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Eixo intestino-coração: como padrões alimentares modulam a microbiota e aprimoram a saúde cardiovascular
Eixo intestino-coração: como padrões alimentares modulam a microbiota e aprimoram a saúde cardiovascular

As doenças cardiovasculares (DCVs) permanecem como a principal causa de mortalidade em todo o mundo, impondo um custo significativo à qualidade de vida e aos sistemas de saúde.
Em meio a uma etiologia multifacetada, que inclui fatores de risco ambientais, metabólicos e comportamentais, os padrões alimentares têm ganhado reconhecimento crucial na gestão das DCVs.
Mais recentemente, a complexidade dessa relação foi ampliada com o reconhecimento do eixo intestino-coração. Particularmente, desequilíbrios na composição da microbiota intestinal têm sido associados a um risco elevado de eventos cardiovasculares. Nesse contexto, a dieta emerge como um dos principais moduladores da composição e da função da microbiota intestinal.
Uma recente revisão sistemática se aprofundou nesta sinergia, explorando os efeitos de diferentes padrões alimentares tanto na abundância relativa da microbiota intestinal quanto nos fatores de risco cardiometabólicos mediados pela microbiota em indivíduos com DCV estabelecidas ou em risco.
Os achados foram surpreendentes: confira detalhes a seguir.
3 dietas foram postas à prova
A revisão sistemática contou com os seguintes critérios de inclusão:
- Adultos com 18 anos ou mais, com DCV estabelecida ou apresentando pelo menos dois fatores de risco cardiovascular (como hipertensão, dislipidemia, glicemia alterada ou sobrepeso/obesidade).
- Implementação de intervenções baseadas em padrões dietéticos.
- Inclusão de resultados de análise do microbioma, como sequenciamento de rRNA 16S ou metagenômica shotgun.
Ao final do processo de triagem, 19 estudos foram considerados elegíveis para a revisão, sendo 17 ensaios clínicos randomizados (ECRs) e dois ensaios autocontrolados.
Para a meta-análise, os padrões dietéticos foram categorizados em três grupos principais:
- Dietas ricas em vegetais (incluindo dietas baseadas em vegetais, vegetarianas, ricas em grãos integrais, e dieta mediterrânea).
- Dietas restritivas (incluindo dietas de baixa gordura e dietas de jejum).
- Dietas ricas em polifenóis.
A meta-análise foi realizada para analisar a diferença média nas alterações pré e pós-intervenção em parâmetros cardiometabólicos como colesterol total (CT), LDL-C, triglicerídeos (TG), glicose, peso e IMC.
Modulações distintas no eixo intestino-coração
Os resultados demonstraram que diferentes padrões dietéticos exercem impactos distintos na composição da microbiota intestinal e nos fatores de risco cardiometabólicos.
Dietas ricas em vegetais promovem bactérias benéficas
Uma dieta rica em vegetais demonstrou aumentar a abundância relativa de Faecalibacterium prausnitzii e Roseburia, bactérias produtoras de butirato – um ácido graxo essencial conhecido por desempenhar papéis protetores na saúde cardiovascular de diversas maneiras.
Por exemplo, estudos sugerem que o butirato pode inibir a aterosclerose ao aumentar a estabilidade da placa e reduzir a inflamação sistêmica e a migração de macrófagos, além de facilitar o transporte reverso de colesterol.
Além disso, a análise de subgrupos revelou que esse aumento ocorreu principalmente em indivíduos que seguem dietas baseadas em alimentos integrais e mediterrâneas. Isso pode ocorrer porque esses dois padrões alimentares são ricas fontes de amido resistente (AR), um tipo de fibra resistente à digestão no intestino delgado, associada à proliferação de Faecalibacterium.
Dietas restritivas melhoram fatores de risco cardiometabólicos
Ambos os grupos de dietas (ricas em vegetais e restritivas) apresentaram reduções significativas em fatores de risco cardiometabólicos.
As dietas ricas em vegetais resultaram em:
- Diminuição no colesterol total (CT), com uma diferença média de -6,77;
- Diminuição no LDL-C (-4,37);
- Diminuição no peso (-0,45).
Já as dietas restritivas promoveram reduções (geralmente maiores) em diversos parâmetros:
- Diminuição dos triglicerídeos (TG), de -22,12;
- Diminuição no colesterol total, de -8,74;
- Diminuição na glicemia, de -7,13;
- Reduções mais expressivas no peso (-4,02), IMC (-1,59) e circunferência da cintura (-4,25).
Em comparação direta, as dietas restritivas demonstraram ser mais eficazes na redução do IMC, peso, circunferência da cintura e glicose sanguínea do que as dietas ricas em vegetais.
Essa maior eficácia é atribuída à inerente redução na ingestão calórica promovida por essas dietas (como a redução de gorduras de alta densidade energética ou a limitação da frequência alimentar no jejum), um fator-chave para a perda de peso e benefícios metabólicos.
Por outro lado, a menor eficácia das dietas ricas em vegetais na redução de fatores cardiometabólicos pode ser decorrente da ausência de restrição de energia nos estudos incluídos.
Os pesquisadores ressaltaram que, ao utilizar dietas restritivas para a prevenção de doenças cardiovasculares, é importante considerar suas potenciais limitações e efeitos a longo prazo, como dificuldade de adesão e diminuição do HDL-C.
Por essas razões, as dietas restritivas não podem ser livremente recomendadas como a estratégia ideal de prevenção de DCV sem considerar essas desvantagens.
Conclusão
Em suma, tanto os padrões alimentares ricos em vegetais quanto as dietas restritivas (como as dietas de baixa gordura e jejum) foram estratégias promissoras para promover a perda de peso e aprimorar a saúde cardiometabólica em pacientes de risco.
As dietas ricas em vegetais parecem atuar através de um mecanismo potente e clinicamente relevante: a promoção de bactérias produtoras de butirato, que desempenham papéis protetores em diversas formas de DCV.
As dietas restritivas, por sua vez, demonstram maior eficácia na obtenção de resultados agudos de perda de peso e controle metabólico (glicose e TG).
Na prática clínica, a combinação de padrões alimentares ricos em vegetais com a devida restrição calórica pode potencializar os resultados de perda de peso e melhoria dos parâmetros metabólicos.
Pesquisas futuras devem investigar os efeitos de longo prazo dessas combinações em desfechos clínicos, como eventos cardiovasculares ou mortalidade.
Para ler o artigo científico completo, clique aqui.
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Referência:
Yu J, Wu Y, Zhu Z, Lu H. The impact of dietary patterns on gut microbiota for the primary and secondary prevention of cardiovascular disease: a systematic review. Nutr J. 2025 Jan 28;24(1):17. doi: 10.1186/s12937-024-01060-x. PMID: 39875854; PMCID: PMC11773984.
Redação Ganep Educação



