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Proteína na UTI: a massa livre de gordura deveria guiar a dose?
Proteína na UTI: a massa livre de gordura deveria guiar a dose?

A oferta adequada de proteína é fundamental na UTI, mas definir qual é a dose ideal continua sendo um grande desafio.
Estudos recentes levantaram preocupações de que a alta administração de proteínas possa afetar negativamente os desfechos, especialmente em pacientes com disfunção renal preexistente. Um potencial efeito adverso da sobrecarga proteica é o aumento da concentração de ureia no sangue (BUN).
Hoje, a prática padrão é calcular a necessidade proteica com base no peso corporal (g/kg/dia). Mas e se esse parâmetro não for o mais preciso?
Um recente estudo propôs uma visão diferente: talvez seja a massa livre de gordura, e não o peso corporal, que deveria guiar essa decisão. Confira os detalhes da investigação a seguir.
Como o estudo foi conduzido?
O principal objetivo da investigação foi examinar a relação entre o volume muscular, a administração de proteínas e a trajetória da ureia no sangue (BUN) ao longo de 10 dias. Ao total, foram 82 participantes.
A pesquisa tratou-se de uma análise post-hoc do estudo IGREEN (Intensive Goal-directed REhabilitation with Electrical muscle stimulation and Nutrition), um estudo prospectivo de controle histórico realizado em uma única UTI no Japão.
No estudo original, pacientes admitidos na UTI estavam em dois grupos:
- Um grupo com meta proteica de 0,9 g/kg/dia
- Um grupo com meta de 1,8 g/kg/dia
O diferencial da pesquisa foi a avaliação do volume muscular femoral (VMF) por tomografia computadorizada realizada logo na admissão. Os pacientes foram divididos em quatro grupos conforme o quartil de VMF.
Menor volume muscular, maior elevação da ureia
Os resultados trouxeram achados relevantes para a prática clínica. Primeiramente, os pacientes com menor volume muscular eram mais velhos, majoritariamente mulheres, com maior índice de comorbidades, maior prevalência de sepse, e taxa de mortalidade maior.
Ao analisar a correlação entre oferta proteica e concentração de ureia no sangue (BUN), os resultados foram claros:
- A razão entre proteína total ofertada e volume muscular femoral apresentou correlação positiva significativa com o BUN no 10º dia
- Já a razão entre proteína ofertada e peso corporal não mostrou correlação estatisticamente significativa
Em outras palavras: quanto maior a oferta proteica em relação ao volume muscular, maior a elevação da ureia, e essa associação foi maior do que quando o peso corporal foi usado como referência.
Em pacientes com função renal preservada (TFG estimada ≥ 50 ml/min), essa correlação foi ainda mais forte.
No modelo de efeitos mistos lineares (ajustado para idade, sexo, função renal e gravidade da doença), a oferta proteica por volume muscular também foi associada ao aumento do BUN. Além disso, idade e creatinina basal se mostraram preditores independentes significativos.
Por que a massa muscular importa nesse contexto?
A lógica fisiológica por trás do estudo é bem construída. Quando há oferta proteica, o organismo produz ureia como subproduto do metabolismo aminoacídico, e essa ureia precisa ser “absorvida” tanto pelos tecidos (especialmente o muscular) quanto excretada pelos rins.
Em pacientes com menor volume muscular, essa capacidade de “reservatório” para o nitrogênio ureico está reduzida. Ao mesmo tempo, em estados de deficiência proteica, existe um mecanismo homeostático de reciclagem do nitrogênio ureico de volta ao pool de aminoácidos – o que explica por que pacientes com grande massa muscular, mesmo em estado catabólico, não elevam tanto o BUN quando a oferta proteica é baixa.
Basicamente, pacientes com menor massa muscular têm menor tolerância à carga proteica, e o BUN pode subir com mais facilidade neste grupo.
O aumento do BUN por sobrecarga proteica foi identificado como fator mediador independente de mortalidade, podendo aumentar o risco de necessidade de diálise. Logo, monitorar e prevenir sua elevação excessiva é clinicamente relevante.
Limitações da pesquisa
As limitações do estudo merecem atenção: trata-se de uma análise post-hoc de um estudo unicêntrico, com amostra pequena (82 pacientes) e desenho de controle histórico, o que limita a validade externa dos achados.
Além disso, o BUN é um marcador indireto e inespecífico do metabolismo proteico, podendo ser influenciado por hidratação, catabolismo, uso de corticosteroides e função hepática, aspectos não completamente controlados neste estudo.
O volume muscular femoral, embora avaliado de forma volumétrica e robusta por TC, não representa a massa muscular total nem a massa livre de gordura (MLG) inteira.
Os autores apontam que estudos futuros com análise de bioimpedância, permitindo estimativa de massa muscular total, serão necessários para avançar nessa área.
O que podemos concluir?
O estudo sugere que calcular a meta proteica em g/kg de massa livre de gordura (MLG), em vez de g/kg de peso corporal, pode ser uma abordagem mais precisa para pacientes críticos, especialmente naqueles com menor massa muscular.
Hoje, a fórmula baseada em MLG é considerada teoricamente superior, mas a evidência que a sustenta em pacientes críticos ainda é escassa. Este estudo contribui com dados concretos nessa direção, demonstrando que a razão proteína/volume muscular tem associação mais forte com a elevação do BUN do que a razão proteína/peso corporal.
Por ora, o recado que fica é: ao prescrever proteína na UTI, conhecer a composição corporal do paciente pode fazer diferença real nos desfechos.
Para ler o artigo científico completo, clique aqui.
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Referência:
Nakamura K, Nakano H, Kanda N. Optimizing protein in critical illness: Is g/fat-free mass the key? Clinical Nutrition. 2025;55:189–195.
Redação Ganep Educação



