Autor: Martketing Ganep

Diretriz ESPEN para o Manejo Nutricional no Câncer – 2021

A Sociedade Europeia de Nutrição Clínica e Metabolismo (ESPEN) publicou recentemente Diretrizes práticas para manejo nutricional de indivíduos com neoplasias. O documento reúne 43 recomendações referentes ao diagnóstico e manejo nutricional para guiar a prática clínica de todos os profissionais da saúde envolvidos no cuidado ao paciente oncológico. 

Ao diagnóstico de qualquer tipo de câncer é recomendado que seja realizada triagem nutricional, devendo ser repetida regularmente dependendo da estabilidade clínica. Nos pacientes com alterações na triagem nutricional, é recomendada avaliação quantitativa do consumo alimentar, massa muscular, performance física e inflamação sistêmica. Quanto às necessidades energéticas, caso não seja medida individualmente, deve-se assumir a faixa de 25 a 30 kcal/kg/dia. A ingestão proteica recomendada é de 1 a 1,5 g/kg/dia. A recomendação para micronutrientes é a mesma para a população saudável (RDA) e é desencorajado o uso de altas doses de micronutrientes na ausência de deficiências específicas. Nos pacientes com perda de peso na presença de resistência insulínica, recomenda-se aumentar o teor de lipídios e reduzir o teor de carboidratos da dieta. 

Nos pacientes desnutridos ou com risco nutricional que estão aptos a receber alimentação via oral, se recomenda o aconselhamento nutricional, tratamento dos sintomas relacionados a baixa ingestão alimentar e oferecer suplementos nutricionais orais (SNO). Caso o consumo oral ainda se mantenha inadequado, recomenda-se nutrição enteral (NE) e a nutrição parenteral (PN) é recomendada se a NE for insuficiente ou não for possível. Não é recomendado nenhum tipo de dieta restritiva (como cetogênica) para pacientes com risco nutricional ou desnutrição. Em situações com redução importante da ingestão oral por período prolongado, é recomendado o aumento da nutrição (oral, enteral ou parenteral) de forma lenta e gradual, a fim de prevenir a síndrome da realimentação. Nos pacientes com ingestão dietética insuficiente de forma crônica e para aqueles com má-absorção, é recomendado NE ou NP domiciliar.  

São apresentadas recomendações para situações específicas, como (1) pacientes cirúrgicos: devem ser manejados conforme o protocolo ERAS e naqueles com câncer de TGI superior é recomendado o uso de imunonutrição; (2) durante tratamento radioterápico: recomenda-se aconselhamento nutricional individualizado e/ou uso de SNO para prevenção de piora do estado nutricional, além da triagem para disfagia e utilização de NE em casos de mucosite grave ou tumores obstrutivos de cabeça e pescoço; (3) durante tratamento com uso de drogas anticâncer: não se recomenda a suplementação de glutamina devido falta de evidências científicas robustas; (4) aos sobreviventes do câncer: recomenda-se manter peso adequado e hábitos alimentares e de estilo de vida saudáveis; (5) cuidados paliativos: recomenda-se rotineiramente triar a ingestão alimentar, mudanças de peso e IMC, sendo que aqueles com risco nutricional devem  ter o manejo dos sintomas que impactam no estado nutricional. O documento também discute sobre exercícios físicos, uso de fármacos e farmaconutrientes e manejo em transplante de medula óssea.

A diretriz completa pode ser acessada em:

https://www.clinicalnutritionjournal.com/article/S0261-5614(21)00079-0/fulltext.

Variações da dieta cetogênica no tratamento de epilepsia

Quadros de epilepsia podem ser considerados como resistentes a medicamentos quando não há controle da doença com o uso adequado de 2 drogas antiepléticas como monoterapia ou em uso combinado. Esta condição frequentemente requer intervenção de outras terapias, que podem incluir cirurgia, estimulação do nervo vago e terapia nutricional. A dieta cetogênica clássica (DC), que é rica em gordura, pobre em carboidratos e apresenta quantidades normais de proteínas vem se mostrando eficaz para tratamento da epilepsia resistente, apesar de dificuldades de adesão. Recentemente, um estudo randomizado comparou a eficácia da dieta de Atkins modificada (DAM) e da dieta de terapia de baixo índice glicêmico (LGIT) em comparação com a DC, particularmente na melhora de convulsões. O estudo foi realizado em um centro de referência de cuidados terciários na Índia, teve duração de 24 semanas e incluiu 170 crianças de 1 a 15 anos com epilepsia resistente a drogas, que apresentaram manifestação de 4 ou mais convulsões por mês, não responderam a 2 ou mais medicamentos anticonvulsivantes ou não foram submetidas a tratamento com terapia nutricional.

As crianças foram aleatoriamente designadas para receber dieta DC, DAM ou LGIT, em associação com a terapia com medicamentos anticonvulsivantes já em andamento. Prescrições de dieta personalizadas foram desenvolvidas para cada paciente, com base nas preferências alimentares e na dieta básica da família. Um protocolo de iniciação gradual sem jejum foi usado para a introdução da DC. Este protocolo envolveu a administração de 75% das necessidades calórica diárias no início do estudo, e o aumento gradual foi realizado ao longo de 2 a 4 semanas para atingir a meta calórica, conforme a tolerância.

A DC clássica foi iniciada na proporção de 1: 1 (lipídios: não-lipídeos) e este teor foi gradualmente aumentado para 2: 1, 2,5: 1, 3: 1 e 4: 1 a cada 48 horas, enquanto a cetose urinária e a tolerância eram monitoradas. Os pacientes do grupo DAM seguiram o Protocolo Johns Hopkins (até 10g de carboidratos/dia inicialmente) e a dieta LGIT foi iniciada com restrição de alimentos com alto índice glicêmico (> 55) e conteúdo de carboidratos limitados a aproximadamente 10% das calorias diárias. Todas as famílias foram informadas sobre a dieta e receberam um plano detalhado.

A aderência dietética média foi significativamente melhor na dieta LGIT (94,3% [2,6%]) em comparação com a DC (91,4% [2%]) ou DAM (90,6% [2,4%]). Todos os pacientes tiveram mais que 80% de adesão ao longo do estudo. Após 24 semanas de terapia dietética, houve mudança do percentual de frequência das crises ao comparar a coorte DAM com a DC e a coorte LGIT com a DC.

Um total de 158 crianças completaram o ensaio: DC (n = 52), DAM (n = 52) e LGIT (n = 54). A análise de intenção de tratar mostrou que, após 24 semanas de intervenção, a mudança mediana (intervalo interquartil [IQR]) na frequência das crises foi semelhante (P = 0,39) (DC: -66%; IQR, -85% a -38%; DAM: -45% ; IQR, -91% a -7%; e dieta LGIT: -54%; IQR, -92% a -19%). A diferença média na redução de convulsões entre DC e DAM foi de -21 pontos percentuais (IC 95%, -29 a -3 pontos percentuais) e entre DC e LGIT foi de -12 pontos percentuais (IC de 95%, -21 a 7 pontos percentuais). Os eventos adversos relacionados ao tratamento foram semelhantes entre a DC (31 de 55 [56,4%]) e a DAM (33 de 58 [56].

A DC apresentou efeito superior na redução de episódios de convulsão e a dieta LGIT apresentou equilíbrio entre a redução das convulsões e a diminuição dos eventos adversos em comparação com a DC e a DAM. Os autores concluíram que os potenciais benefícios das dietas DC, DAM e LGIT sugerem que as três intervenções são possibilidades que devem ser individualizadas com base na avaliação de riscos x benefícios.

Por Patrícia Morais

Referência

Sondhi, V. et al. (2020) ‘Efficacy of Ketogenic Diet, Modified Atkins Diet, and Low Glycemic Index Therapy Diet Among Children With Drug-Resistant Epilepsy’, JAMA Pediatrics, 174(10), p. 944. doi: 10.1001/jamapediatrics.2020.2282.

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Consenso para manejo nutricional em câncer gástrico e gastrectomia

A Sociedade de Gastroenterologia de Taiwan organizou o Consenso para manejo nutricional em câncer gástrico e gastrectomia para fornecer uma visão geral das evidências e recomendações sobre a terapia nutricional para pacientes com câncer gástrico submetidos à gastrectomia.

As principais recomendações consideram o estado nutricional pré-operatório na incidência de complicações operatórias e sobrevida de pacientes submetidos a gastrectomia, além de discutir sobre a nutrição pós gastrectomia.

A desnutrição pré-operatória está associada ao aumento de complicações e baixa sobrevida em pacientes com câncer gástrico que realizaram gastrectomia. Considera-se que a nutrição pode atuar para abreviar o tempo de internação, especialmente com a redução do jejum pré-operatório e nutrição enteral precoce. Para tal, recomenda-se a administração de líquidos claros com carboidratos no pré-operatório e o início da terapia nutricional enteral precoce de 6 a 12 horas após a cirurgia. Além de impactar positivamente o tempo de internação, a nutrição enteral no pós operatório precoce oferece menor risco de complicações que a terapia nutricional parenteral.

Deficiências nutricionais comuns após a gastrectomia incluem deficiências de vitamina B12, ácido fólico, ferro, cálcio e vitamina D. Essas deficiências são atribuídas à má absorção, rápido tempo de trânsito gastrintestinal, super crescimento bacteriano e ingestão oral insuficiente. A nutrição oral também é impactada pelo desconforto pós-prandial, que inclui plenitude epigástrica, saciedade precoce e sintomas da síndrome de dumping. Anemia e doença óssea metabólica também podem ser esperadas.

A suplementação de rotina desses micronutrientes é indicada para pacientes com câncer gástrico submetidos à gastrectomia total ou parcial, e o monitoramento sérico deve ser realizado.

Para vitamina B12, recomenda-se suplementação profilática na gastrectomia total, que pode ser realizada via intramuscular ou subcutânea com dose de 1000 mcg em meses alternados. Para gastrectomia parcial, recomenda-se o monitoramento periódico do nível sérico de vitamina B12 e suplementação conforme necessidade. Para deficiência leve, suplementar via oral (500 e1000 mcg / dia) e para deficiência grave utilizar vitamina B12 intramuscular ou subcutânea (1000-2000 mcg / mês).

Para ferro, recomenda-se a realização de monitoramento periódico dos níveis séricos de ferritina e hemoglobina (a cada 6 meses) em pacientes com gastrectomia total ou parcial. Em caso de deficiência de ferro, recomenda-se suplementação oral tanto para gastrectomia total quanto para parcial, com dose de 150 a 300 mg  de ferro elementar/dia por cerca de 4 a 6 meses.

Para cálcio e vitamina D, recomenda-se monitoramento periódico anual de 25-hidroxivitamina D e densidade mineral óssea para pacientes com gastrectomia total e parcial. A suplementação profilática com comprimidos multivitamínicos diários contendo 250 mg de cálcio e 400 UI de vitamina D pode ser considerado na gastrectomia total ou parcial associada a deficiências.

Para acessar o documento completo, acesse:

https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0929664619300130?via%3Dihub

Dieta plant-based/ low-fat versus dieta onívora low carb/cetogênica na ingestão energética

Várias teorias tentam explicar os mecanismos de regulação da ingestão energética em pessoas com sobrepeso e obesidade. O modelo carboidrato-insulina postula que dietas ricas em carboidratos levam ao excesso de secreção de insulina, aumentando a ingestão de energia e promovendo o acúmulo de gordura. Por outro lado, o modelo que considera baixa ingestão de carboidratos prevê a redução voluntária (de acordo com a vontade do paciente – ad libitum) da ingestão de energia em comparação com as dietas com baixo teor de gordura e alto teor de carboidratos.

Para testar estas duas hipóteses, Hall e colaboradores acompanharam 20 adultos com idade de 30 anos e índice de massa corporal (IMC) de 27,8 ± 1,3 kg m². Os pacientes foram internados no National Institute of Health Clinical Center e randomizados para consumir uma dieta minimamente processada à base de vegetais, baixo teor de gordura e alto teor de carboidratos (10,3% de gordura e 75,2% de carboidratos) com alta carga glicêmica (85 g/ 1.000 kcal) ou uma dieta cetogênica minimamente processada, à base de animais e pobre em carboidratos (75,8% de gordura e 10% de carboidratos) com baixa carga glicêmica (6 g /1.000 kcal). Todos os pacientes incluídos consumiram ambas as dietas de estudo por um período de 2 semanas, e a alternação de uma dieta para outra se deu imediatamente após o final do consumo da primeira. Foi identificado um caso de hipoglicemia que levou a desistência do participante durante a dieta pobre em carboidratos.

Os resultados primários compararam a ingestão média diária de energia ad libitum entre cada período de 2 semanas e na semana final de cada dieta. Os autores identificaram que a dieta com baixo teor de gordura levou a menor ingestão de energia, com redução de 689 ± 73 kcal/d na primeira semana (p < 0,0001) e 544 ± 68 kcal/d na segunda semana (p < 0,0001), em comparação a dieta com baixo teor de carboidratos em 2 semanas. Portanto, foi concluído que as teorias do modelo de carboidrato-insulina podem ser inconsistentes e se associam ao aumento da ingestão energética.

Referência:  Hall KD, Guo J, Courville AB. Effect of a plant-based, low-fat diet versus an animal-based, ketogenic diet on ad libitum energy intake. Nat Med. 2021 Feb;27(2):344-353.Link de acesso: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/33479499/

Por Lidiane Catalani

Posicionamento para o manejo da glicemia no exercício

As Associações Britânica, Canadense e o Conselho Internacional de Prevenção e Reabilitação Cardiovascular, juntamente com a Associação Britânica de Ciência do Esporte publicaram um posicionamento para manejo do controle glicêmico de indivíduos com diabetes mellitus (DM), em reabilitação cardíaca, antes, durante e após o exercício físico. O documento reúne recomendações referentes ao cuidado do indivíduo com DM no exercício, bem como prevenir riscos de eventos glicêmicos nesta população.

Os pacientes diabéticos em reabilitação cardíaca (RC) devem ser categorizados em DM1, DM2 em tratamento insulínico e DM2 em uso de hipoglicemiantes orais/manejo dietético e de estilo de vida. Os pacientes com DM1 apresentam os maiores riscos de descontrole glicêmico e devem ser manejados individualmente para manter os níveis de glicemia estáveis. Aos indivíduos em uso de insulina (DM1 ou DM2) em bolus é recomendado que: (a) a dose de insulina prandial antes do exercício deve ser reduzida em 25 a 50%, se a sessão de exercícios estiver no período de ação da insulina; (b) considerar a reduzir até 50% de insulina prandial na refeição após exercício e (c) redução de 20% de insulina basal diária, caso o paciente mantenha a regularidade na prática de exercícios físicos.  Já para os indivíduos em uso de bomba de insulina, as doses de insulina basal podem ser reduzidas entre 50 e 80%, de sessenta a noventa minutos antes dos exercícios e a dose habitual pode ser retomada após o exercício.

São apresentadas estratégias para prevenção de hiperglicemia e hipoglicemia. Em casos de hiperglicemia, deve-se adotar exercício aeróbico de baixa intensidade e, para pacientes com DM1 é recomendado além do exercício aeróbico, acrescentar exercícios de força. Nos casos de hipoglicemia antes e durante o exercício, utilizar 15 a 30g de carboidratos simples 30 minutos antes e 25 a 30g a cada 30 minutos de atividade. Aos que iniciam euglicêmicos, a prática de exercícios de força antes dos aeróbicos é mais adequada para prevenir hipoglicemia.

Aos pacientes que apresentam maiores riscos de hipoglicemia pós-exercícios recomenda-se exercícios no período matutino e para aqueles com tendência a hiperglicemia, é preferível o horário vespertino e noturno. Quanto aos hipoglicemiantes orais, pode ser necessária a ingestão extra de carboidratos no caso do uso de sufonilulreias e glinidas, devido ao risco aumentado de hipoglicemia. O documento também discute sobre as contraindicações da RC em pacientes com DM, monitoramento de glicemia e cetonas nos serviços de RC e adesão dos pacientes com DM à RC.

O posicionamento completo pode ser acessado em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/33361136/

Fórmula oligomérica possui melhor tolerância em crianças em UTI

A desnutrição é uma condição frequente em pacientes críticos de todas as idades. Em unidades de terapia intensiva (UTI), a via enteral é uma das mais utilizadas para melhorar o estado nutricional, e torna-se indispensável para a recuperação de pacientes pediátricos. Nesse sentido, a tolerância de fórmulas assume um papel importante para garantir a nutrição adequada.

Um estudo recente, conduzido por Ibrahim e colaboradores, comparou o uso de fórmula enteral oligomérica em relação a fórmula polimérica (padrão) e seus efeitos na tolerância alimentar nos desfechos em crianças críticas internadas em UTI. Foram incluídas crianças admitidas na UTI pediátrica com idade superior a 1 ano e com indicação de alimentação via sonda nasoenteral (SNE). Os pacientes foram divididos em dois grupos: dieta enteral oligomérica (NEO) e dieta padrão (NEP). Dados clínicos e de avaliação nutricional foram registrados.

Um total de 180 crianças com idade média de 3 anos foram avaliadas, sendo 90 em cada grupo. Os autores identificaram que o grupo NEO apresentou ganho de peso no período do estudo, e o grupo NEP apresentou perda de peso no final do estudo (p=0,045). O tempo de jejum antes de iniciar a dieta enteral foi semelhante entre os grupos. O grupo NEO atingiu suas necessidades nutricionais mais rapidamente que o outro grupo (2,6 X 5,36 dias; p=0,001) e com menos interrupções, causadas geralmente pelo aumento do volume gástrico residual, distensão abdominal, vômito e hematêmese, ocorrências mais frequentes no grupo NEP. A média de dias com sepse foi maior no grupo NEP (7,33 X 4,50 dias), porém o tempo de internação na UTI e a mortalidade não diferiu entre os grupos.

Os autores concluíram que nas condições do estudo conduzido, a fórmula enteral oligomérica foi mais bem tolerada que formulas poliméricas em crianças graves, e isso implicou em menores interrupções no fornecimento da dieta, melhor e mais rápido alcance da meta nutricional e melhora de peso.

Por Marcella Gava

Referências:

Ibrahim H,  Mansour M & El Gendy YG. Peptide-based formula versus standard-based polymeric formula for critically ill children: is it superior for patients’ tolerance? Arch Med Sci. Apr 2020; 16(3): 592–596.

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Diretrizes ESPEN para nutrição enteral domiciliar

Diretrizes publicadas pela ESPEN informam provedores de nutrição enteral domiciliar (NED) sobre suas indicações, contraindicações e cuidados para implementação e monitoramento.

A NED deve ser oferecida a pacientes com risco nutricional ou desnutridos que não conseguem atender às suas necessidades de nutrientes com a ingestão alimentar normal, sem comprometimento do trato gastrointestinal, que dispensam cuidados intensivos, que concordam e são capazes de cumprir a NED para melhorar o peso corporal, o estado funcional ou a qualidade de vida.

O método de administração da NED deve ser uma decisão da equipe multidisciplinar, ao considerar a doença do paciente, o tipo de sonda e seu posicionamento, a tolerância da alimentação e a preferência do paciente. Contudo, a administração via sonda nasoenteral é recomendada apenas por um curto período de tempo (4 a 6 semanas), e a gastrostomia endoscópica percutânea ou a jejunostomia endoscópica percutânea são os dispositivos de acesso preferenciais que devem ser priorizados quando a NED de longo prazo é necessária.

Na ausência de complicações após a colocação de gastrostomia, a nutrição enteral pode ser iniciada dentro de 2 a 4 horas. Apesar de ter se tornado parte dos cuidados de rotina, a nutrição jejunal por sonda nasojejunal ou jejunostomia após cirurgia abdominal não possuem regimes de início da alimentação bem definidos e há uma grande heterogeneidade na prática.

A infusão de dieta em bolo, intermitente ou contínua por meio de bomba de infusão podem ser usadas dependendo da necessidade clínica, segurança e nível de precisão exigidos.

A NED NÃO É INDICADA quando:

  1. A expectativa de vida for estimada em menos de um mês;
  2. Houver distúrbios funcionais graves do intestino
  3. Há obstrução ou sangramento gastrointestinal, má absorção grave ou desequilíbrios metabólicos importantes;
  4. Não houver concordância do paciente e / ou seus responsáveis legais ou não forem capazes de cumpri-lo;
  5. Problemas organizacionais / logísticos que não possam ser superados;

Outras práticas como manejo e manutenção de infecções de ostomias, lavagem de sonda e administração de medicamentos por vias de acesso a nutrição também são discutidos nas diretrizes.

Para acessar o documento na íntegra, consulte o link:https://www.clinicalnutritionjournal.com/action/showPdf?pii=S0261-5614%2819%2930198-0

Estado nutricional e risco de mortalidade em pacientes com COVID-19

Para conhecer o estado nutricional de pacientes com coronavírus, um estudo avaliou 413 pacientes no West Campus of Union Hospital em Wuhan. Foram consideradas as características clínicas e nutricionais de pacientes críticos graves e infectados com a síndrome respiratória aguda grave coronavírus (SARS-CoV-2) e a relação entre o risco nutricional e os resultados clínicos.

A infecção foi confirmada com o teste positivo de ácido nucleico. Dados clínicos foram coletados e o risco nutricional foi avaliado usando a ferramenta de triagem NRS 2002. Um total de 346 pacientes foram classificados como graves (dificuldade respiratória e alterações na saturação de pulso de oxigênio no ar ambiente e relação de oxigenação arterial baixa) e 67 como críticos (insuficiência respiratória com necessidade de ventilação mecânica, ocorrência de choque ou falência de outro órgão que exija monitoramento e tratamento em UTI). Alterações significativas foram identificadas nos parâmetros relacionados à nutrição e marcadores inflamatórios.

Dentre os pacientes com pontuação NRS 2002 ≥3, apenas 84 (de 342, 25%) receberam terapia nutricional. Particularmente em pacientes críticos, os escores do NRS 2002 foram elevados (p <0,001) e se correlacionaram com marcadores inflamatórios, e aqueles com maior pontuação do NRS 2002 apresentaram maior risco de mortalidade e maior tempo de internação. Modelos de regressão logística mostraram que o aumento de 1 unidade no escore do NRS 2002 foi associado ao aumento do risco de mortalidade em 1,23 vezes (odds ratio ajustado, 2,23; IC de 95%, 1,10-4,51; p = 0,026).

Em conclusão, os pacientes mais graves e críticos infectados com SARS-CoV-2 foram classificados com risco nutricional e apresentaram tendência a piores resultados. A terapia nutricional adequada pode melhorar efetivamente os pacientes com SARS-CoV-2 com alto risco nutricional, melhorando seu estado nutricional e seus resultados clínicos.

Por Maria Carolina Gonçalves Dias

Referência:

Zhao X, Li Y, Ge Y, et al. Evaluation of Nutrition Risk and Its Association With Mortality Risk in Severely and Critically Ill COVID-19 Patients. JPEN J Parenter Enteral Nutr. 2021;45(1):32-42. doi:10.1002/jpen.1953

Posicionamento ADA para o manejo de Diabetes Mellitus (DM) na gestação

A Associação Americana de Diabetes (ADA) publicou um posicionamento para manejo de Diabetes Mellitus (DM) na gestação. O documento reúne as recomendações referentes ao cuidado à gestante com DM para guiar a prática clínica, bem como ferramenta para avaliar a qualidade do manejo clínico.

A prevalência de DM na gestação tem aumentado no mundo, incluindo DM tipo 1, DM tipo 2 e o diabetes gestacional (DMG). A presença destas doenças na gestação aumenta o risco de complicações maternas e também consequências para o feto e recém-nascido. O documento apresenta recomendações associadas ao cuidado pré-concepção, em destaque a dosagem de hemoglobina glicada em mulheres saudáveis e o acompanhamento multiprofissional, incluindo nutricionista, daquelas com a doença pré-existente.

Na presença de diabetes mellitus na gestação, tanto no DM pré-existente como no DMG, recomenda-se a dosagem da glicemia de jejum e do auto monitoramento da glicemia pós-prandial. As metas glicêmicas são: glicemia de jejum < 95 ml/dl; glicemia pós-prandial 1h <140 ml/dl e glicemia pós-prandial 2h <120 ml/dl; HbA1c <6% ou <7% caso necessário prevenção de hipoglicemia.

Referente ao manejo direcionado ao DMG, a mudança de estilo de vida é considerada suficiente para o tratamento da maioria das gestantes, sendo a insulinoterapia recomendada,  caso necessário, para atingir o controle glicêmico. O uso de metformina ou glibenclamida não deve ser empregado como primeira escolha terapêutica.  Por outro lado, a insulinoterapia é o tratamento preferencial para o cuidado das gestantes com DM tipo 1 e tipo 2 pré-existentes.

Quanto ao manejo dietético, a ADA sugere que o plano alimentar siga as recomendações das DRIS, destacando o mínimo de 175g de carboidratos, o mínimo de 71g de proteínas e 28g de fibras. Além disto, a dieta deve priorizar alimentos fontes de ácidos graxos mono e poli-insaturados; limitar os ácidos graxos saturados e evitar a gordura trans. Também, deve ser considerado no planejamento alimentar que os carboidratos simples apresentam maior impacto na glicemia pós-prandial. 

O documento também discute sobre o uso de medicações, como betabloqueadores, pré-eclâmpsia e os cuidados pós-parto para mulheres com diabetes na gestação.

Para acessar o posicionamento completo, clique em:

https://care.diabetesjournals.org/content/44/Supplement_1/S200.

Circunferência da cintura e HDL-colesterol são os indicadores de síndrome metabólica mais alterados na população brasileira

Hipertensão arterial, obesidade abdominal, dislipidemias e alteração de glicemia fazem parte do conjunto de disfunções que caracterizam a Síndrome Metabólica (SM). A SM tem forte correlação com doenças cardiovasculares e diabetes tipo 2, entre outras doenças crônicas não transmissíveis, que são a maior causa de morbimortalidade da população brasileira. Dados sobre a prevalência de SM na população adulta brasileira apresentaram-se pouco consistentes – os dados apresentados pela literatura podem variar de 9% até 44%. Essa variação é justificada pois esses estudos apresentaram diferentes metodologias e recortes populacionais.

Um grupo de pesquisadores de Minas Gerais conduziu um estudo para estimar a prevalência de SM na população brasileira de acordo com fatores sociodemográficos, utilizando um consenso padronizado por diversos comitês e aceito internacionalmente. Foi realizado um estudo transversal analítico utilizando os dados da Pesquisa Nacional de Saúde e dados de exames laboratoriais (sangue e urina) dos entrevistados, coletados à posteriori. A entrevista foi realizada via contato telefônico. A amostra, de 8.952 pessoas, foi estratificada segundo: sexo, idade, escolaridade e região.

A prevalência de SM foi estimada pela presença simultânea de pelo menos três dos cinco fatores definidos com base em critérios de comitê internacional: colesterol HDL < 50mg/dl feminino e < 40mg/dl masculino; pressão arterial ≥ 130/85 mmHg, circunferência da cintura ≥ 80cm feminino e ≥ 90cm masculino, hemoglobina glicada ≥ 5,6 mmol/L (em substituição à glicemia glicada) e colesterol total ≥ 200mg/dl (em substituição aos triglicérides). Essas substituições se deram, pois não foi exigido jejum dos participantes. A prevalências da SM e de seus componentes de acordo com as características sociodemográficas (sexo, idade, escolaridade, cor da pele/raça e moradia – rural / urbana) foram calculados com intervalos de 95% de confiança. Os resultados encontrados revelaram que a cada três brasileiros, um apresenta SM.

Esta proporção é ainda maior entre mulheres, indivíduos com menor escolaridade e aqueles com idade mais avançada. O indicador isolado de SM mais prevalente foi a circunferência da cintura, mais de 70% das mulheres participantes apresentavam valores elevados de circunferência da cintura, versus 56% dos homens. Outro indicador que merece destaque foi o colesterol HDL que se apresentou baixo em 55% das mulheres e 43% dos homens. O estudo concluiu que a SM é uma condição muito prevalente na população brasileira, sendo que esses achados devem ser usados para consolidar e fortalecer políticas públicas que promovem estilos de vida saudáveis.

Por Magda Medeiros

Referência:

Oliveira LVA et al. Prevalência da Síndrome Metabólica e seus componentes na população adulta brasileira. Ciência & Saúde Coletiva, 25(11):4269-4280, 2020.

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