micronutrientes
Pacientes com diabetes apresentam maior risco de deficiências de micronutrientes, muitas das quais contribuem para o risco de sarcopenia, sendo a deficiência de vitamina D a mais comum.
O fornecimento de micronutrientes deve ser orientado por diretrizes e de acordo com a ingestão diária recomendada.
Atividade física
Níveis apropriados e seguros de atividade física e programas de exercícios estruturados devem ser implementados rotineiramente em pacientes com diabetes, particularmente na presença de sobrepeso/obesidade.
Na presença de sarcopenia, o treinamento de força-resistência tem sido recomendado como tratamento de primeira linha em idosos. Em pessoas com fragilidade e deficiências, a reabilitação física deve ser implementada individualmente.
Leia o material completo
No documento completo, os profissionais aprofundam os mecanismos envolvidos na diabetes sarcopênica, bem como sua epidemiologia. Além disso, discutem sobre o manejo da obesidade em pacientes com a condição.
Para ler a diretriz completa, clique aqui.
Se você gostou deste conteúdo, leia também:
- Ingestão de proteína, prevenção de sarcopenia e risco de obesidade
- Prevenção, diagnóstico e tratamento da Sarcopenia: Consenso Australiano
- Padrões de cuidados em diabetes: diretrizes ADA atualizadas
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Referência:
Sarcopenic diabetes is an under-recognized and unmet clinical priority. A call for action from the European Society for Clinical Nutrition and Metabolism and the Diabetes Nutrition Study Group. Barazzoni, Rocco et al. Clinical Nutrition, Volume 55, 208 – 218
Redação Ganep Educação



