Autor: Martketing Ganep

O consumo de proteína vegetal tem impacto sobre a mortalidade?

Dietas com maior aporte proteico vem sendo utilizadas como estratégia válida para perda de peso e redução da gordura corporal, porém poucos estudos avaliaram se o tipo de proteína consumida teria impacto na mortalidade.

Com o objetivo de examinar a associação entre mortalidade geral, mortalidade por causa específica e ingestão de proteínas vegetais, Huang e colaboradores analisaram o questionário de ingestão alimentar, dados demográficos, estilo de vida e mortalidade de um estudo de coorte de 416.104 homens e mulheres norte-americanos, com idade 50 a 71 anos, acompanhada por 16 anos.

Os pesquisadores observaram que a ingestão diária de proteína total representou 15,3% do total de energia consumida, sendo que as fontes vegetais correspondiam a 40% desse consumo e as fontes animais correspondiam a 60% do total. Indivíduos com diabetes, maior nível educacional, menor IMC, menor consumo total de calorias, maior consumo de fibras, frutas e vegetais, mais ativos fisicamente e com menos probabilidade de ser fumantes apresentaram maior consumo de proteínas vegetais.

Ao longo dos 16 anos de acompanhamento, houve 77.614 mortes. A ingestão de proteínas vegetais foi inversamente associada à mortalidade ajustada à idade por todas as causas, tanto em homens quanto em mulheres, representando redução de 12% e 14% da mortalidade por aumento na ingestão de 10 g de proteína vegetal/1000 kcal (p<0,001). Olhando para a mortalidade por causas específicas, o consumo de proteína vegetal foi inversamente proporcional a mortalidade por todas as doenças cardiovasculares e acidente vascular cerebral (P <0,003). Por outro lado, não se associou a mortalidade por câncer, doenças respiratórias e infecções.

Os pesquisadores sugerem que a substituição da proteína do ovo e da proteína da carne vermelha pela proteína de origem vegetal resulta em menor risco para a mortalidade geral, representando risco 24% e 21% menor para homens e mulheres, respectivamente, para reposição da proteína do ovo, e 13% e 15% menor risco de mulheres e mulheres para reposição de proteínas da carne vermelha. Assim, os pesquisadores concluem que modificações na escolha de fontes proteicas, favorecendo o consumo de vegetais, podem influenciar na saúde e longevidade.

Referência: Huang J, Liao LM, Weinstein SJ, Sinha R, Graubard BI, Albanes D. Association Between Plant and Animal Protein Intake and Overall and Cause-Specific Mortality. JAMA Intern Med. 2020; e202790.

Por: Natalia Lopes

Prevalência de baixa qualidade de sono em indivíduos hipertensos

Vários estudos relataram uma associação entre a duração anormal do sono e condições crônicas, incluindo hipertensão. Nesse contexto, foi realizado estudo com o objetivo determinar a prevalência e os fatores associados a baixa qualidade de sono em pacientes hipertensos.

Foram selecionados pacientes hipertensos que atenderam aos critérios de elegibilidade e que frequentavam o hospital em que foi realizado o estudo. Os participantes responderam a entrevista sobre dados sociodemográficos, índice de qualidade do sono Pittsburg (IQSP), fatores associados com a qualidade do sono, peso, altura, IMC, pressão sanguínea e nível de atividade física.

Fizeram parte do estudo 279 pacientes hipertensos, sendo 50,9% homens, com idade média de 53 anos. Desses, 24% apresentaram níveis altos de triglicerídeos, 11,8% de colesterol total e 10% de LDL-colesterol. Metade dos participantes tiveram diagnóstico de hipertensão há menos de 5 anos, sendo que do total, 57% estavam utilizando somente diuréticos e 28,7% usavam diuréticos e inibidores cardíacos. Um terço dos pacientes apresentavam histórico de mascar fumo, 6,5% de fumar cigarro e 17,6% ingeriam bebidas alcóolicas, 18,6% eram sedentários, e 39,8% apresentavam sobrepeso e 10% eram obesos. A prevalência de baixa qualidade de sono entre os hipertensos foi de 35,5%. Participantes que referiram não conseguir respirar bem durante a noite foram 43,8% dos pacientes e 35,8% roncavam.

Pela análise bivariada, fatores como históricos de tabagismo, etilismo e sedentarismo foram associados a baixa qualidade de sono. Duração de tempo de medicação e nível de colesterol, hipertensão diastólica em estágio I e II e hipertensão sistólica nível II se associaram significativamente com a baixa qualidade de sono. Indivíduos fisicamente ativos apresentaram três vezes menos chance de desenvolver baixa qualidade de sono (razão de risco ajustada – AOR=0,288). Pacientes com pressão diastólica níveis I e II possuíam quatro a cinco vezes mais chance de desenvolver baixa qualidade de sono em comparação aos com pressão arterial normal (AOR= 3,923 e 4,520, respectivamente).

Os autores concluíram que um terço dos pacientes hipertensos apresentava baixa qualidade de sono e que a hipertensão arterial diastólica e a inatividade física foram preditores independentes de baixa qualidade de sono em pacientes hipertensos.

Referência:  Birhanu TE et al. Prevalence of poor sleep quality and its associated factors among hypertensive patients on follow up at Jimma University Medical Center. Journal of Human Hypertension. Mar 2020.

Por Renata Gonçalves

Transplante de microbiota fecal em pacientes com Doenças Inflamatórias Intestinais

A etiologia das doenças inflamatórias intestinais (DII) é multifatorial, envolvendo a resposta imune desregulada a fatores ambientais em indivíduos geneticamente suscetíveis. Nos últimos anos, a microbiota intestinal é reconhecida por desempenhar um papel importante nas DII. O transplante de microbiota fecal (TMF) visa modificar a composição e função da microbiota intestinal dos receptores, transferindo os metabólitos fecais do doador para o trato gastrointestinal de um receptor. Essa terapêutica é um método novo e promissor para manipular a função da microbiota intestinal, mas esses estudos ainda estão em seus estágios iniciais.

Em um ensaio de coorte prospectivo intervencionista avaliou-se a resposta do TMF em pacientes com DII. Foram selecionados 14 pacientes com doença de Crohn (DC) e colite ulcerativa (UC), de classificação moderada a grave, com idade entre 19 e 64 anos. Foram excluídos pacientes com doenças graves, outras doenças intestinais com relatos de obstrução intestinal e que tenham recebido alguma terapia biológica nos últimos três meses antes do TMF. Os doadores eram familiares do paciente ou não, sem histórico de uso de antibióticos, laxantes ou pílulas dietéticas nos últimos três meses e sem doenças gastrointestinais recentes. Todos os pacientes foram tratados com um único TMF (via intestino médio) e os acompanhamentos foram realizados no tempo zero, 3 dias, 1 semana e 1 mês após o TMF. Em cada período de seguimento foram coletadas amostras fecais e dados clínicos. Todas as amostras fecais foram submetidas a sequenciamento metagenômico de espingarda, conhecido do termo em inglês shotgun.

Os resultados mostraram que o índice médio de Shannon de pacientes com DC foi significativamente menor que o dos controles saudáveis ​​(p=0,0035).  Esse índice mede a incerteza de um dado estatístico. Quanto menor o valor do índice de Shannon, menor o grau de incerteza.

Nos pacientes com UC, embora o índice de Shannon fosse inferior à média em controles saudáveis, a disbiose não foi significativa (p=0,57). Após três dias do TMF, 11 dos 15 pacientes estavam em remissão (3 de 4 com UC; e 8 de 11 com DC). A colonização bacteriana foi observada como sendo menor nos receptores de DC do que nos receptores de UC, em ambos os níveis de espécie e cepa. A maioria das espécies microbianas pós-TMF (> 80%) mostraram-se favoráveis para a composição adequada da flora bacteriana, no entanto esses achados precisam ser vistos com alguma limitação devido ao tamanho amostral pequeno, limitação geográfica e um curto período de tempo após TMF.

Os autores concluem que as alterações da microbiota podem ser refletidas no nível de espécie e no nível de deformação após a TMF; e que a possibilidade de combinar elementos da microbiota com fatores fenotípicos pode predizer a composição da microbiota intestinal de receptores pós-TMF. Esses achados destacam a contribuição de métodos avançados de investigação das espécies microbianas intestinais e favorece o estudo da ação de probióticos em doenças específicas incluindo DII.

Zou M, Jie Z, Cui B, et al. Fecal microbiota transplantation results in bacterial strain displacement in patients with inflammatory bowel diseases. FEBS Open Bio. 2020;10(1):41-55. 

Por: Jana Grenteski

Efeito do consumo de azeite de oliva associado ou não a dieta saudável na composição corporal e na sarcopenia de indivíduos obesos

Intervenções nutricionais podem ter impacto positivo na progressão da sarcopenia e na composição corporal. Dessa maneira, um estudo brasileiro avaliou a efetividade do consumo de azeite de oliva extra virgem (AOEV) e de uma dieta tradicional brasileira saudável (DieTBra) em indicadores de sarcopenia e na redução da gordura corporal em obesos graves.

O estudo randomizado controlado incluiu participantes com IMC ≥ 35 kg/m², entre 18 e 64 anos, alocados em três grupos de tratamento. O grupo 1 foi o AOEV (n=28), no qual os participantes receberam 52ml/dia de azeite de oliva; grupo 2 foi DieTBra (n=32), que realizou dieta tradicional brasileira saudável conforme orientação no guia alimentar nacional; e grupo 3 foi a associação DieTBra +AOEV (n=37), que realizou a dieta que o grupo 2 e recebeu a mesma quantia de azeite de oliva que o grupo 1.

Os participantes não sabiam qual tipo de óleo estavam utilizando. A intervenção foi realizada durante 12 meses com visitas mensais para acompanhamento do estudo. Foi calculada individualmente a percentagem desejada de perda de peso e a ingestão calórica diária dos participantes. Foram realizadas medidas antropométricas de densitometria por dupla emissão de raios-X (DEXA), massa muscular esquelética apendicular (MMEA) para análise da composição corporal e a força de preensão manual – hand grip (HP) e velocidade de marcha para análise funcional da progressão da sarcopenia.

No início do estudo, não houve diferença entre os grupos em relação aos parâmetros de composição corporal. Dos participantes, 93,7% eram mulheres, com IMC médio de 43,7 kg/m², 51,7% de gordura corporal e média de 8,2 kg/m² de MMEA. Não houve diferença entre os grupos em nenhum momento do estudo quanto a calorias e macronutrientes ingeridos.

No final do estudo, foram observadas reduções significativas na gordura corporal total (p = 0,041) e no peso corporal (p = 0,003) no grupo DieTBra. No grupo DietBra+ azeite de oliva também foi observada uma redução significativa no peso corporal (0,001) em comparação ao grupo somente de azeite de oliva. Também houve redução significativa na gordura corporal total nos grupos DieTBra (p = 0,016) e DieTBra + azeite (p = 0,004).

Na avaliação da sarcopenia, os participantes do grupo DieTBra apresentaram melhoras significativas em sua velocidade de caminhada (p = 0,042) e na força de preensão manual (p = 0,044).

Os autores concluiram que uma dieta tradicional brasileira saudável, associada ou não ao consumo de azeite de oliva, foi capaz de melhorar a força e a funcionalidade muscular, além de ter se associado com a redução da gordura corporal total em indivíduos obesos. O uso isolado do azeite de oliva extra virgem não melhorou nenhuma das variáveis investigadas.

Referência: Silveira EA et al. Efects of Extra Virgin Olive Oil (EVOO) and the Traditional Brazilian Diet on Sarcopenia in Severe Obesity: A Randomized Clinical Trial. Nutrients 2020, 12, 1498

Por: Marcella Gava

Impacto da intervenção familiar na prevenção do Diabetes Mellitus tipo 2 em pré-diabéticos

Está bem estabelecido a importância da mudança do estilo de vida na redução de risco do diabetes mellitus tipo 2 (DM2), porém, até recentemente, nenhum estudo clínico randomizado havia avaliado o impacto da intervenção no estilo de vida em pré-diabéticos envolvendo a participação de seus familiares no seu tratamento.

Nesse sentido, um ensaio clínico randomizado comparou o impacto da mudança do estilo de vida em indivíduos com pré-diabetes avaliando duas formas de conduta: intervenção interdisciplinar familiar (IF) versus intervenção individual, sem participação direta da família (II).

Foram acompanhados 122 indivíduos pré-diabéticos e 101 familiares, tanto no grupo FI quanto no grupo II. No grupo FI, o paciente e seus familiares receberam orientações personalizadas de dieta e exercício. Tanto os pacientes quanto os familiares frequentaram mensalmente um programa de aprimoramento do estilo de vida. No grupo II, apenas os pacientes receberam orientações personalizadas, porém seus familiares foram acompanhados no início e final do estudo. O período de seguimento do estudo foi de 12 meses. Glicose, curva de glicose (AUC), resistência à insulina (RI), função das células β-pancreáticas, composição corporal e perfil lipídico foram avaliados no início do estudo (0 meses), 6 e 12 meses.

Os resultados da pesquisa mostraram que, aos 6 meses de acompanhamento, todas as características antropométricas melhoraram significativamente nos dois grupos, sem diferenças estatísticas entre eles. O consumo calórico diminuiu 3% no grupo II, enquanto houve diminuição de 7% no grupo FI. Em relação aos macronutrientes, o grupo FI teve redução em lipídeos, carboidratos e proteínas; enquanto o grupo II apresentou menor consumo de lipídeos comparado ao FI, e maior consumo de carboidratos e proteínas em relação ao FI. A prática de atividade física aumentou 12% no grupo FI e reduziu no grupo II.

Ambos os grupos apresentaram melhora significativas na glicose de jejum e da função das células β pancreáticas. No grupo FI, foi também observado a melhora da curva de glicose (AUC) e do perfil lipídico (LDL-c e colesterol total) comparado ao grupo II. Os membros da família de ambos os grupos não apresentaram alterações significativas até os 6 meses de seguimento.

Ao longo do período de estudo, a melhora dos parâmetros metabólicos foi mantida no grupo FI, porém não foi observada no grupo II. Nos familiares do grupo II, as mudanças antropométricas (peso, circunferência da cintura, percentual de gordura e índice visceral) alcançadas até os 6 meses de estudo, não foram mantidas ou até pioraram no período de 12 meses de seguimento em relação aos valores iniciais. Por outro lado, no grupo FI, os membros da família mantiveram as medidas corporais até os 12 meses de acompanhamento. Os autores concluíram que a intervenção interdisciplinar familiar contribui para maior engajamento no tratamento preventivo do DM2. Além disso, além do paciente, os membros da família apresentaram manutenção da composição corporal até 12 meses de acompanhamento, podendo, portanto, ser interessante como estratégia preventiva de doenças crônicas como o DM2.

Referência: Vargas-Ortiz K, Lira-Mendiola G, Gómez-Navarro CM, et al. Effect of a family and interdisciplinary intervention to prevent T2D: randomized clinical trial. BMC Public Health. 2020;20(1):97.

Por: Viviane Lago

Consenso clínico para recém-nascidos de mulheres infectadas com Covid19

Academia Americana de Pediatria acaba de publicar um guia para cuidado de recém-nascidos de mães infectadas com COVID-19.

É sugerido que a transmissão congênita e perinatal pode ocorrer, principalmente no último trimestre de gestação. Recém-nascidos de mães com COVID-19 ou mesmo puérperas em espera do teste diagnóstico devem ser considerados de risco, assim uso de equipamentos de proteção individual (EPIs) devem ser utilizados e precaução de isolamento: aventais, luvas, máscaras adequadas devem ser utilizadas com o manejo destes recém-nascidos.

O tipo de parto deve ser decidido de maneira adequada para cada caso. Os cuidados de EPIs em sala de parto devem ser mantidos para toda equipe. Embora o risco de transmissão pós-natal não esteja totalmente esclarecido, tem-se optado por separação do recém-nascido e mãe ao nascimento, e em muitos casos, por um tempo prolongado. O benefício da separação parece ser maior quanto maior a gravidade do quadro materno. Esta separação deve ser discutida com a mãe, preferencialmente, antes do parto.

Os recém-nascidos a termo e em condições satisfatórias devem ser admitidos em áreas de baixo risco do hospital, porém separados de outros recém-nascidos de mães sem COVID-19. Após o parto, devem ser lavados o quanto antes para eliminar o risco do vírus em superfície corpórea. Toda equipe deve manter o uso de EPI até que a criança apresente teste negativo. Crianças que precisem ser transferidas para UTI deverão ficar em isolamento, ou caso não seja possível, mantidas com distanciamento seguro de outras crianças dentro de isoletes.

Em relação ao aleitamento materno, até o momento nenhum estudo demonstrou a presença do vírus no leite, portanto as mães podem extrair seu leite (com adequados cuidados de higiene) e oferecer ao recém-nascido. Dos benefícios do leite materno, é sugerido que o leite materno possa proteger o bebê contra a doença.

Caso a mãe escolha ou o hospital não tenha outra opção além da permanência do recém-nascido em alojamento conjunto com a mãe, o bebê deve ser mantido a distância segura (cerca de dois metros) da mãe. Manter o recém-nascido em uma isolete pode promover um cuidado extra para prevenir infecção. Mas caso a mãe escolha manter contato pele a pele com bebê e manter aleitamento materno diretamente da mama, a mãe deverá utilizar máscara e ter higiene meticulosa de mamas e mãos. É interessante que as instituições mantenham registros documentando estas decisões maternas.

Antes da alta, é indicado testar os neonatos para COVID-19. Caso não exista disponibilidade de testes, manter monitoramento clínico durante os primeiros 14 dias pós nascimento. É recomendado fazê-lo em 24h pós parto de depois confirmar o diagnóstico com 48h por método de PCR.

Na alta hospitalar orientar medidas de isolamento do bebê, uso de máscaras e medidas de higiene até a mãe estar afebril por 72 sem uso de medicações e pelo menos após 7 dias do dia onde manifestaram-se os primeiros sintomas ou mãe ter teste molecular negativo.

É aconselhável não ter regime de visitações para recém nascidos filhos de mães com COVID-19.

Referência: Puopolo Karen M, Hudak Mark L, Kimberlin David W, Cummings James. INITIAL GUIDANCE: Management of Infants Born to Mothers with COVID-19. American Academy of Pediatrics Committee on Fetus and Newborn, Section on Neonatal Perinatal Medicine, and Committee on Infectious Diseases. April 2, 2020.

Por: Lenycia Neri

Terapia Nutricional na Doença Inflamatória Intestinal em crianças

A terapia nutricional é fundamental no tratamento das doenças inflamatórias intestinais (DIIs). De acordo com as atuais diretrizes da Sociedade Europeia de Gastroenterologia, Hepatologia e Nutrição Pediátrica e a Organização de Colite, a nutrição enteral exclusiva é a primeira linha de terapia para pacientes pediátricos com doença de Crohn.

A intervenção com dieta enteral consiste em excluir grupos de compostos alimentares, limitar a exposição a antígenos, estabilizar a permeabilidade intestinal, repor de nutrientes e padronizar o fornecimento de carboidratos. Contudo, a promessa de tratamento não cirúrgico e não farmacológico da doença inflamatória intestinal também propõe o uso de dietas com adaptações nutricionais específicas.

A exclusão de glúten, produtos lácteos, gordura animal, emulsificantes e alimentos enlatados ou processados pode ser utilizada em pacientes com doença de Crohn. Entretanto, existem muitos desafios na implementação deste tipo de dieta. A variedade e a variabilidade é um fator determinante, pois componentes dietéticos como macronutrientes, micronutrientes, aditivos, contaminantes e bioprodutos de preparação devem ser identificáveis. Além disso, a prescrição mal definida ou mal compreendida e a dificuldade de aceitação e adesão também são fatores determinantes.

Tratando-se do público infantil, a estratégia nutricional deve ser minimamente planejada para atender as necessidades nutricionais e garantir o crescimento linear e a saúde óssea. Nesse sentido, o rigor científico precisa ser devidamente aplicado para estabelecer condutas e evitar a implementação de um tratamento inadequado que aumente a dependência de abordagens farmacológicas.

Os autores concluem que respostas mais precisas ainda se fazem necessárias, mas sabe-se que a nutrição e a terapia nutricional constituem grande promessa para o tratamento de doença inflamatória intestinal pediátrica.

Referência: Picoraro JA, Akabas SR, LeLeiko NS. Harmonizing Nutritional Therapies for Pediatric Inflammatory Bowel Disease. J Pediatr Gastroenterol Nutr. 2020;70(3):285-288.Link: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/31860541/

Por: Natasha Machado

Hidratação para pacientes que estão em recuperação domiciliar com COVID-19

A boa hidratação tem papel fundamental na recuperação da infecção por COVID-19. Manter-se bem hidratado é importante para reposição de fluidos perdidos com o aumento da temperatura corporal, para redução de secreções respiratórias e do risco de pneumonia. Os sinais de que a hidratação não está ideal incluem: sede, boca seca, febre, urina de cor escura, débito urinário reduzido, aumento da frequência cardíaca, cansaço e confusão mental.

Recentemente, a Sociedade Americana de Nutrição Parenteral e Enteral (ASPEN) divulgou recomendações para adequada hidratação de indivíduos não hospitalizados em recuperação do COVID-19.

– Beber água ou líquidos claros de hora em hora. No mínimo, consumir de 60 a 120 mL de líquidos a cada 15 minutos. Preferir goles pequenos e frequentes. Variar os tipos de líquidos para evitar alteração do apetite e do paladar.

– Líquidos indicados para consumo incluem: água, bebidas claras (chá, sucos), soluções de reidratação oral ou bebidas esportivas, que além de fornecem calorias, contém eletrólitos e minerais essenciais.

– Manter água e líquidos ao lado da cama para hidratação durante a noite. – Na presença de vômitos ou diarreia, além da água, consumir uma solução de hidratação oral. Sugestão de receita de bebida para reidratação: misturar em 1 jarra: 1⁄2 a 3⁄4 de colher de chá de sal + 1 xícara de suco (laranja, uva, maçã, amora) + 3 e 1⁄2 xícaras de água.

Referência: ASPEN 2020. Nutrition and Hydration: Quick Facts for COVID-19 Patients, ASPEN Recommendations for Non-ICU COVID-19 Patients.

Eficácia do Jejum Intermitente, Dieta Paleolítica e Mediterrânea na perda de peso a longo prazo e nas alterações metabólicas

O protocolo de jejum intermitente (JI) e da dieta paleolítica (DP) tem demonstrado perda de peso satisfatória em ensaios clínicos controlados, porém ainda há pouca evidência sobre sua eficácia a longo prazo, especialmente em pessoas sem suporte nutricional individualizado.

Uma recente pesquisa controlada observacional investigou a adesão a dieta, perda de peso, e os desfechos metabólicos em adultos com sobrepeso que poderiam escolher um protocolo dietético,  a seguir: JI, DP, e dieta mediterrânea (DM), associados com programas de exercício padrão ou de alta intensidade intervalo de formação (HIIT), durante o período de 12 meses.

Participaram do estudo 250 adultos saudáveis, com IMC ≥ 27Kg/m². Foi realizado uma consulta nutricional individualizada para orientar o padrão dietético auto selecionado pelo participante. Foram avaliados o consumo alimentar (registros de 3 dias), peso corpóreo, composição corporal, pressão arterial, e testes glicêmicos laboratoriais (tempo de 0 e 12 meses).

Cerca de 54% dos participantes escolheram como estratégia dietética o JI, aproximadamente 27% a dieta mediterrânea e 18% a DP. No entanto, os índices dos participantes que completaram o protocolo do estudo por 12 meses foram apenas de 54% (JI), 57% (DM) e 35% (DP).

 Aos 12 meses, a média de perda de peso foi de -4,0 kg (desvio padrão (DP): -5,1, -2,8 kg) no grupo JI, de -2,8 kg (DP: -4,4, -1,2 kg) no grupo DM e de -1,8 kg (DP: -4,0, 0,5 kg) em participantes que seguiram a DP. A pressão arterial sistólica reduzida foi observada nos grupos JI (−4,9 mm Hg) e DM (−5,9 mm Hg). A dieta mediterrânea também foi associada com redução da hemoglobina glicada (- 0,8 mmol/mol; -1,2, -0,4 mmol /mol). Não houve diferenças entre os grupos em relação a composição corporal.

A pesquisa observou que houve perda de peso em todos os protocolos dietéticos, com uma maior mediana no jejum intermitente. No entanto, a diferença entre os grupos não foi significativa. No grupo que seguiu a dieta mediterrânea, além da perda de peso, houve melhora de parâmetros glicêmicos e da pressão arterial. 

Jospe MR, Roy M, Brown RC, et al. Intermittent fasting, Paleolithic, or Mediterranean diets in the real world: exploratory secondary analyses of a weight-loss trial that included choice of diet and exercise. Am J Clin Nutr. 2020;111(3):503-514.

Por: Priscila Garla

Suplementação nutricional precoce em pacientes não críticos hospitalizados por COVID-19

A partir de dezembro de 2019, a nova doença de coronavírus de 2019 (COVID-19) causou uma epidemia de pneumonia, que começou em Wuhan, na China, e está se espalhando rapidamente por todo o mundo, incluindo o Brasil. Considerando as consequências deletérias da desnutrição, que certamente pode afetar pacientes com COVID-19, um estudo italiano desenvolveu um protocolo clínico para suplementação nutricional oral de pacientes não críticos internados por doença COVID-19.

Nos hospitais italianos, foi observado que a maioria dos pacientes se apresentam com inflamação e anorexia graves já na admissão hospitalar, o que leva a uma redução drástica da ingestão de alimentos. Uma porcentagem importante desenvolve insuficiência respiratória que requer ventilação não invasiva ou mecânica de vias aéreas.

No protocolo desenvolvido para o COVID-19, dietas com alta densidade calórica, em uma variedade de consistências diferentes e com alimentos altamente digeríveis, foram disponibilizadas para todos os pacientes. A administração de suplemento oral hipercalórico e hiperproteico (proteínas de soro de leite), bem como infusão intravenosa de soluções multivitamínicas e multiminerais de oligoelementos são avaliadas no momento da admissão hospitalar. Se for detectado risco nutricional por triagem, é ofertado de 2 a 3 frascos de suplementos orais. Caso o paciente não aceitar até 2 frascos de suplemento oral por dia, por 2 dias consecutivos e/ou as condições respiratórias piorarem, a nutrição parenteral suplementar ou total é prescrita. Na presença de déficit de 25 hidroxivitamina D, o colecalciferol é prontamente fornecido.

Os profissionais italianos concluem que o objetivo do protocolo foi implementar uma conduta rápida e padronizada para os cuidados nutricionais em pacientes com COVID-19, com o intuito de otimizar os resultados clínicos na prevenção das consequências da desnutrição nessa população de pacientes.

Referência: Caccialanza R, Laviano A, Lobascio F et. Al. Early Nutritional Supplementation in Non-Critically Ill Patients Hospitalized for the 2019 Novel Coronavirus Disease (COVID-19): Rationale and Feasibility of a Shared Pragmatic Protocol. Nutrition . 2020 Jun; 74:110835.

Por: Maria Carolina Gonçalves Dias