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Doença renal crônica: os impactos da obesidade com e sem desnutrição
Doença renal crônica: os impactos da obesidade com e sem desnutrição

Mundialmente, 850 milhões de pessoas possuem doença renal crônica (DRC). Dentre elas, mais de 2,5 milhões têm doença renal em estágio terminal (DRET). Dentre os diversos fatores de risco para complicações da DRET, a desnutrição é um dos mais críticos, sendo um preditor significativo de mortalidade.
A desnutrição não afeta apenas indivíduos de baixo peso. Segundo a OMS, ela também é encontrada naqueles com sobrepeso e obesidade, por conta da baixa ingestão de micronutrientes e da má qualidade dos alimentos. Embora muitos tratem a desnutrição como sinônimo de magreza, esse nem sempre é o caso.
Por outro lado, em indivíduos com DRET, o paradoxo da obesidade parece estar presente: evidências sugerem que o aumento da gordura corporal total pode fornecer efeitos protetores na sobrevida desses pacientes.
Uma pesquisa recente buscou investigar se a desnutrição influencia o paradoxo da obesidade, além de explorar a relação entre obesidade com e sem desnutrição e desfechos hospitalares, em pacientes internados com DRC em estágio terminal.
Quais foram os pacientes investigados?
Os pesquisadores utilizaram dados do National Inpatient Sample (NIS), um banco de dados dos Estados Unidos com informações de utilização, acesso, custos, qualidade e desfechos de internações hospitalares.
No total, foram identificados 674.367 pacientes com DRC em estágio terminal e em diálise de manutenção. Para determinar a elegibilidade dos pacientes e categorizá-los, utilizou-se a 10ª revisão do código da Classificação Internacional de Doenças (CID-10-CM).
No geral, 125.978 pacientes (18,7%) tinham diagnóstico de obesidade. Entre os pacientes com obesidade, 119.155 (94,6%) não apresentavam desnutrição, enquanto 6.823 (5,4%) apresentavam.
Os pacientes com ambas as condições (obesidade e desnutrição) apresentavam maior chance de serem mais velhos, do sexo feminino, brancos, estarem em diálise peritoneal e terem histórico de consumo de álcool.
Além disso, apresentaram maior prevalência de doenças crônicas, incluindo doença vascular periférica, doença cerebrovascular, cirrose, demência/comprometimento cognitivo e câncer.
Os desfechos investigados incluíram mortalidade hospitalar, eventos clínicos adversos, tratamentos hospitalares e utilização de recursos, como custos de hospitalização e tempo de internação.
A obesidade sem desnutrição protegeu contra a mortalidade
Ao todo, a mortalidade hospitalar foi de 4,6%. A mortalidade foi maior no grupo com obesidade e desnutrição (9,8%) e no grupo sem obesidade (4,7%), e menor no grupo com obesidade sem desnutrição (3,6%).
Em análises ajustadas, a obesidade sem desnutrição foi associada a um risco reduzido de mortalidade em comparação com pacientes não obesos.
E para os demais desfechos?
Embora a obesidade sem desnutrição tenha sido protetora contra a mortalidade em pacientes com DRC em estágio terminal, a obesidade esteve associada a maiores complicações relacionadas a infecções e maior utilização de recursos, especialmente na presença de desnutrição.
Entenda os detalhes a seguir.
Desfechos clínicos adversos
A obesidade com desnutrição foi associada a maiores riscos de sepse e infecção da corrente sanguínea relacionada a cateter, mas a um menor risco de sobrecarga de volume.
Já a obesidade sem desnutrição foi associada a riscos elevados para todos os desfechos clínicos adversos, incluindo sepse, infecção da corrente sanguínea relacionada a cateter e sobrecarga de volume.
Tratamentos hospitalares
A obesidade com desnutrição foi associada a maiores riscos de administração de vasopressores, nutrição parenteral total (NPT), ventilação mecânica e transfusões de sangue.
Por outro lado, a obesidade sem desnutrição foi relacionada a menores riscos de nutrição parenteral total e transfusões de sangue, mas a maiores riscos de uso de vasopressores e ventilação mecânica em comparação com pacientes não obesos.
Utilização de recursos
Pacientes com obesidade e desnutrição apresentaram um tempo de internação hospitalar significativamente maior em 7,14 dias e um custo de hospitalização US$ 99.514 maior em comparação com pacientes sem obesidade.
Da mesma forma, pacientes com obesidade sem desnutrição, embora em menor grau, apresentaram um tempo de internação hospitalar 0,14 dias maior e custos de hospitalização US$ 2.811 maiores do que pacientes sem obesidade.
O que explica estes resultados?
Os pesquisadores apontam que a coexistência de obesidade e desnutrição é um fenômeno complexo e muito subdiagnosticado, o que ajuda a entender por que os desfechos são piores nesse grupo.
O estudo levanta quatro pontos para explicar esse cenário:
- A “máscara” da gordura e a sarcopenia: Em pacientes com peso baixo, a desnutrição é visível. Porém, em pacientes obesos, o excesso de tecido adiposo “mascara” a perda de massa muscular, e o uso isolado do IMC é insuficiente para identificá-la. Essa condição, conhecida como obesidade sarcopênica, é um forte preditor de mortalidade, pois o paciente perde a reserva proteica necessária para enfrentar o estresse da doença e da diálise, anulando o efeito protetor que a gordura poderia oferecer (o paradoxo da obesidade).
- O papel da inflamação: A desnutrição na DRC muitas vezes reflete a síndrome MIA (desnutrição-inflamação-aterosclerose). A inflamação persistente provoca perda muscular acelerada, redução da albumina, anorexia e resistência à eritropoetina. Diferente da desnutrição causada apenas pela falta de comida, esta é uma desnutrição impulsionada pela doença, o que explica a maior gravidade clínica e a necessidade de suporte intensivo (como ventilação mecânica e vasopressores).
- A qualidade da dieta e os ultraprocessados: Os autores levantam a hipótese de que a “fome oculta” desempenha um papel importante. O consumo elevado de alimentos ultraprocessados cria um cenário onde há alta ingestão calórica (levando à obesidade), mas baixa ingestão de fibras e micronutrientes essenciais (levando à desnutrição). Além disso, esses alimentos podem piorar a inflamação e os distúrbios metabólicos urêmicos, contribuindo para o duplo fardo da má nutrição.
- O ciclo vicioso das infecções: O estudo mostrou que a obesidade, com ou sem desnutrição, aumenta o risco de infecções. A obesidade grave dificulta o acesso vascular e o manejo de enfermagem, predispondo a complicações. Quando a infecção ocorre, ela piora o estado nutricional, reduzindo ainda mais a ingestão de nutrientes e promovendo a quebra de tecidos. Esse ciclo vicioso explica por que os custos hospitalares e o tempo de internação disparam quando as duas condições (obesidade e desnutrição) estão presentes.
Conclusões
Os achados demonstram que a obesidade sem desnutrição está associada a menor mortalidade hospitalar em pacientes com DRC em estágio terminal.
Contudo, quando há coexistência de desnutrição, essa vantagem de sobrevida se inverte, ressaltando a importância da detecção de desnutrição em pacientes obesos com DRC em estágio terminal.
Para ler o artigo científico completo, clique aqui.
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Referência:
Wathanavasin, W., Kaewput, W., Thongprayoon, C., Tangpanithandee, S., Suppadungsuk, S., & Cheungpasitporn, W. (2026). Association of Obesity and Malnutrition with In-Hospital Mortality and Clinical Outcomes in Patients Receiving Maintenance Dialysis: A National Database Study. Nutrients, 18(1), 157. https://doi.org/10.3390/nu18010157.
Redação Ganep Educação



