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Uso de suplementos esportivos e doping em atletas

Doping esportivo é a utilização de substâncias não naturais para induzir aumento de desempenho e performance física. A Agência Mundial Antidoping (WADA), uma organização criada pelo Comitê Olímpico Internacional, considera o doping uma violação das regras esportivas. Os esportistas que são confirmados no exame do doping, sejam de forma intencional ou não, são suspensos das atividades esportivas por até 4 anos.

Atualmente, os praticantes de atividade física representam a população que mais consome suplementos esportivos, portanto, estão mais predispostos ao risco de consumir substâncias que podem causar doping.

O uso de suplementos entre atletas tem uma prevalência entre 40 a 70% e pode variar substancialmente conforme o gênero, idade, tipo de esporte, sazonalidade do treinamento e tipo de suplemento.

Alguns atletas profissionais podem apresentar doping não intencional, aquele que ocorre com o uso de suplementos esportivos que são contaminados com substâncias banidas pela WADA. A prevalência de contaminantes esteroides, presentes nos suplementos esportivos, pode estar presente entre 15 a 50% dos produtos.

Todavia, o uso de suplementos contaminados com substâncias banidas nem sempre ocorre de maneira acidental. Dentro desse contexto, um estudo Britânico recente investigou a relação entre o uso de suplementos esportivos, a consciência dos atletas sobre uso de substâncias ilícitas e doping.

A hipótese apresentada no estudo é semelhante à hipótese do uso de maconha ou do álcool como porta de acesso ao uso de drogas mais pesadas, como cocaína. É como se o uso de suplementos esportivos oferecesse uma possibilidade de também experimentar as substâncias banidas do esporte. Essa hipótese foi investigada dois estudos; o primeiro realizado com 598 atletas e o segundo com 475 esportistas.

Os resultados apontaram que atletas que usam suplementos esportivos tem maior crença na efetividade do uso de substâncias químicas; e podem estar mais propensos ao uso de substâncias ilícitas e apresentar uma atitude mais favorável ao doping.

Os autores da pesquisa concluíram que o uso de suplementos esportivos é eficaz na melhora da performance física, porém os atletas podem ficar mais propensos a se dopar, sendo, portanto, um alvo de estudo para programas de prevenção antidoping.

Referência: Philip Hurst, Maria Kavussanu, Ian Boardley & Christopher Ring. Sport supplement use predicts doping attitudes and likelihood via sport supplement beliefs, Journal of Sports Sciences, 2019.

Por: Lenycia Neri

Efeito de bebidas açucaradas no apetite e ingestão alimentar de adolescentes

O consumo de bebidas açucaradas (sucos naturais adoçados, refrigerantes e bebidas lácteas) constituem cerca de 20% das calorias totais ingeridas por crianças e adolescentes. Recentemente, estudo canadense propôs verificar se o consumo dessas bebidas poderia alterar mecanismos reguladores da ingestão alimentar, apetite e favorecer ganho de peso.

Para testar esta hipótese, foram selecionados 32 meninos entre 9 e 14 anos de idade, que realizaram 4 visitas matinais ao laboratório, após consumo do café da manhã padrão. No laboratório, era oferecido 350ml de uma bebida açucarada (aleatoriamente: refrigerante, suco industrializado, achocolatado) ou água. Após 60 minutos do consumo da bebida, os meninos eram conduzidos isoladamente a uma sala de painel sensorial com o consumo ad libitum de pizza e garrafa de água (500 ml). Nesse ambiente, uma escala de motivação para comer era aplicada a cada 15 minutos.

Os resultados do estudo mostraram que a ingestão alimentar foi reduzida após o consumo de achocolatado e refrigerante quando comparados com a água. O consumo de suco adoçado aumentou a ingestão alimentar quando comparado a bebida achocolatada. Adicionalmente, o consumo de sucos resultou no aumento de 10% das calorias cumulativas (bebida antes da refeição + refeição teste).

A aferição de escala de sede verificou que meninos que consumiram água tiveram menor sensação de sede quando comparado com aqueles que consumiram suco ou achocolatado, mas não quando comparado com o grupo do refrigerante. Os resultados não diferiram de acordo com estado nutricional (adolescentes sobrepeso e eutróficos tiveram resultados semelhantes).

O estudo cita a hipótese que o suco de frutas, devido sua relação glicose: frutose, não seria capaz de suprimir a ingestão alimentar devido ao fraco efeito da frutose na liberação de hormônios de saciedade.  A saciedade causada pelo refrigerante pode ser explicada pelo efeito de distensão abdominal; e do achocolatado pela presença de proteínas (causando liberação do hormônio colecistocinina).

Mais estudos devem ser realizados para verificar se estes efeitos a curto prazo serão traduzidos em modificações da composição corporal, através de um estudo longitudinal.

Referência: Poirier KL, Totosy de Zepetnek JO, Bennett LJ et al. Effect of Commercially Available Sugar-Sweetened Beverages on Subjective Appetite and Short-Term Food Intake in Boys. Nutrients. 2019, 26;11(2).

Por: Lenycia Neri

Eficácia de uma combinação nutracêutica no metabolismo lipídico de pacientes com Síndrome Metabólica

Os nutracêuticos representam uma nova fronteira terapêutica no tratamento da síndrome metabólica (SM) e de fatores de risco cardiovasculares relacionados.

Galletti e colaboradores realizaram um estudo prospectivo, multicêntrico, randomizado, duplo-cego e controlado com 158 pacientes, com idade entre 28 e 76 anos, com objetivo de avaliar os potenciais efeitos benéficos da Armolipid Plus (AP), composto por berberina – 500 mg, arroz vermelho, monacolina K – 3 mg e policosanol- 10 mg, na resistência à insulina, perfil lipídico, proteína C-reativa, pressão arterial e remodelação cardíaca em indivíduos afetados por SM, com hipertrofia ventricular esquerda.

Os pacientes foram randomizados para ingerir 1 comprimido de AP ou placebo (PL) uma vez ao dia, durante 24 semanas. Foram avaliados parâmetros antropométricos e vitais, colesterol total (CT), LDL colesterol, triglicerídeos (TG), HDL colesterol e colesterol não-HDL (NHDL-C).

Após 24 semanas de tratamento, a análise realizada em 141 indivíduos (71 no grupo AP e 70 no grupo PL), mostrou melhora significativa do perfil lipídico com redução no CT (- 13,2 mg / dl), LDL-C (- 13,9mg / dl) e NHDL-C (- 15,3 mg / dl) em ambos os grupos, comparado aos valores basais do início do estudo. No grupo AP houve aumento significativo de HDL-C (+ 2,0 mg / dl), comparado ao placebo.

Os resultados deste estudo mostram que em indivíduos com SM, o tratamento com AP melhorou o perfil lipídico e os fatores mais aterogênicos, sugerindo redução do risco de desenvolvimento e progressão da aterosclerose, particularmente em indivíduos com alto risco. Mais estudos com seguimento em longo prazo são necessários para confirmar esses resultados e avaliar seus efeitos na morbimortalidade por doenças cardiovasculares.

Referência: Galletti F, Fazio V, Gentile M et al. Efficacy of a nutraceutical combination on lipid metabolism in patients with metabolic syndrome: a multicenter, double blind, randomized, placebo controlled trial. Lipids Health Dis. 2019 Mar 18;18(1):66

Por Renata Gonçalves

Influência da dieta e suplementos orais em adultos obesos com depressão

Alimentação saudável e uso de suplementos ricos em ômega-3, vitamina D e ácido fólico têm sido associados a prevenção e melhora do tratamento do Transtorno Depressivo Maior (TDM), um distúrbio psiquiátrico também conhecido como depressão.  

Em recente estudo clínico randomizado duplo cego, Bot e colaboradores avaliaram a influência da dieta e da suplementação de diversos nutrientes, associados ou não a terapia cognitivo-comportamental (TCC), na prevenção de um novo episódio de TDM em 1.025 adultos obesos e sobrepeso com diagnóstico de TDM classificado pelo questionário PHQ-9.

O acompanhamento teve duração de 12 meses e os participantes foram divididos em 4 grupos: (1) suplemento placebo sem terapia (TCC); (2) suplemento placebo com TCC; (3) suplemento contendo multinutrientes sem TCC; ou (4) suplemento com multinutrientes associado a TCC. O suplemento de multinutrientes foi composto de 1.412 mg de ácidos graxos ômega-3 (eicosapentaenóico e docosahexaenóico), 30 μg de selênio, 400 μg de ácido fólico, 20 μg de vitamina D3 e 100 mg de cálcio, oferecidos em 2 comprimidos por dia, tomados diariamente durante 1 ano. Foram oferecidas 21 sessões de TCC, sendo 15 individuais e 6 em grupo, também durante 1 ano.

Avaliação dos participantes foi realizada nos períodos de 3, 6 e 12 meses do estudo. Apesar da boa aderência às intervenções (77%), os pesquisadores não observaram efeito significativo da suplementação ou alimentação associados a TCC na ocorrência de TDM (p > 0,05). Os autores da pesquisa sugerem que o baixo índice de diagnóstico de TDM no início do estudo e o tempo de acompanhamento que podem ter sido insuficientes para identificar efeitos positivos da intervenção. Assim, concluiu-se que em adultos com sobrepeso ou obesidade que apresentam sintomas depressivos, a suplementação de multinutrientes e terapia de ativação comportamental não reduziu os episódios de TDM durante o período de 1 ano de acompanhamento.

Referência: Bot M, Brouwer IA, Roca M, et al.  Effect of Multinutrient Supplementation and Food-Related Behavioral Activation Therapy on Prevention of Major Depressive Disorder Among Overweight or Obese Adults With Subsyndromal Depressive Symptoms: The MooDFOOD Randomized Clinical Trial. JAMA. 2019, 321(9):858-868. R

Por: Natália Lopes

Consumo de ovos e colesterol dietético na incidência de Doença Cardiovascular e Mortalidade

Colesterol é um nutriente comum da dieta contemporânea; e os ovos constituem uma fonte dietética importante desse nutriente. Apesar de décadas de pesquisa, a relação entre o consumo de colesterol dietético e doenças cardiovasculares (DCV) permanece controverso.

Em estudo recente, pesquisadores americanos analisaram a associação entre consumo alimentar de colesterol e ovos na incidência de DCV e mortalidade. Essa pesquisa faz parte do projeto “Lifetime Risk Pooling”, que analisou dados dietéticos autoreferidos de 29.615 participantes durante o período de 17 anos.

A idade média dos participantes foi de 51,6 anos. Em torno de 31% eram negros e 44,9% eram do sexo masculino. O consumo médio de colesterol foi de 241 mg por dia (IQR, 164-350). O consumo médio total de ovos foi de 0,14 por dia (IQR, 0,07 – 0,43) a média geral foi de 0,34.  Durante o tempo de acompanhamento do estudo, foram relatados 5.400 casos de DCV e 6.132 mortes por todos os tipos de causas.

A associação entre o consumo de colesterol dietético e ovos não foi significativamente relacionada  com a incidência de DCV e mortalidade (p > 1). Contudo, na subpopulação em que o consumo alimentar excedeu 300 mg de colesterol ao dia houve associação com maior incidência de DCV (razão de risco ajustado – RR 1,17 [IC 95%]; razão de risco absoluto ajustada RRA 3,24% [IC 95%] e mortalidade (RR 1,18 e RRA 4,43% [IC 95%]. Além disso, foi também observado que cada metade excedente de ovo consumido ao dia foi significativamente associado a maior risco de incidência de DCV (RR 1,06 [IC 95%]; RRA 1,11% [IC 95%]) e mortalidade (RR 1,08 [IC 95%] e RRA 1,93% [IC 95%].

Os autores da pesquisa concluíram que o consumo excedente de colesterol ou ovos na dieta de adultos americanos foi dose-dependente do risco de incidência de DCV e mortalidade. Sugere-se que o colesterol da gema de ovo pode ser prejudicial no contexto da alimentação americana, na qual a incidência de sobrepeso e obesidade são mais comuns do que desnutrição e baixo peso. A generalização desses achados para populações não americanas requer cautela devido a diferentes ambientes nutricionais e epidemiológicos de doenças crônicas.

Referência: Zhong VW, Van Horn L, Cornelis MC, et al. Associations of Dietary Cholesterol or Egg Consumption With Incident Cardiovascular Disease and Mortality. JAMA. 2019; 19;321(11):1081-1095.

Por: Jana Grenteski

Refrigerante Diet foi associado ao risco aumentado de Retinopatia Diabética Proliferativa

O consumo de refrigerantes diets, que são livres de calorias e de açúcar, estão sendo cada vez mais apontados como causas de resultados negativos a saúde.

Em estudo clínico transversal, 609 adultos diabéticos do tipo 1 (n=73), tipo 2 (n= 510) e outros tipos (n= 26) foram estudados para avaliar o efeito do consumo de refrigerantes diets no tratamento e evolução do diabetes. Os participantes foram divididos em 4 grupos principais: 1) grupo que não consumiu refrigerantes; 2) grupo com baixo consumo de refrigerantes diets (<1 lata de 350 ml); 3) com consumo moderado (1 a 4 latas) e 4) com alto consumo (>4 latas por semana). Esses dados dietéticos foram obtidos por questionário de frequência alimentar, com base no período de 1 ano.

Resultados mostraram que o grupo que consumiu mais de 4 latas de refrigerantes diets por semana teve risco 2,5 vezes maior de desenvolver retinopatia diabética proliferativa comparada ao grupo sem consumo de refrigerantes (odds ratio (OR) = 2,51; IC de 95%; p= 0,02). Esse resultado foi independente de fatores de risco para retinopatia diabética, duração da doença, tabagismo e índice de massa corporal (IMC).

Chamou a atenção dos pesquisadores que não houve associação estatisticamente positiva entre o consumo de refrigerantes normais e o aumento do risco de retinopatia diabética, entretanto, a quantidade desse produto foi baixa, o que pode ter limitado o resultado.

Hipóteses levantadas pelos autores do estudo é que o consumo de bebidas diet “enganam” o organismo; que entende que consumiu uma quantidade maior de energia, e não o valor real. Essa reação pode levar ao aumento da fome e maior ingestão de calorias a longo prazo. Adicionalmente, é sugerido que a alta presença de aditivos e corantes nesses produtos possam aumentar níveis de produtos finais da glicação avançada (AGEs) e a produção de citocinas pró-inflamatórias.

No momento, ainda são necessários mais estudos longitudinais para determinar se os refrigerantes diet são ou não uma alternativa saudável para substituir as bebidas adoçadas com açúcar.

Referência: Fenwick EK, Gan AT, Man RE, et al. Diet soft drink is associated with increased odds of proliferative diabetic retinopathy. Clin Exp Ophthalmol. 2018; 46(7):767-776.

Por: Priscila Garla

Dieta Vegetariana e relação com Doença renal crônica

Doença Renal Crônica (DRC) é um problema de saúde mundial e caracteriza-se pela redução progressiva da filtração glomerular e/ou presença de proteinúria, e retenção progressiva de compostos orgânicos, denominados toxinas urêmicas. Tem como principais fatores de risco a hipertensão, diabetes, obesidade, síndrome metabólica e consumo de substâncias com potencial nefrotóxico. Pesquisas prévias têm sugerido que a prática de uma alimentação equilibrada, especialmente a base de plantas e vegetais, pode gerar menor produção e absorção de toxinas urêmicas; e assim, auxiliar na redução de disfunções renais.

Recentemente, pesquisadores asiáticos realizaram um estudo retrospectivo que avaliou o efeito do consumo de dieta vegetariana, comparada a onívora, na prevalência de DRC. O estudo avaliou 55.113 adultos categorizados em 3 grupos de acordo com análise de questionários alimentares (veganos, ovolactovegetarianos e onívoros). Na análise estatística multivariada, a prevalência de DRC foi significativamente menor no grupo que consumiu dieta vegana em comparação com o grupo onívoro (p <0,001). Na análise de regressão logística multivariada, revelou-se que dietas vegetarianas (vegana e ovolacto), foram possíveis fatores de proteção a doença [odds ratios = 0,87 (0,77 ± 0,99), p = 0,041; 0,84 (0,78 ± 0,90), P <0,001].

No estudo, indivíduos adeptos da dieta onívora apresentaram maior Índice de Massa Corpórea (IMC), do percentual de obesidade abdominal e dos níveis séricos de colesterol total e triglicérides.

Os autores concluíram que o consumo de dieta a base de vegetais teve uma associação positiva com menores fatores de risco de doenças crônicas e com a prevalência de DRC.

Referência: LIU, HW, et al. Association of Vegetarian Diet with Chronic Kidney Disease. Nutrients 2019, 11(2), 279

Por: Magda Medeiros

Adiposidade central como forte preditor de risco para câncer

O excesso de peso corporal é um forte fator de risco para várias doenças, incluindo certos tipos de câncer. Nos Estados Unidos, estima-se que 21% destes  cânceres poderiam ser evitados a cada ano se a população adulta mantivesse um Índice de Massa Corpórea (IMC) <25 kg/m².

Recentemente, foi realizado um estudo de coorte prospectivo com objetivo de investigar a relação das medidas antropométricas com o risco de câncer. Foram elegíveis 26.607 indivíduos entre 35 e 69 anos, sem história prévia de câncer, com IMC > 18kg/m². O estudo consistia de um questionário contendo questões sociodemográficas, histórico de saúde pessoal e familiar, estilo de vida e questionários de medidas antropométricas (questionário HLQ), alimentar (CDHQ) e atividade física (PYTPAQ). As medidas antropométricas aferidas foram peso, altura, circunferência abdominal e do quadril.

Após 7 anos de acompanhamento, cerca de 2.370 indivíduos apresentaram câncer. A proporção de indivíduos com sobrepeso foi semelhante entre os grupos com câncer e sem câncer, entretanto, a proporção de indivíduos obesos no grupo com câncer foi maior do que no grupo sem câncer (33,5% vs. 27% em homens e 32% vs. 25% em mulheres). Os valores médios de circunferência da cintura (CC) e razão cintura quadril (RCQ) foram superiores no grupo com câncer.

Homens e mulheres que não desenvolveram câncer apresentaram tendência a serem mais jovens, não fumantes, pré menopausadas, com níveis mais altos de educação, renda familiar e maior prática de atividade física no início do estudo, em relação aos que desenvolveram câncer. Em homens foi observada uma tendência positiva na relação entre o aumento do IMC e a incidência de todos os tipos de câncer (Ptrend ≤0,001), câncer de colon, linfoma não Hodgkin e cânceres hematológicos. Na comparação de homens com IMC normal (<25kg/m²) e IMC ≥30kg/m², estes últimos apresentaram aumento de 33% no risco de desenvolver câncer, sendo 2,71 X o risco para câncer de cólon e 2,47 para linfoma não Hodgkin. Mulheres com IMC ≥ 30kg/m² tiveram um aumento de 22% no risco de desenvolver todos os tipos de câncer. Foi observada uma associação positiva forte entre IMC ≥ 30kg/m² e risco de câncer endometrial. Mulheres com sobrepeso (IMC ≥ 25kg/m²) apresentaram aumento significante do risco para câncer de cólon. Quando ajustados às variáveis, a CC reduzia o risco encontrado para os cânceres. Utilizando o ponto de corte para CC trazido pelos guidelines (102 e 88 cm, respectivamente para homens e mulheres), os homens com medidas superiores apresentaram aumento do risco para todos os canceres (HR=1,22), e especificamente para câncer de cólon, hematológico (HR=1,56) e linfoma não Hodgkin (HR=2,11). As mulheres com medidas superiores ao ponto de corte aumentaram significativamente o risco para todos os cânceres (HR=1,17) e câncer endometrial (HR=3,14), mesmo quando ajustadas as variáveis.

A partir dos dados encontrados, os autores sugerem que a adiposidade central é um forte preditor de risco para todos os tipos de cânceres, principalmente em mulheres.

Referência: Barberio AM et al. Central body fatness is a stronger predictor of cancer risk than overall body size. Nat Commun. 2019; 10: 383.

Por: Marcella Gava

Dietas vegetarianas para gestantes

Foi publicado o posicionamento oficial da Sociedade Italiana de Nutrição Humana sobre dietas vegetarianas em gestantes. Foram avaliados dois tipos de dietas vegetarianas: ovolactovegetariana, que exclui carnes, mas inclui produtos lácteos, ovos, mel; e veganas, que exclui carnes, produtos lácteos, ovos e mel.

A revisão incluiu 295 artigos científicos e destacou o consumo de proteínas, vitamina B12, ferro, zinco, cálcio, vitamina D e ácidos graxos ômega-3. Adicionalmente, foi avaliado a qualidade de proteína oferecida, sendo que esta é afetada pela digestibilidade e composição de aminoácidos. Como sugestão, proteínas vegetais concentradas ou purificadas (por exemplo, proteína de soja ou glúten) tem alta digestibilidade (>95%) ao contrário de vegetais intactos, como cereais integrais (digestibilidade em torno de 80-90%) ou outras proteínas vegetais (50-80%) devido paredes celulares e fatores antinutricionais.

Os poucos estudos comparando gestantes vegetarianas com onívoras demonstrou nenhuma diferença de peso ao nascer dos bebês, sendo que os amamentados de mães vegetarianas também tiveram um crescimento semelhante aos de mães onívoras.

Níveis sanguíneos de vitamina B12 em gestantes vegetarianas foram menores comparado a onívoras. Esta vitamina está presente em alimentos de origem animal e em pequenas quantidades em algumas algas, com biodisponibilidade baixa (lembrando que a vitamina B12 requer o fator intrínseco para sua absorção). Deste modo, a biodisponibilidade de vitamina B12 em vegetarianos depende da quantidade de alimentos de origem animal que estes consomem, assim como alimentos fortificados ou suplementos para veganos. É incentivado consumir uma fonte viável de vitamina B12, sendo que deve ser considerado que a absorção desta é 40% e deve alcançar ≥ 4 microgramas por dia.

No que diz respeito ao cálcio, é recomendado que as veganas consumam regularmente alimentos que sejam boas fontes como vegetais com baixo oxalacetatos e fitatos, produtos de soja, sementes e oleaginosas. Além disso, vegetarianas devem ser aconselhadas a consumir alimentos ricos em ácido ascórbico em conjunto aos alimentos ricos em ferro para melhorar a sua absorção, além de usar processos culinários (como por exemplo germinação) que diminua o conteúdo de ácido fítico de cereais e vegetais e assim diminuir o sequestro de ferro. Alimentos fortificados em ferro e zinco são encorajados.

Bebês de vegetarianas tem menores quantidades plasmáticas do ômega-3 DHA. Deve ser estimulado que estas gestantes consumam oleaginosas, linhaça, chia e outros óleos regularmente. Sugere-se limitar o consumo de óleos de milho ou girassol devido ao alto teor de ácidos graxos ômega 6. Suplementos a base de algas são boas fontes de ômega 3 e são indicados para gestantes vegetarianas.

Referência: Agnoli C, Baroni L, Bertini I et al. Position paper on vegetarian diets from the working group of the Italian Society of Human Nutrition. Nutrition, Metabolism & Cardiovascular Diseases, vol 27, p 1037-52, 2017.

Por: Lenycia Neri

Benefícios da dieta sem glúten e pobre em FODMAPs em portadores de Doença Celíaca

Doença celíaca (DC) é uma desordem multissistêmica autoimune desencadeada pela ingestão de glúten. Os sintomas mais comuns da doença são distúrbios gastrointestinais (diarreia, distensão e dor abdominal). O tratamento dietético para DC é a exclusão de alimentos contendo glúten, que é uma proteína encontrada em grãos, como trigo, cevada, centeio e triticale. Entretanto, mesmo com dieta isenta de glúten, alguns pacientes relatam persistência de sintomas indesejáveis.

Recentemente, a revista científica Nutrients publicou um estudo randomizado duplo-cego de intervenção controlada, que avaliou os efeitos de dieta sem glúten versus dieta sem glúten e pobre em FODMAPs na sintomatologia gastrointestinal e sintomas psicológicos dos pacientes com DC.

Foram avaliados 50 pacientes, alocados aleatoriamente em dos dois grupos. Todos passaram por avaliação médica e nutricional, e responderam questionários a respeito de sintomatologia, gravidade da doença, sofrimento psicológico e qualidade de vida em relação à saúde. Após avaliação, um grupo recebeu orientações quanto à dieta sem glúten e com baixo teor de FODMAP e o outro grupo somente com dieta sem glúten.

Após 21 dias de intervenção dietética, os participantes do grupo com a dieta sem glúten e sem FODMAPs apresentaram maior bem-estar geral, menor queixa de dor abdominal e melhora da consistência fecal quando comparados ao grupo da dieta somente sem glúten. Houve também melhora da saúde psicológica e relatos de qualidade de vida.

Referência: RONCORONI, Leda et al. A Low FODMAP Gluten-Free Diet Improves Functional Gastrointestinal Disorders and Overall Mental Health of Celiac Disease Patients: A Randomized Controlled Trial. Nutrients, 2018; 8: 1023-1027.

Por: Ana Carolina Vicedomini