Como prevenir a perda de massa magra sob uso de medicamentos análogos de GLP-1?

Como prevenir a perda de massa magra sob uso de medicamentos análogos de GLP-1?

análogos de GLP-1
Fonte: Canva

Atualmente, estamos em uma nova era do tratamento da obesidade, que com a aprovação de medicamentos análogos do peptídeo-1 semelhante ao glucagon (GLP-1) – como semaglutida e liraglutida.

No começo, tais fármacos eram aprovados exclusivamente para o controle da glicose em pessoas com diabetes tipo 2. Entretanto, esses agentes demonstraram efeitos substanciais no emagrecimento, frequentemente excedendo os 10% de perda de peso alcançados com intervenções de estilo de vida.

Contudo, a perda de peso significativa pode vir atrelada à efeitos indesejáveis, como a diminuição da massa magra (incluindo a massa muscular e óssea). De fato, estima-se que a fração de massa magra possa representar entre 20% e 50% do total de peso perdido.

Pensando nisso, uma revisão narrativa buscou reunir evidências quanto à otimização da perda de peso e preservação da massa magra na era dos medicamentos antiobesidade. A seguir, confira os principais destaques do artigo.

Como os medicamentos análogos de GLP-1 funcionam?

Acredita-se que estes fármacos induzam a redução de peso por meio de ações nos sistemas neuroendócrinos central e periférico envolvidos na regulação da ingestão alimentar.

Centralmente, eles ativam os receptores GLP-1 no núcleo do trato solitário e na área postrema, aumentando a saciedade e atenuando a recompensa relacionada à comida por meio de vias serotoninérgicas e dopaminérgicas

Eles também estimulam a sinalização anorexígena e suprimem a sinalização orexígena no hipotálamo e modulam o sistema mesolímbico, reduzindo o impulso hedônico de comer.

Perifericamente, os análogos de GLP-1 influenciam a secreção de hormônios gastrointestinais inibindo a grelina (um hormônio orexígeno) e aumentando o peptídeo YY e a colecistocinina, que aumentam a saciedade, facilitam a digestão e retardam o esvaziamento gástrico.

Perda de massa muscular e óssea sob uso destes medicamentos

Embora a perda de tecido adiposo seja desejável, a preservação da massa livre de gordura, particularmente músculos e ossos, é fundamental para evitar a obesidade sarcopênica, uma condição que afeta 43% dos indivíduos com obesidade.

Nesse sentido, uma diminuição na massa livre de gordura, incluindo massa muscular esquelética, massa óssea e conteúdo mineral ósseo, já foi observada com o tratamento com análogos de GLP-1.

Os mecanismos subjacentes à perda de massa magra permanecem em grande parte inexplicados, mas provavelmente são multifatoriais, envolvendo restrição calórica e adaptações homeostáticas que acompanham a perda de peso. Além disso, os efeitos adversos gastrointestinais também podem contribuir.

O que dizem os estudos?

Em uma pesquisa, após 20 semanas de tratamento com liraglutida (doses de 1.2 a 3 mg), houve redução de massa gorda de 13 a 16%, acompanhada de perdas de massa magra de 1 a 3%.

Com relação à semaglutida, dados do estudo STEP-1 revelaram que 40% da perda de peso total (6,92 kg de 17,32 kg) foi atribuível à redução da massa magra, correspondendo a 13,2% da massa magra total basal. Segundo os autores, pelo menos metade dessa perda pode ser proveniente da massa muscular esquelética.

Já em um estudo retrospectivo estadunidense, participantes que receberam 2,4 mg de semaglutida, após 3 meses, houve uma redução média de 2,67 kg na massa gorda total, e 1,43 kg na massa magra, representando 31% da perda de peso total. Contudo, a relação massa magra/massa gorda melhorou.

Em relação à massa óssea, os efeitos dos análogos de GLP-1 foram investigados em um número limitado de estudos. De qualquer forma, uma pesquisa demonstrou densidade mineral óssea significativamente menor na coluna lombar, quadril total e tíbia em participantes tratados com semaglutida.

Prevenindo a perda de massa magra através da nutrição

Ao induzirem redução significativa da ingestão energética, os medicamentos análogos de GLP-1 podem expor os pacientes a uma ingestão inadequada de macro e micronutrientes, especialmente na ausência de acompanhamento nutricional, favorecendo a perda de peso à custa de massa magra.

Os efeitos adversos gastrointestinais, como náuseas, vômitos, constipação e diarreia, também comprometem a ingestão e a absorção de nutrientes e líquidos, exacerbando o risco de desnutrição. 

Dessa forma, torna-se fundamental considerar a qualidade da dieta e estratégias nutricionais para o manejo dos efeitos colaterais. As principais recomendações nutricionais para pacientes em uso de medicamento análogo de GLP-1 são resumidas abaixo.

recomendações nutricionais para pacientes em uso de medicamento análogo de GLP-1Leia também: Manejo de sintomas gastrointestinais em pacientes em uso dos análogos do GLP-1

Na tabela a seguir, estão as recomendações práticas para apoiar a perda de peso e preservar a massa magra durante o uso de medicamentos à base de incretinas.

Nutriente Ingestão recomendada Observações
Carboidratos 40–55% da necessidade calórica diária e <130 g/dia

(açúcares simples ≤10 g/dia)

Preferir cereais integrais ricos em fibras e alimentos não processados
Lipídios 0,8–1,2 g/kg/dia

(<8% de gordura saturada)

Preferir gorduras de origem vegetal, tanto monoinsaturadas quanto poliinsaturadas. Evitar gorduras saturadas e alimentos ultraprocessados
Proteínas 1,2 a 1,5 g/kg/dia

(20–30% da necessidade calórica diária)

Avaliar alimentos ricos em proteínas ou suplementação proteica (até ~30 g/dia) para atender a essas necessidades
Aminoácidos essenciais 10–15 g/dia Auxiliam na manutenção da massa magra durante a redução calórica (especialmente L-leucina 2–5 g duas ou três vezes ao dia)
Fibra 25–35 g/dia Reduzir a ingestão de fibras apenas em caso de má absorção ou sintomas gastrointestinais graves
Vitaminas As necessidades ideais devem ser personalizadas de acordo com os níveis basais, histórico médico, comorbidades, padrões alimentares e níveis de atividade física Avaliar os níveis de vitaminas antes de iniciar a terapia, durante a perda de peso e anualmente durante a manutenção do peso. Multivitamínicos podem ajudar a atingir a necessidade ideal
Vitamina D 1000–3000 UI de acordo com os níveis basais A vitamina D deve ser avaliada regularmente para reduzir o risco de osteoporose e fraturas
Vitamina C 75–90 mg/dia A ingestão insuficiente é possível em dietas com baixo consumo de frutas e vegetais
Vitamina B6 1,3–1,7 mg/dia Coenzima para enzimas transaminase e descarboxilase, essencial para a síntese de proteínas e produção de neurotransmissores
Vitamina B12 Pelo menos 350–1000 mcg por dia, de acordo com os níveis basais A deficiência de B12 pode ser exacerbada por uma dieta vegana e por medicamentos como metformina, colchicina e inibidores da bomba de prótons
Folato 400–800 mcg/dia Níveis elevados de ácido fólico podem mascarar a deficiência de B12
Minerais As necessidades ideais devem ser personalizadas de acordo com os níveis basais, histórico médico, comorbidades, padrões alimentares e níveis de atividade física  Avaliar os níveis de minerais antes de iniciar a terapia, durante a perda de peso e anualmente durante a manutenção do peso. Multivitaminas e multiminerais podem ajudar a atingir a necessidade ideal
Cálcio 1000–1500 mg/dia Os níveis de cálcio devem ser avaliados regularmente para reduzir o risco de osteoporose e fraturas
Magnésio 250–600 mg/dia A escolha do tipo de sal de Mg2+ deve ser baseada em suas condições de biodisponibilidade, dosagem e possíveis efeitos colaterais, especialmente sintomas intestinais como disenteria osmótica
Zinco 8–22 mg/dia A deficiência de zinco pode ser exacerbada por dietas veganas
Cromo 200–1000 µg/dia de picolinato de cromo Estudos limitados sugerem uma leve redução na massa gorda e melhora na composição corporal em indivíduos com sobrepeso/resistência à insulina

Recomendações de atividade física

Mesmo sob uso de análogos de GLP-1, a atividade física permanece essencial no manejo da obesidade.

Em um ensaio clínico envolvendo 195 adultos com obesidade, após um ano, o grupo de pacientes que combinou liraglutida e exercício físico apresentou uma perda de peso média de 9,5 kg, superior à do grupo de exercício físico isolado (4,1 kg) e liraglutida isolada (6, 8 kg).

De fato, o exercício não só potencializa a perda de peso, como é a principal ferramenta para garantir que a massa muscular não seja perdida durante o processo.

Em outra pesquisa,  observou-se que uma caminhada de 1 hora em esteira a 65% da frequência cardíaca máxima pela manhã aumentou a sensibilidade das células beta ao GLP-1.

Sugere-se que, para pessoas sob tratamento à base de incretinas, deve-se combinar exercícios aeróbicos (começando com 10 min e aumentando até 150 min/semana) e exercícios de força muscular (2 ou 3 vezes por semana, por 30 min).

O treinamento de força é particularmente vital para manter a taxa metabólica basal e a funcionalidade física.

O que podemos concluir?

Em resumo, a adoção de estratégias integradas, que associam acompanhamento nutricional individualizado à prática regular de atividade física, mostra-se fundamental para mitigar a perda de massa magra durante o tratamento com análogos de GLP-1. 

A abordagem multidisciplinar surge como elemento-chave para maximizar os benefícios destes fármacos, promovendo uma perda de peso mais saudável, sustentável e funcional.

Para ler o artigo científico completo, clique aqui.

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Referência:

Barana, L., De Fano, M., Cavallo, M., Manco, M., Prete, D., Fanelli, C. G., Porcellati, F., & Pippi, R. (2026). Nutrition and Physical Activity in Optimizing Weight Loss and Lean Mass Preservation in the Incretin-Based Medications Era: A Narrative Review. Nutrients, 18(1), 131. https://doi.org/10.3390/nu18010131

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