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Microbiota intestinal e doenças cardiovasculares: qual é a relação?
Microbiota intestinal e doenças cardiovasculares: qual é a relação?

Embora distintos, os sistemas gastrointestinal e cardiovascular apresentam conexões intrínsecas cada vez mais elucidadas pela ciência. Nesse sentido, uma nova revisão publicada na revista Nutrition & Metabolism buscou aprofundar a relação entre microbiota intestinal e doenças cardiovasculares.
Enquanto as doenças cardiovasculares (DCV) continuam sendo uma das principais causas de morbidade e mortalidade global, a composição da microbiota intestinal já foi identificada como um contribuinte crítico.
Por exemplo, a ruptura do equilíbrio microbiano, conhecida como “disbiose”, pode provocar a desregulação imunológica e alterações na composição dos ácidos biliares, desempenhando um papel no surgimento e progressão da aterosclerose.
A seguir, confira os principais tópicos abordados pelos cientistas quanto a esta relação.
Microbiota intestinal e doenças cardiovasculares: principais mecanismos
Ciclo dos ácidos biliares (AB)
O estudo da microbiota intestinal revela que o nosso trato digestivo funciona como um centro regulador do metabolismo do colesterol e da saúde cardiovascular. Um dos mecanismos fundamentais nesse processo é o ciclo dos ácidos biliares.
O corpo elimina o excesso de colesterol transformando-o em ácidos biliares no fígado, que são então secretados no intestino para ajudar na digestão de gorduras.
Embora a maioria dos ácidos biliares seja reabsorvida no íleo e retorne ao fígado, uma pequena proporção escapa da reabsorção e chega ao cólon. No intestino distal, essa reabsorção contribui para a formação de um reservatório concentrado dessas moléculas. Ali, os microrganismos intestinais convertem ácidos biliares primários em ácidos biliares secundários, como o ácido desoxicólico (DCA). Para manter o tamanho do pool de ácidos biliares em condições de equilíbrio, a síntese hepática “de novo” compensa essa perda.
Foi demonstrado que os ácidos biliares são moléculas sinalizadoras para uma série de funções mediadas por receptores específicos: TGR5 e FXR. Esses receptores coordenam vias de sinalização que impactam as respostas metabólicas, inflamatórias e imunológicas.
A microbiota intestinal influencia a composição dos ácidos biliares por meio de várias modificações enzimáticas, incluindo desconjugação, desidroxilação e epimerização, o que aumenta a variedade de ácidos biliares e impacta a fisiologia do hospedeiro.
Produção de ácidos graxos de cadeia curta (AGCCs)
Além da regulação via ácidos biliares, a microbiota produz compostos benéficos conhecidos como ácidos graxos de cadeia curta (AGCC), como o acetato, o propionato e o butirato. Esses compostos são o resultado da fermentação de carboidratos não digeríveis, incluindo fibras alimentares e polissacarídeos não amiláceos, pelas bactérias intestinais benéficas.
Enquanto o butirato é o principal subproduto metabólico do filo Firmicutes, o filo Bacteroidetes gera principalmente acetato e propionato.
Por meio de interações com receptores e modulação do sistema renina-angiotensina, os AGCC podem regular a pressão arterial. Além disso, melhoram o metabolismo lipídico, atenuam a inflamação sistêmica e aprimoram a função endotelial, reduzindo potencialmente o risco de aterosclerose e hipertensão.
Os ácidos graxos de cadeia curta (AGCC) também fortalecem a integridade da barreira intestinal, prevenindo a translocação de endotoxinas pró-inflamatórias que podem exacerbar doenças cardiovasculares (DCV).
Por fim, os AGCC demonstraram efeitos redutores do colesterol em estudos experimentais e clínicos, podendo influenciar tanto a síntese quanto a depuração do colesterol.
Geração de TMAO
O TMAO (N-óxido de trimetilamina) é um metabólito derivado da microbiota intestinal com propriedades pró-aterogênicas comprovadas. Ele é sintetizado a partir do metabolismo microbiano de nutrientes dietéticos ricos em colina e carnitina, abundantes em carne vermelha, ovos, peixes e laticínios.
Uma vez que esse composto entra na circulação, ele prejudica gravemente a homeostase do colesterol ao bloquear as vias de eliminação e estimular os macrófagos a absorverem gordura de forma descontrolada. Esse processo leva à formação de “células espumosas“, que são a base das placas de gordura que entopem as artérias.
Alguns estudos indicaram que o TMAO pode ser um marcador para prever o risco de doenças cardiovasculares, como síndrome coronariana aguda e AVC, por meio de uma via pró-aterogênica. Estudos associam o nível plasmático de TMAO com o risco e a gravidade da doença arterial coronariana (DAC) e um risco aumentado de eventos cardíacos adversos.
Além disso, o TMAO promove um estado pró-inflamatório. Através da produção de citocinas inflamatórias, o aumento dos níveis plasmáticos de TMAO eleva o risco de inflamação e problemas cardiometabólicos.
Em suma, o equilíbrio entre as espécies bacterianas no intestino dita se o corpo terá facilidade em eliminar gorduras ou se acumulará placas inflamatórias, reforçando que uma dieta rica em fibras e pobre em precursores de TMAO é essencial para a longevidade cardiovascular.
A figura abaixo esquematiza efeitos diferenciais dos metabólitos microbianos intestinais na saúde cardiovascular.
Terapias direcionadas à microbiota intestinal
Nos últimos anos, muitos estudos têm demonstrado que a composição e a diversidade da microbiota intestinal podem ser alteradas de forma benéfica pela dieta, prebióticos, probióticos e transplante fecal, conferindo benefícios ao hospedeiro.
Abordagens dietéticas
Dietas ricas em vegetais favorecem espécies que fermentam fibras e aumentam a síntese de compostos benéficos, como os ácidos graxos de cadeia curta.
Em oposição, a “dieta ocidental”, rica em gorduras saturadas e proteínas animais, está associada ao enterotipo Bacteroides, inflamação sistêmica e alterações metabólicas negativas.
A dieta mediterrânea (DM) surge como o modelo mais eficaz, caracterizada pelo alto consumo de frutas, legumes, grãos integrais e azeite de oliva. Estudos mostram que a adesão a esse padrão alimentar reduz significativamente marcadores inflamatórios como TNF-α e IL-6, além de melhorar o controle glicêmico e aumentar a presença de bactérias protetoras como Akkermansia muciniphila.
A produção de AGCCs é apontada como o principal mecanismo que liga a DM à proteção cardiometabólica, ajudando a retardar a aterosclerose e a rigidez arterial.
Probióticos
Cepas específicas de Lactobacillus e Bifidobacterium demonstraram capacidade de reduzir os níveis de colesterol e prevenir a formação de placas nas artérias através de propriedades anti-inflamatórias.
Além disso, os probióticos podem influenciar a redução da pressão arterial por meio da produção de peptídeos que inibem a enzima conversora de angiotensina.
Entretanto, os resultados são cepa-específicos: o benefício observado em uma linhagem não garante o mesmo efeito em outra. Por isso, a escolha cuidadosa da cepa, da dosagem e do tempo de administração é crucial para o sucesso da intervenção clínica.
Prebióticos
Prebióticos são substâncias que passam por fermentação seletiva no trato gastrointestinal, estimulando o crescimento de bactérias benéficas como as bifidobactérias.
O mecanismo de ação envolve o fortalecimento das junções do epitélio intestinal, o que reduz a permeabilidade do intestino, e o estímulo à produção de AGCCs.
Ensaios clínicos com pacientes diabéticos e com doenças renais mostraram que os prebióticos podem reduzir o colesterol total, o LDL e os triglicerídeos, enquanto elevam o HDL.
No entanto, a resposta a essas fibras é altamente dependente da microbiota já existente no indivíduo; se a pessoa não possuir as bactérias necessárias para processar esses prebióticos, o efeito terapêutico pode ser limitado, sugerindo a necessidade de estratégias mais personalizadas.
Transplante de microbiota fecal (TMF)
O transplante de microbiota fecal consiste na transferência de micro-organismos de um doador saudável para um receptor com o objetivo de restaurar o equilíbrio intestinal.
Essa técnica tem mostrado potencial em reduzir a inflamação cardíaca e melhorar indicadores de síndrome metabólica.
Em modelos experimentais, o TMF foi capaz de modular a pressão arterial e melhorar disfunções cardíacas ligadas à obesidade.
Uma evolução dessa técnica é o Transplante de Microbiota Lavada (WMT), que utiliza um sistema automatizado para purificar o material, oferecendo maior segurança. O WMT demonstrou melhorias no IMC e no perfil lipídico de pacientes de alto risco, reduzindo as chances de doenças cardiovasculares ateroscleróticas.
Apesar do otimismo, o TMF ainda é visto como uma terapia experimental que requer estudos de longo prazo para garantir sua segurança e eficácia constante.
O que podemos concluir?
Como visto, as evidências atuais reforçam que a microbiota intestinal atua como um modulador central da saúde cardiovascular, influenciando o metabolismo do colesterol, a inflamação sistêmica, a pressão arterial e a progressão da aterosclerose por meio de metabólitos-chave como ácidos biliares, AGCCs e TMAO.
Intervenções dietéticas e terapias direcionadas à microbiota despontam como estratégias promissoras. Essas intervenções podem não apenas ajudar a reduzir os níveis de colesterol, mas também reduzir a inflamação e melhorar os perfis metabólicos gerais, reduzindo assim o risco de doenças cardiovasculares.
Para ler o artigo científico completo, clique aqui.
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Referência:
Abavisani M, Sajjadi SM, Ebadpour N, Karav S, Sahebkar A. Gut microbiota-cholesterol crosstalk in cardiovascular diseases: mechanisms, metabolites, and therapeutic modulation. Nutr Metab (Lond). 2025 Dec 4;23(1):4. doi: 10.1186/s12986-025-01051-7. PMID: 41340133.
Redação Ganep Educação




