Transplante de microbiota fecal em pacientes com Doenças Inflamatórias Intestinais

A etiologia das doenças inflamatórias intestinais (DII) é multifatorial, envolvendo a resposta imune desregulada a fatores ambientais em indivíduos geneticamente suscetíveis. Nos últimos anos, a microbiota intestinal é reconhecida por desempenhar um papel importante nas DII. O transplante de microbiota fecal (TMF) visa modificar a composição e função da microbiota intestinal dos receptores, transferindo os metabólitos fecais do doador para o trato gastrointestinal de um receptor. Essa terapêutica é um método novo e promissor para manipular a função da microbiota intestinal, mas esses estudos ainda estão em seus estágios iniciais.

Em um ensaio de coorte prospectivo intervencionista avaliou-se a resposta do TMF em pacientes com DII. Foram selecionados 14 pacientes com doença de Crohn (DC) e colite ulcerativa (UC), de classificação moderada a grave, com idade entre 19 e 64 anos. Foram excluídos pacientes com doenças graves, outras doenças intestinais com relatos de obstrução intestinal e que tenham recebido alguma terapia biológica nos últimos três meses antes do TMF. Os doadores eram familiares do paciente ou não, sem histórico de uso de antibióticos, laxantes ou pílulas dietéticas nos últimos três meses e sem doenças gastrointestinais recentes. Todos os pacientes foram tratados com um único TMF (via intestino médio) e os acompanhamentos foram realizados no tempo zero, 3 dias, 1 semana e 1 mês após o TMF. Em cada período de seguimento foram coletadas amostras fecais e dados clínicos. Todas as amostras fecais foram submetidas a sequenciamento metagenômico de espingarda, conhecido do termo em inglês shotgun.

Os resultados mostraram que o índice médio de Shannon de pacientes com DC foi significativamente menor que o dos controles saudáveis ​​(p=0,0035).  Esse índice mede a incerteza de um dado estatístico. Quanto menor o valor do índice de Shannon, menor o grau de incerteza.

Nos pacientes com UC, embora o índice de Shannon fosse inferior à média em controles saudáveis, a disbiose não foi significativa (p=0,57). Após três dias do TMF, 11 dos 15 pacientes estavam em remissão (3 de 4 com UC; e 8 de 11 com DC). A colonização bacteriana foi observada como sendo menor nos receptores de DC do que nos receptores de UC, em ambos os níveis de espécie e cepa. A maioria das espécies microbianas pós-TMF (> 80%) mostraram-se favoráveis para a composição adequada da flora bacteriana, no entanto esses achados precisam ser vistos com alguma limitação devido ao tamanho amostral pequeno, limitação geográfica e um curto período de tempo após TMF.

Os autores concluem que as alterações da microbiota podem ser refletidas no nível de espécie e no nível de deformação após a TMF; e que a possibilidade de combinar elementos da microbiota com fatores fenotípicos pode predizer a composição da microbiota intestinal de receptores pós-TMF. Esses achados destacam a contribuição de métodos avançados de investigação das espécies microbianas intestinais e favorece o estudo da ação de probióticos em doenças específicas incluindo DII.

Zou M, Jie Z, Cui B, et al. Fecal microbiota transplantation results in bacterial strain displacement in patients with inflammatory bowel diseases. FEBS Open Bio. 2020;10(1):41-55. 

Por: Jana Grenteski